Fugas - Viagens

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Roadside America: Jóias à beira da estrada

Até que, em 1956, o Governo Federal aprovou uma lei destinando cerca de 33 mil milhões de dólares para a construção de auto-estradas. Passou a ser possível viajar de costa a costa dos Estados Unidos sem precisar de fazer grandes paragens. Para tornar o sistema mais funcional, a lei previa o condicionamento dos acessos às auto-estradas, proibindo qualquer espécie de distracção nas bermas. As novas condições de circulação coincidiram, por isso mesmo, com a multiplicação de estabelecimentos de traça uniforme de marcas como Shell nos combustíveis, Holiday Inn na hotelaria ou McDonald's na restauração. O êxito destes fenómenos de estandardização e franchising foram a machadada final para muitos negócios independentes de arquitectura ou design únicos, semeados à beira de antigas e cada vez menos usadas rodovias de via dupla.

Consagração da nostalgia

Foi este universo tipicamente norte-americano, entretanto desqualificado como baixa cultura e condenado em nome do progresso, que John Margolies se propôs documentar a partir de meados dos anos 70. Recorreu à fotografia, mesmo sem saber grande coisa de fotografia e ao longo de trinta anos de carreira foi repetindo que não era fotógrafo. John usava máquinas Canon, uma lente básica (há quem prefira dizer "clássica") de 50 mm e filmes de 25 ASA, um tipo de filme lento, ideal para puxar pelas cores. Nunca chegou, por outro lado, a fazer o upgrade para o digital.

Margolies tinha, no entanto, um método peculiar, ou melhor será dizer a sua própria rotina de campanha. Ele, que vivia em Nova Iorque, partia à exploração de estradas secundárias na América profunda, por temporadas mais ou menos largas (conforme os patrocínios), mas sempre na estação baixa, para evitar eventuais congestionamentos de trânsito. Chegava aos sítios através de uma ou outra dica de edifícios na sua esfera de interesses, depois ia perguntando e descobrindo outros pelo caminho.

Fotografava sempre com céus azuis (pelos quais podia esperar vários dias), de preferência de manhãzinha, condições que lhe permitiam tirar partido das cores mais frequentemente saturadas dos seus temas. Mas não procurava uma perspectiva especial, ou qualquer tipo de efeito autoral. As suas imagens comungam de uma neutralidade, mais tarde revalorizada como o tom perfeito para acentuar a carga dramática/ poética das suas atracções arruinadas.

Os prédios que fotografava poderiam estar ao abandono ou à beira da demolição, mas as suas imagens depressa chamaram à atenção, valendo-lhe uma subvenção da Guggenheim Fellowship em 1978. Outros financiamentos se seguiram, permitindo-lhe passar até quatro meses por ano a fotografar on the road. Depois vieram as exposições, a começar pelos hotéis das montanhas de Catskill, no Museu Cooper-Hewitt de Design de Nova Iorque, em 1980, e as edições em livro, seja sob a forma de catálogo das exposições, seja de antologias temáticas, dedicadas a especialidade como os cinemas drive-in e os minigolfes.

A consagração internacional chegou já no novo milénio, com homenagens em lugares tão distantes quanto Roma e Macau, ao mesmo tempo que o próprio Congresso norte-americano lhe reconheceu o mérito, comprandolhe fotografias para o seu arquivo. O mesmo é dizer que as imagens de John Margolies e, consequentemente, a arquitectura e o design vernaculares que passou a vida a retratar, já não são considerados uma piada de mau gosto, mas parte integrante da identidade americana.

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