Fugas - Viagens

  • Baía do Somme
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  • Mer-les-Bains é um foco de magia na costa picarda
    Mer-les-Bains é um foco de magia na costa picarda
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A beleza selvagem da Picardia

O assoreamento tem, no entanto, vindo a ser acentuado pela intervenção humana, desde a secagem de terras para pastagens e cultivo de cereais (os chamados "polder"), no século XII. A colmatagem foi, porém, acelerada no século XIX com a abertura de um canal que tornou o rio Somme navegável até à cidade de Abbeville (a 15 quilómetros da costa) e com as terraplanagens requeridas pela instalação do caminho-de-ferro. O ritmo do assoreamento é de dois a três centímetros por ano, desde o início da década de 60 do século passado, processo que obviamente está a ditar uma mudança profunda numa paisagem já de si em movimento perpétuo.

A experiência do charco

O constante devir ajuda a explicar a surpresa que a baía oferece aos visitantes na maré baixa, sobretudo nas alturas do ano em que o arco das marés se afigura mais pronunciado. A estrada acaba a sul na supracitada Saint-Valery-Sur-Somme, ou então a norte, em Crotoy, estâncias balneares que ficam quase frente a frente de cada lado do estuário. Mas nem numa nem na outra se consegue avistar a Mancha na baixa-mar, quando mesmo o rio é um fio de água a correr. Por isso, sempre que o tempo o permite, há gente que tira os sapatos para caminhar no estuário do rio.

De Crotoy a Saint-Valery-Sur-Somme, atalhando caminho pela baía do Somme, são cerca de seis quilómetros a pé. Parece um trekking ligeiro, mas não é bem assim. Os muros de areia de alguns metros de altura que correm ao longo do estuário, perpendiculares ao mar, são separados por valas pantanosas, onde facilmente se atola até à cintura. Mais perigoso ainda, as marés mudam num abrir e fechar de olhos, sendo que o nível das águas pode subir oito a onze metros numa questão de minutos.

É, por consequência, altamente recomendável empreender a travessia na companhia de um dos 37 guias da associação Promenade en Baie, para evitar percalços e não só. Para além de informações sobre tópicos como o assoreamento e o ritmo das marés - estas excursões só arrancam uma hora antes da baixa-mar, por questões de segurança -, os guias fazem múltiplas paragens ao longo de meio-dia de caminhada, para lançar luz sobre os mais variados aspectos deste complexo ecossistema. Vai de esquadrinharem o areal para desenterrarem toda a espécie de invertebrados a esclarecerem o comprimento dos bicos das aves consoante a profundidade a que os primeiros se encontram enterrados nos pântanos. Pelo meio passam em revista um sortido de plantas do pântano, óptimas para a salada.

A travessia do descampado ondulante, mesmo na companhia de um guia, é sempre uma aventura - porventura a forma mais genuína de explorar este singular ecossistema. Há, porém, outras modalidades desportivas de explorar a baía (caiaque no estuário, bicicleta à volta), que também se pode cruzar em meios de transporte doutros tempos.

Festim ornitológico

Mais popular é a linha de caminho-de-ferro que liga as duas cidades nas extremidades da baía, entre as quais circulam comboios centenários movidos por locomotivas a vapor. Entrevê-se a baía ao longo do percurso, mas, de resto, a verdadeira estrela deste programa de nostalgia é o próprio tortillard (à letra: via férrea sinuosa) e a composição-brinquedo que nele circula. Torna-se especialmente animado aos domingos e dias de festa, quando bandos de entusiastas locais sobem às carruagens vestidos com guarda-roupa de época.

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