Fugas - Viagens

Roadside America: Jóias à beira da estrada

Por Luís Maio

John Margolies passou mais de três décadas a fotografar relíquias arquitectónicas plantadas à beira de velhas estradas norte-americanas. Roadside America é a mais recente retrospectiva da sua obra, lançada pela Taschen. A Fugas já a tem e não empresta a ninguém

Learning From Las Legas saiu em 1972 e foi uma pedrada no charco no mundo da arquitectura. O ensaio assinado por Robert Venturi e Denise Scott Brown veio propor a reabilitação da arquitectura vernacular, nos antípodas do funcionalismo e do austero estilo internacional, que então vigoravam no ramo.

Contagiados pela vibração popular, os autores improvisaram títulos jocosos para as duas principais categorias de arquitectura que divisaram em Vegas. Chamaram "alpendres decorados" a edifícios frequentemente banais, mas cobertos de reclames estrilhados, caso por excelência dos casinos da Strip. Atribuíram, por outro lado, a designação de "grande pato" àqueles que pela sua forma publicitam o que vendem justamente como o mercado de aves construído em betão armado com a silhueta de um pato, que descortinaram em Long Island.

Esta apologia do vernacular antecipou o debate da pósmodernidade, mas na altura indignou os arquitectos sérios e mais genericamente a intelligentsia norte-americana. Learning From Las Legas não foi, no entanto, uma estreia absoluta: dois anos antes, a Liga de Arquitectura de Nova Iorque organizou uma retrospectiva dedicada a Morris Lapidus, autor de uma porção de hotéis surreais, sobretudo construídos em Miami e Hollywood. O autor desse escândalo, que é como quem diz o curador da exposição Lapidus, era John Margolies, então um jovem graduado em Comunicação Social. Voltaria a reincidir pouco depois ao assinar na revista Progressive Architecture uma apologia do Madonna Inn, hotel temático e catedral do kitsch, sediada em San Luis Obispo, na Califórnia.

John Margolies era desde miúdo um apaixonado do vernacular, em particular da arquitectura e do design que cresceram à beira das velhas estradas da América. Learning From Las Legas veio dar-lhe legitimação teórica, mas também um novo estímulo para partir à descoberta de "grandes patos" e "alpendres decorados" pela América fora. Tornou-se então fotógrafo e durante os trinta anos seguintes viajou perto de 150 mil quilómetros. Sempre dentro dos Estados Unidos, sempre na senda dessas peças de desenho extraordinário. Roadside America, editado Taschen, é a mais recente retrospectiva desse extraordinário trabalho de campo.

Paisagens improvisadas

Os motéis e restaurantes à beira da estrada surgiram nos anos 20, os minigolfes e os cinemas drive-in popularizaram-se na década seguinte. A vulgarização dessas atracções e comércios resultou da paixão norte-americana pelo automóvel, desencadeada pelo lançamento do Modelo T da Ford em 1908. A sua rápida produção em série levou à criação quase instantânea de uma intrincada rede rodoviária, cruzando o país inteiro.

Se os automóveis foram feitos para andar, o propósito dos negócios à beira da estrada era desviá-los do caminho. Um desafio nada fácil de resolver, a que os proprietários dos estabelecimento, na maior parte gente com mais engenho que cultura, respondeu improvisando estratégias por vezes luminosas, mas raramente subtis de autopromoção. Letras garrafais, tabuletas XL, néones cintilantes e um sem número de fantasias arquitectónicas integraram esse reportório de manobras de diversão, sinalizando e simbolizando uma variedade de tópicos, desde a fome à diversão, passando pela fé e pela moda. Toda uma iconografi a de factura popular, respondendo à necessidade básica de chamar à atenção, não propriamente a exigências de apuro estilístico embora boa parte dessas criações ingénuas tenha vindo a ser mais tarde reabilitada como Pop Art instantânea.

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