Fugas - Viagens

  • Miguel Proença
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Só nós, as ovelhas e o silêncio

A rota desenha-se entre Idanha-a-Nova e a serra da Estrela, envolvendo os municípios do Fundão, da Guarda, de Idanha-a-Nova, de Castelo Branco, da Covilhã, de Manteigas e de Seia (conta também com a participação da Agência de Desenvolvimento Gardunha 21, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas e Naturtejo).     

A transumância surgiu como elo de ligação entre todas estas terras: “É uma tradição com cerca de dois mil anos, que fazia a ligação entre as terras altas e as baixas. Era feita duas vezes por ano, uma de forma ascendente, outra descendente”, nota Paulo Fernandes, frisando que a iniciativa também tem uma mensagem política, “chamar a atenção para as áreas protegidas e para aquilo que é o mundo da agricultura e da pastorícia”. As próximas caminhadas deverão acontecer já em Setembro e a ideia é que continuem nos próximos anos.

A vereadora do Turismo da Câmara Municipal da Guarda, Elsa Fernandes, também sublinha que a transumância foi, durante muito tempo, a actividade que ligava cultural, económica e iconograficamente todo aquele território: “Achámos que fazia todo o sentido recriar a rota”, diz, justificando que hoje em dia, como há outras condições para alimentar os rebanhos, aquele movimento já não acontece.

Volta e meia, durante as paragens que fazíamos, à medida que íamos galgando aquelas encostas, surgia um grupo musical para animar os caminhantes. Os Serrabecos apareceram logo cedo, ainda Valhelhas; os Foligaitos também marcaram presença mais tarde, quando fazíamos uma pausa em Famalicão da Serra, para restabelecer energias e comer mais uns peticos: enchidos, queijo, pão, vinho…

Só chegaríamos à meta, ao recinto da festa de Nossa Senhora do Soito na pequena aldeia de Fernão Joanes, à hora do almoço. Foi ali que almoçámos e que passámos a noite, em camaratas divididas com os outros participantes. O almoço, como é feito à base de produtos típicos, não é indicado para vegetarianos: depois da sopa, segue-se a chanfana, feita à moda antiga, naquelas panelas de ferro preto. Comemos ao ar livre, no vasto recinto onde se situa a capela em honra da Senhora do Soito. Contou-nos o presidente da Junta de Freguesia de Fernão Joanes, Daniel Vendeiro, que encomendou a um pintor italiano as gravuras que existem no interior da capela. Disse ao artista que pintasse o que quisesse, que não precisava de escolher santos como temática. O pintor escolheu o tema das quatro estações. No dia da inauguração da capela, o bispo gostou do trabalho, mas considerou que fugia um pouco à temática religiosa. O certo é que as estações têm tudo a ver com a aldeia e com a transumância, e aquelas festas em honra de Nossa Senhora do Soito também.

Fugir à cidade
Durante o almoço, enquanto uns preferiam a sombra e outros o sol para descansar, houve, mais uma vez, quem pegasse no acordeão para animar o grupo. Apesar de ter sido bem mais fácil do que estávamos à espera, a caminhada deixou as suas marcas e as primeiras horas da tarde foram passadas ao comprido, na relva que preenchia o espaço.

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