Slideshow: Tunísia por Nelson Garrido
Não gosta de praias de areia branca quase desertas? Odeia discutir política? E uma esplanada onde o chá de menta com pinhões é delicioso e a vista perfeita? Ruínas romanas só para si? Uma mesquita onde cabem seis mil pessoas para visitar sem mais ninguém? Uma cidade só para si? Pessoas com vontade de receber? Mais praias mediterrânicas desertas? Pessoas com vontade de conversar, experimentando a liberdade recém-conquistada?
Se não gosta de nada disto, pode parar de ler. A Tunísia não é para si. Talvez já tenha sido, quando os turistas eram quase tantos como os retratos do Presidente Zine El Abidine Ben Ali, mas agora que os retratos do ditador foram arrancados já não é.
A Tunísia de hoje - e dos próximos meses, pelo menos - , é para viajantes que preferem conhecer as populações dos países que visitam a conviver com outros turistas. É para os que gostam de espaço na praia e no bufete do pequeno-almoço do hotel. De poder escolher a mesa na esplanada do café. De ter os vendedores do souq todos à disposição. É ainda mais para quem queira ter o privilégio de visitar um país que quer renascer, que está à procura do seu futuro, que será democrático mas necessariamente lento a desenhar-se. Já, quando a revolução que derrubou Ben Ali a 14 de Janeiro ainda está fresca, quando os 29 dias de protestos pacíficos que fizeram cair uma ditadura de 23 anos ainda foram ontem. Já, quando os tunisinos ainda sonham que tudo é possível.
É verdade: para além da lista inicial, é muito provável que se cruze com manifestações. Podem ser greves de funcionários do lixo, de mineiros, de condutores de autocarros, podem até ser manifestações de islamistas - a ditadura não tratou muito bem a religião e agora há quem queira rezar na rua simplesmente porque isso passou a ser possível -, mas também podem ser protestos de jovens laicos, que querem que a religião continue separada do Estado no seu país, como acontece desde a independência em 1956.
Se quiser uma viagem sem manifestações, também se arranja. Chegue a Tunes ao cair da noite, evite a Avenida Habib Bourguiba, onde se concentraram os protestos que na capital acabaram por forçar o ditador a fugir do país, e apanhe logo o seu transporte para Cartago, nos arredores, ou mesmo para Sousse ou Hammamet, na costa, mais a Sul. Bem, em Hammamet ainda a semana passada houve uma manifestação, mas eram apenas 2500 funcionários do sector do turismo que queriam alertar o resto dos tunisinos para os problemas que o sector encontra no pós-revolução.
Se fugir depressa de Tunes, fica a perder, mas a probabilidade de evitar uma manifestação é, digamos, igual à de escapar a um protesto em qualquer outro destino. Se não tiver problemas com manifestações - ou se até lhes achar graça - fique em Tunes pelo menos dois ou três dias. Vale a pena.
Uma medina e uma surpresa
O melhor de Tunes é a sua medina, labiríntica, a pedir tempo para ser explorada. Se a entrada se fizer pela porta de França, com o seu arco imponente a assinalar o local onde se erguiam as muralhas até os franceses as demolirem para ali abrirem a praça da Vitória, a primeira rua que se apresenta é a Jemaa Zaitouna, a mais turística, com vendedores de roupa, loiça e bolinhos doces de tâmara ou amêndoa. Quase em linha recta, não espelha o que a medina tem para oferecer.
De costas para a porta de França, à esquerda fica a zona dos alimentos, que se prolonga para fora da cidade velha. Quem queira comprar fruta - citrinos sumarentos ou tâmaras de todas as qualidades - não encontra melhor opção no centro da cidade. Para a direita estende-se o grosso do souq, a parte que vale a pena percorrer, com as suas ruas estreitas, jogos de luzes e sombras, bonitas janelas e portas de madeira e ferro, barbeiros, cafés antigos com paredes cobertas de azulejos e chá que custa menos de nada, uma série de mesquitas e madrassas (escolas) construídas por governantes árabes ou turcos, a zona dedicada aos acessórios de casamento, as carpintarias, o souq dos perfumes e o mercado das jóias e do ouro, onde os turistas quase nunca chegam e os vendedores parecem ter todo o tempo do mundo.
A rua Jemaa Zaitouna desemboca numa praça ampla onde se ergue a grande mesquita Zaitouna (oliveira), um edifício reconstruído no século IX a partir de uma mesquita mais antiga, imponente e harmoniosa com as suas colunas romanas trazidas de Cartago. O pátio, que é onde os visitantes não muçulmanos podem entrar, oferece a merecida tranquilidade e o silêncio desejado depois um passeio pelo souq.
Foi aqui que no nosso primeiro dia de regresso à Tunísia tivemos a grande primeira surpresa da viagem. "Então, está boa? Desta vez não vai a Sidi Bouzid?" Assim, em português mais correcto era impossível, surge-nos Bouazid, que tínhamos conhecido em Janeiro, em Sidi Bouzid, a cidade esquecida do interior da Tunísia onde o jovem vendedor ambulante Mohamed Bouazizi se imolou pelo fogo sem saber que com esse gesto ia dar início a uma vaga de democratização - ali, onde menos se esperava, no mundo árabe.
