Os tecidos mais cobiçados? Os de algodão e de linho. Eram os que, no século XIX, davam o melhor papel para produzir documentos oficiais - o papel era ainda coisa de elites, a imprensa de massas ainda dava os primeiros passos. Era com trapos que se fazia papel em Portugal até ao início do século XX. E há um ponto do país em que ainda se produz assim papel: no Museu do Papel Terras de Santa Maria, em Paços de Brandão, no concelho de Santa Maria da Feira.
"Ainda fazemos o papel da mesma forma como era feito desde a Idade Média até à Revolução Industrial: a partir de trapos, separados por cor e qualidade do tecido", conta António Marques da Silva. O responsável pela comunicação no único museu do papel do país exemplifica o processo, trazido pelos árabes para Portugal: passa uma pasta fina, obtida depois de bater com maços os farrapos, por uma espécie de peneira. O tamanho da peneira determina o papel da futura folha.
Sem pensar muito no assunto (o método funcionava e isso bastava), muito menos na ainda longínqua noção de ecologia, era reciclando que se produzia papel no antigo Engenho da Lourença (nome da primeira proprietária), onde agora funciona o museu. A lição ecológica não fica por aqui: as máquinas eram movidas a energia hidráulica, que provinha do rio Maior, que passa mesmo ali ao lado. Foi só nos anos 1950 que a fábrica foi dotada de energia eléctrica, que veio complementar a energia do rio, sobretudo nos meses de Verão, altura de menor caudal.
Fundada em 1822, a fábrica funcionou até 1989. Em 2001 foi transformada em museu, com o objectivo de salvaguardar um património industrial com 300 anos de história. "Tal como toda a região de Santa Maria da Feira, Paços de Brandão tem tradição" na indústria papeleira, explica Marques da Silva. Nos séculos XVIII e XIX e no início do XX, a região envolvente "foi líder em Portugal nesta área". A maquinaria no Museu do Papel é oriunda de vários pólos papeleiros do país dos séculos XVIII, XIX e XX.
O método, "trazido pelos árabes", pode ser experimentado pelos visitantes, que são convidados a fazer a sua própria folha de papel de algodão ou linho. "Pode-se mexer em tudo", sublinha Marques da Silva, que se orgulha por trabalhar num "museu em actividade", que já recebeu a visita de 79 mil pessoas. Ao longo de cada visita, que dura cerca de 45 minutos, há um guia que dá a possibilidade aos "visitantes" de trabalharem como papeleiros.
"Farrapeiros" e "botadeiras"
Para estar pronta, a nossa folha de papel terá ainda de secar "numa espécie de estendal" no piso superior, a Casa do Espande, com as janelas abertas em caso de tempo seco. Na Casa do Espande, somos convidados a colocar uma folha de papel a secar, como se fôssemos uma das "botadeiras" que aqui trabalhavam - operárias assim baptizadas porque "botavam [regionalismo que significa "pôr"] o papel a secar". O processo ficava ali praticamente concluído, com excepção de algumas encomendas, que pediam que o papel fosse alisado, na Casa do Lixador - em tom de brincadeira, dizia-se que era a casa onde "se lixava o patrão". "Em cada local há uma história de vivência humana" deste tipo, diz.