Fugas - Viagens

Enric Vives-Rubio

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Um dia com os gigantes de pedra imunes ao tempo

Atravessámos o rio e perguntámos pelo menos quatro vezes se a água é pura, antes de fazermos da mão uma concha e dar dois goles. Depois voltámos a passos largos para aldeia - "já estamos atrasados para o almoço em Monsanto", avisou-nos o geólogo.

De Tejo no Tejo

Abandonámos Penha Garcia de carro. Aqui, faz-se tudo de carro. Os percursos delineados pela Naturtejo são normalmente circulares, demoram não mais de três horas e terminam onde começaram, nas povoações. "As pessoas andam cada vez menos a pé", constatou Carlos.

Em 15 minutos chegámos a Monsanto, uma aldeia num cimo do monte com 758 metros de altitude. Em volta, um caos de blocos de granito. "Monsanto é um marco na paisagem", diz o geólogo. É verdade. Mas é a mesma paisagem que nos tira a fala, vista do cimo de Monsanto. E o cimo de Monsanto é por toda a parte. No parque de estacionamento logo à entrada, com a aldeia de Salvador e os montes à nossa frente. No restaurante Petiscos e Granitos que tem uma vista inacreditável até à serra da Estrela. No topo, junto ao castelo.

Monsanto é famosa por ser a "aldeia mais portuguesa de Portugal", definida por Salazar devido à "sua extrema pobreza bem relatada pelo [médico e escritor] Fernando Namora", explicou Carlos. Mas o que mais chamou a atenção é a sua simbiose perfeita com o relevo. Tudo está talhado na pedra e há vezes em que temos dúvidas se são as casas que nascem do granito se são os blocos a brotarem das casas.

A caminho do castelo, na Rota dos Barrocais, fomos reparando nos blocos imensos, arredondados, soberbos na paisagem. Os blocos não podem cair? Carlos aponta para as massas brancas solidificadas, fixas entre os pedregulhos, que são monitorizadas constantemente e quando estão rachadas indicam movimento das rochas.

Parámos no cimo, perto do castelo. Rodeados pelas ruínas da aldeia semi-desaparecida de São Miguel. A mais impressionante talvez seja a igreja matriz sem telhado, mas com uma portada trancada e paredes graníticas do século XII ou XIII. O contexto cultural intensifica as experiências das rotas. "O Geopark tem uma base científica e evolucionista, mas também olha para a sociobiologia das comunidades", refere o geólogo.

Subimos a um bloco granítico - Monsanto exige-nos isso - e ficámos com uma imensidão à nossa frente. Ao longe vimos Penha Garcia, à nossa frente a planície com os 500 milhões de anos de história. Foi com essa memória que percorremos os 84 quilómetros de distância para chegarmos a Vila Velha de Ródão, junto ao rio Tejo, a sul de Castelo Branco.

Às 17h30 entrámos no pequeno catamarã chamado Tejo, para descer o rio e passar pelo monumento natural de Portas de Ródão. Fomos levados naquele caminhar lento, típico dos barcos, em que o rio se amplia constantemente para ficar para trás. Aproximámo-nos das escarpas que alcançam os 170 metros de altura e afunilam o rio.

Do lado direito, na encosta, estava uma rara cegonha-preta em pé, no ninho. Não a perdemos do olhar até que atravessámos as Portas de Ródão e o rio se abriu, surpreendente. Ficámos mais uma vez sem fôlego. "Durante 2,6 milhões de anos, o rio Tejo foi escavando esta garganta de quartzito", explicou o geólogo.

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