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No Nordeste do Brasil o Carnaval tem frevo, maracatu e coco

O auge desta expressão cultural dos maracatus há-de acontecer em Nazaré da Mata, na segunda-feira dia 2, quando dezenas de grupos de maracatu rural se encontrarem. Para os cortadores de cana que os integram, será o dia principal do ano. Se levarem o ritual a sério, terão de praticar abstinência sexual durante sete dias. E, diz a lenda, poderão beber um elixir que leva pólvora chamado azougue para poderem não só dançar como se o mundo acabasse daí a meio minuto, como para carregar as suas golas (uma espécie de capas) que levam mais de 50 mil lentejoulas e missangas — além de um chocalho e de uma cabeleira gigantesca. Este ano, a Justiça tinha imposto que as festas acabassem mais cedo, mas o poder político interveio e na Nazaré da Mata haverá maracatu até às cinco da manhã.

Nos outros dias, os grupos de maracatu aparecerão no coração do Recife e de Olinda para se cruzarem com os blocos, as troças, as bandas de frevo, os grupos de afoxé — o forró nordestino é mais para as festas dos santos populares, lá para Junho. Na estreia do Carnaval, na próxima sexta-feira, o consagrado percussionista pernambucano Naná Vasconcelos organizará uma sessão com batuqueiros e cortes das 12 nações de Maracatu. E, já mais para o final, a Noite dos Tambores Silenciosos travará por minutos o troar dos tambores para dar lugar a uma ladainha de inspiração africana que pretende homenagear a memória dos escravos mortos na época colonial (e não só, o Brasil só aboliu a escravatura com a Lei Áurea de 1888).

Mistura de civilizações ou, de forma mais precisa, civilização que resulta de uma mistura luso-afro-americana, a festa do Carnaval do Recife é difícil medir. São centenas de eventos, em pólos na periferia de Recife e Olinda, ou no Marco Zero, em frente ao mar, que vão desde grupos de afoxé ou de coco do interior a nomes consagrados como Lenine (um pernambucano) ou Gilberto Gil. Há bailes populares, um arrastão do frevo marcado para as três da madrugada, e um festival de música moderna, o Rec Beat — Recife é uma cidade com uma forte e original cultura urbana. Como se a festa fosse um momento de sofreguidão. