Fugas - Viagens

  • Baía do Somme
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  • Mer-les-Bains é um foco de magia na costa picarda
    Mer-les-Bains é um foco de magia na costa picarda
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    Mer-les-Bains

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A beleza selvagem da Picardia

O Somme II é outra relíquia em funcionamento. Barco-balizeiro chamado a sinalizar a navegação à entrada do rio, em 1949, veio mais recentemente a ser recuperado para fins turísticos. Apenas uma vez por dia, aproveitando a maré, levanta ferro do cais de Saint-Valery em direcção à ponta de Hourdel, seguindo a antiga rota de balizas. É a melhor ilustração da dinâmica do estuário, oferecendo pelo caminho instantâneos de vida selvagem com destaque para aparições de focas e bandos de aves migratórias.

Nenhuma estadia na baía de Somme fica, no entanto, completa sem uma visita ao domínio de Marquenterre. Vasto território de 10 mil hectares subtraídos ao mar, integra uma sequência de praias, dunas e pinhais, classificadas como a fatia de costa mais selvagem do litoral norte de França. Uma preservação que em boa parte se explica por estas terras servirem de poiso a milhares de aves e, nessa medida, serem tradicionalmente reservadas para coutos de caça. Um dos proprietários, no entanto, preferiu dedicar-se ao cultivo de tulipas, depois da Segunda Grande Guerra, até que a concorrência holandesa arrasou o negócio. Acabou por decidir devolver a terra aos pássaros, para irritação dos vizinhos caçadores e base de um parque ornitológico, oficialmente inaugurado em 1994.

Está agora em discussão pública a criação de um parque natural marinho compreendendo todos os estuários picardos, que deverá condicionar ou mesmo excluir muito da caça e da pesca avulsas, ainda comuns na região. Para já, no entanto, o que há são os 260 hectares do Parque Ornitológico de Marquenterre, "mar em terra" que serve de residência ou de hotel a uma multidão de aves de 360 espécies. A concentração é fácil de compreender: os pássaros disseminam-se um pouco por toda a baía à procura de alimento, mas depois na maré cheia refugiam-se neste oásis onde sabem intuitivamente que não há tiros.

Consoante as alturas do ano podem-se avistar andorinhas-do-mar, corvos-marinhos, galinhas-do-mato, garças-reais, maçaricos, mergulhões-de-crista, patos-colhereiros e rouxinóis, para além de aves sedentárias como galinholas-dos-pântanos. O parque oferece seis quilómetros de percurso sinalizados e 14 cabanas de madeira, onde se encontram guias que direccionam a observação e explicam tudo sobre os pássaros.

Perfume Belle Époque

Se a baía do Somme é a aventura, então Mers-les-Bains é o principal foco de magia da costa picarda. Ao lado desagua o Bresle, rio que a separa de Trepórt e da Normandia. Aos seus pés fica uma monumental praia de seixos a beijar a Mancha e, nas costas, levemente para norte, elevam-se as falésias verticais de grés, que na outra margem continuam em Trepórt. O enquadramento paisagístico é magnífico e, só para tornar as coisas ainda mais interessantes, a fachada marítima de Mers é forrada por um conjunto de edifícios, dignos de qualquer best of da arquitectura balnear da Belle Époque.

A moda dos banhos e a ligação ferroviária com Paris, inaugurada em 1873, colocaram Mers-les-Bains no mapa das primeiras estâncias balneares de França. A edilidade soube, aliás, tirar partido do hype turístico, vendendo a improdutiva frente marítima em retalhos tão estreitos quanto possível. Daí resultou uma profusão de prédios altos e magros, onde a burguesia parisiense transferiu as suas rivalidades na ostentação. Milagrosamente poupada pelas bombas de ambas as guerras mundiais, bastante esquecida depois da segunda e recuperada desde meados dos anos 80, Mers-les-Bains conseguiu manter intacto, ou quase, um fabuloso património arquitectónico onde se recenseiam 300 edifícios, que vão do Ecletismo ao Art Déco, passando sobretudo pela Arte Nova.

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