"Então e as renas?", reclama Gonçalo, quatro anos, instalado num dos dois comboios de ferro verdes da Tapada Nacional de Mafra depois de uma manhã de Caça às Hastes para celebrar a "época de desmoque", designação dada à queda das hastes dos veados e dos gamos que ocorre no início da Primavera para logo, logo se dar início ao crescimento de novas (e maiores) hastes.
"É tal e qual a queda dos dentes de leite para os meninos", explica Sara, a nossa guia nesta "caça ao tesouro", uma estreia na Tapada que atraiu mais de uma centena de participantes "Eles [os gamos e veados] estão a comer e lá se vai uma haste". Sim! Não se conte encontrar duas juntinhas. O mais certo é que não caiam aos pares, por isso não é de admirar avistar-se um veado de apenas uma haste e meio torto, fruto do peso da cabeça em desequilíbrio, a galgar uma das encostas pelos trilhos já formados pelos próprios.
Mas isso agora não interessa nada. O que importa é mesmo partir e vestir a pele de um detective. "Preparados para serem como o Geronimo Stilton?", ouve-se nos altifalantes do comboio, enquanto nos embrenhamos pela mata. A lembrança do personagem, um rato-jornalista que dirige O Diário dos Roedores da Ratázia e que até já recebeu o Prémio Rat(Pul)itzer, arranca de imediato sorrisos à pequenada mais sapiente.
Os escuteiros que compõem o grupo que segue na terceira carruagem são os primeiros a serem deixados à aventura. E as pistas devem ter sido de tal modo empolgantes que no regresso haveríamos ainda de deixá-los à sua sorte. Absortos que estariam a seguir pegadas e rastos, a observarem plantas e a recolherem as provas das suas conquistas, acabaram por faltar ao ponto de encontro à hora previamente marcada (o comboio voltaria mais tarde para os apanhar).
À medida que o pequeno comboio avança paralelamente à ribeira do Safarujo, que atravessa toda a Tapada, o caminho torna-se mais e mais irregular e a mata, nestes pontos circundantes à água, cheia de amieiros, choupos, freixos, plátanos e salgueiros, vai-se adensando. Aqui e ali, avistam-se curiosos veados que espreitam entre a vegetação. Não durante muito tempo. Não tarda que desapareçam. Afinal, desta vez o comboio não traz comida mas gentes barulhentas. Porém, nem todos se escapulem assim que vêm pessoas. No destino da carruagem 2, ou seja, no nosso, "há uma surpresa", anuncia o altifalante.
À nossa espera está uma sorridente Sara rodeada por javalis adultos, outros jovens e ainda por dezenas de "pijaminhas", i.e., javalis bebés, cuja pelagem listada faz lembrar precisamente um pijama. A criançada bem salta do comboio com vontade de os agarrar e afagar. Mas Sara consegue travar-lhes o ímpeto. Afinal, a javalina-mãe está ali de sentinela. E se há coisa que não se quer é chatear uma javalina de guarda aos seus filhotes.
De qualquer modo, a aproximação, que às crianças até parece natural, causa estranheza aos adultos. O milho espalhado pelo chão explica o porquê destes javalis estarem tão pertinho de nós sem revelarem nem agressividade nem medo. "Costumamos chamá-los com a colocação de comida e estão tão habituados a nós que não estranham assim tanto as pessoas." Entre os javalis, um imponente veado vai-se afastando lentamente. Também não corre ao ver-nos. Mas não revela grande desejo de proximidade. Respeitamos e avançamos com o nosso objectivo para esta manhã: caçar hastes.