Bouazid está em Tunes para acompanhar um grupo de operadores turísticos de Portugal convidados pelo Turismo da Tunísia. "Este é o meu primeiro grupo do ano. Antes tinha trabalho todas as semanas", explica este guia de portugueses que vamos voltar a encontrar em El Jem.
Bouazid espera que as eleições para a Assembleia Constituinte, a 24 de Julho, funcionem como marco simbólico no espírito dos agentes de viagem e dos turistas. Se correrem bem, como tudo indica, os turistas vão voltar ao país. "Para o turismo já vêm tarde, para a nossa democracia talvez sejam demasiado cedo", diz Bouazid. Ele sabe que nunca um país saído de uma ditadura elegeu uma Assembleia Constituinte tão depressa. Sabe que os processos de transição levam tempo e acredita que os tunisinos já perceberam que as mudanças vão chegar mas vão tardar. Agora, é tempo de aprender. "Durante mais de 50 anos não se falava de política. Passámos da hegemonia de um partido, com uns quantos ditos de oposição mas que eram apenas figurantes, para 50 partidos autorizados... fora os que estão a aguardar autorização." Sair de uma ditadura é um processo que pode parecer rápido e lento em simultâneo, um bocadinho como crescer: começamos a falar depressa, mas demoramos até falar correctamente.
Almoçar num museu
A conversa e o passeio abriram-nos o apetite e ainda bem que nos deixámos ficar pela medina. Há poucos sítios em Tunes onde vale tanto a pena almoçar como no restaurante Dar Bel Hadj. A entrada faz-se por uma rua estreita que não nos prepara para o interior vasto deste palácio do século XVII onde, para além de comer, vale a pena espreitar cada recanto, das salinhas com sofás para beber café e fumar cachimbo de água às casas de banho, passando pelas salas privadas para 25 pessoas, dos mosaicos da parede à loiça.
O palácio é também um pequeno museu e a comida é deliciosa, das entradas aos pratos mais tradicionais, do cuscuz ao peixe fresco, das azeitonas à limonada doce, da fruta aos bolinhos secos.
O Dar Bel Hadj é um negócio de família e hoje é propriedade de dois irmãos. Um deles explica-nos que em Janeiro só esteve fechado durante duas semanas, quando não havia clientes e os tunisinos aguardavam em casa ou em protestos pelo desenrolar da sua revolução. A quebra do turismo não está a ser um grande golpe para este restaurante porque a maioria dos clientes são tunisinos.
A Kasbah, a praça dos ministérios de onde os manifestantes não saíram até verem cair os primeiros governos interinos, que mantinham nas principais posições gente ligada ao ditador derrubado, fica ali a poucas centenas de metros. No Dar Bel Hadj, há uma mesa comprida, cheia de tunisinos de fato e gravata e de tunisinas de blazer. Almoçam e conversam, muito. Apetece imaginar que estão a discutir a nova Constituição, as novas liberdades e os novos direitos. O novo regime político que deverá ser desenhado para distribuir poderes entre diferentes órgãos e nunca mais permitir a uma só pessoa reclamar-se dona e senhora de todo um país.
Para continuarmos a imaginar como será a Tunísia pós-Ben Ali, nada melhor do que deixarmos a medina e seguirmos até à Bourguiba, a grande avenida que começa na antiga praça 7 de Novembro, com a sua espécie de Big Ben em metal, continua até se chamar avenida de França e só acaba no arco da praça da Vitória, às portas da cidade velha.
Ao longo da avenida, os pontos de interesse são vários e as paragens devem fazer-se consoante os gostos de cada um. Há a catedral São Vicente de Paulo, com elementos góticos, bizantinos e mouriscos e missas regulares em francês, o Teatro Nacional, construído no início do século passado pelos franceses, a livraria Al-Kitab, a primeira que, logo em Janeiro, decidiu encher a montra com os livros proibidos pela ditadura, ou, no extremo oposto à medina, o Ministério do Interior, onde ainda sobram blindados e arame farpado a lembrar os dias em que os soldados decidiram não obedecer às ordens de um poder moribundo e recusaram disparar contra os manifestantes.
Graffiti e política
Também há um novo roteiro, que ainda não vem nos guias de viagem. O roteiro dos graffiti da revolução, em árabe e francês, menos em inglês. Nas paredes espalham-se palavras que evocam os princípios da Revolução Francesa ou os slogans da tunisina ("dègage" - "fora" tornou-se desde Tunes na palavra de ordem para expulsar ditadores, mesmo em países anglófonos, como o Egipto), assim como os devidos agradecimentos às novas realidades que ajudaram a tornar esta revolta possível: "Obrigado Facebook".
