O segundo elemento
Cada equipa tem dois elementos, o participante e o assistente, responsável pelo apoio logístico ao longo de toda a prova. No caso português, Nuno Virgílio, 31 anos, terá em Samuel Lopes, 44, o seu "anjo da guarda". Carregar material não essencial, cozinhar refeições, conduzir a autocaravana onde (esperam eles!) deverão passar a maior parte das noites, fornecer informações sobre a meteorologia e aconselhar sobre a táctica de voo são apenas algumas das tarefas do número dois da equipa. Para estarem à altura do desafio, tiveram de treinar no duro. "E eu mais do que ele...", queixa-se Samuel.
Com um impressionante currículo no parapente, em que se destaca o recorde nacional de distância, conseguido em Junho de 2010 com um "passeio" de 248 quilómetros entre a serra da Estrela e a Vidigueira, no Alentejo, Nuno está à vontade entre a elite mundial da especialidade. Mas o Red Bull X-Alps é muito mais do que uma prova de voo. Apesar de o trajecto ser medido em linha recta, ninguém consegue cumpri-lo assim. O mínimo já conseguido (e numa edição mais curta do que a deste ano) por um vencedor foi à volta dos 1300 quilómetros... Parte deles a pé. E é por isso que há muitos ultramaratonistas inscritos. Conseguir voar em 60 por cento do percurso já será uma marca notável. O resto implica progressão por trilhos exigentes, no melhor dos cenários.
Escarpas, glaciares, pendentes radicais aparecerão no caminho dos participantes. Para Nuno foi fundamental aprender com Samuel algumas técnicas de montanha e o seu plano de treinos teve ainda o bónus de encontrarem o alpinista João Garcia nos Pirenéus. Nuno, que em prova carregará uma mochila com 10 a 12 quilos (onde transporta a sua asa, capacete e outros artigos essenciais), treinou-se intensamente. Uma hora e meia de ginásio por dia, sessões semanais de seis ou mais horas de voo e caminhada na serra da Arrábida, uma data semanal para técnicas de montanha, expedições em altitude. E tudo sob o olhar atento de Fernando Pereira, especialista em fisiologia do esforço e investigador da Faculdade de Motricidade Humana.
Desde domingo, nos Alpes, Nuno enfrenta o desafio de voar entre três e sete horas por dia, mais umas quantas a progredir de pés no chão. Estar nos sítios certos para levantar voo às horas certas, ser capaz de domar a meteorologia caprichosa dos vales alpinos para prolongar os voos, manter a capacidade física para seguir em frente e enfrentar as adversidades sem fraquejar psicologicamente são, por si só, desafios tremendos. Por isso, entrar em competição com os grandes craques (os pilotos dos países alpinos têm dominado a prova, graças ao seu conhecimento profundo do terreno) acaba por vir em plano secundário.
Seja como for, Nuno Virgílio conta com a força anímica de quem está a cumprir um sonho e com o apoio incondicional do seu ajudante, Samuel Lopes, piloto e instrutor de parapente, montanhista, estratega e conselheiro. E ainda motorista, carregador, cozinheiro. Pelo sim pelo não, muita da comida irá enlatada de Portugal. "Feijão, grão...", começa a enumerar Samuel. "Mousse de chocolate... não te esqueças da mousse!", lança-lhe Nuno.