Pelo meio há muitas esplanadas onde vale a pena parar, para tomar um café, comer um gelado ou um croissant estaladiço, digno de Paris (quando a Tunísia era terra de muitos turistas, estes chamavam à Bourguiba Champs-Élysées), ou apenas ver passar a multidão.
As esplanadas ficam nos passeios laterais da avenida. No passeio central há bancos, árvores e, muito provavelmente, uma ou duas manifestações. Em frente ao Teatro Nacional, por exemplo, se vir muita gente parada a conversar, não se trata exactamente de uma manifestação, mas antes de uma espécie de assembleia popular ao ar livre: os novos partidos que não estão ainda representados na assembleia municipal da cidade enviam para ali representantes com o simples propósito de discutir o presente e o futuro. Entre si ou com queira parar por ali.
É "um mosaico político", explica-nos Mohamed Barhuni, professor e jornalista. "Estão aqui a esquerda, os religiosos, os nacionalistas árabes... Estão aqui todos. E todos têm alguma coisa a dizer. A nossa revolução não foi enquadrada, não teve líderes. Agora, cada um assiste a um programa de televisão, ganha algum conhecimento e amanhã já é um analista político." Sim, já há 50 partidos autorizados na Tunísia mas, na verdade, hoje cada tunisino é o seu próprio partido. Porque muitos anos em silêncio dão muita vontade de falar.
Mosaicos e ruínas
Para a manhã seguinte, e antes de deixarmos Tunes para trás, guardámos uma visita ao Museu do Bardo, no bairro com o mesmo nome, mesmo ao lado do Parlamento, casa de uma das maiores e mais bonitas colecções de mosaicos romanos do mundo. Actualmente em obras de ampliação, para poder passar a ter expostas mais colecções em simultâneo, o museu oferece ainda assim salas suficientes para lá se perder um bom par de horas.
"A terra dos mosaicos não é Roma, é a Tunísia. Não eram os romanos que os faziam, mas os berberes", começa por explicar Khaled, o guia, antes de nos conduzir por salas repletas de estátuas, sarcófagos e mosaicos imponentes que tanto podem representar cenas da vida quotidiana como caçadas, ciclopes, as viagens de Ulisses pelo mar ou o casamento de Ariana e Baco.
Os jardins do palácio onde se situa o museu, um dos mais importantes do continente, escondem uma esplanada com sombras onde recuperar forças com um chá. Pelo jardim há alguns vendedores de bijutarias e ali fica a loja do próprio museu. "Por favor, diga aos portugueses que venham", pede Sami, que não se importa de trocar este pedido pela oportunidade de tentar fazer negócio.
O dia está soalheiro mas não demasiado quente e adequa-se por isso a uma visita por Cartago, nos arredores. Uma viagem de menos de meia hora, saindo da capital pelo golfo de Tunes em direcção aos subúrbios ricos, é aqui que se ergue o Palácio Presidencial onde já não mora ninguém.
De entre as muitas ruínas romanas que podem ser visitadas, o anfiteatro é a mais importante. Destruído em várias guerras ao longo dos tempos, já não tem os cinco andares de outrora nem lugares para 1500 espectadores, mas um passeio pela arena a olhar o que sobra da grandiosa construção oval permite imaginar como seria o anfiteatro inteiro e repleto de gente a assistir a combates entre gladiadores e leões. A partir daqui, é escolher: há as cisternas, as termas antoninas (e as lojas em frente, todas fechadas menos uma, por falta de compradores), a basílica cristã de Damous El Karita e ainda a mesquita Ben Ali, de mármore branco e cúpulas de mosaico verde, que o próprio ditador mandou construir a imitar a de Fez (Marrocos) e que só ele poderia ter decidido fazer, já que não é permitido construir nada em toda esta área de colinas e ruínas.
As cores de Sidi Bou Said
Sidi Bou Said fica a menos de 20 minutos de viagem e a tarde pede ainda um merecido descanso com vista para o Mediterrâneo. Na região de Tunes, poucos destinos se apresentam tão diferentes repletos de turistas ou desertos de estrangeiros como Sidi Bou Said. Vila no cima de uma colina, é preciso subir para alcançar as melhores vistas, mas as ruelas de pedra e casas de paredes de um branco imaculado e janelas azul vivo, de inspiração andaluza, com trepadeiras floridas, convidam ao passeio. Paul Klee andou por aqui e há quem reconheça as cores destas buganvílias e deste mar brilhante nos seus quadros.
Pode conhecer-se Sidi Bou Said em três ou quatro horas ou deixar-se ficar dias a divagar pela vila ao cheiro das laranjeiras e das flores de jasmim. Em qualquer dos casos, recomenda-se uma visita ao Dar Ennejma Ezzahra, o museu que já foi a casa do franco-americano barão Rodolphe d"Erlanger. A mansão dividida em zonas de estar adequadas a cada estação do ano é uma maravilhosa mistura de cultura árabe e Art Deco, tem uma colecção de gramofones e de instrumentos musicais, um pequeno espaço de oração, pátios onde por vezes se organizam concertos de música clássica e magníficas vistas da vila a partir do terraço de vários níveis.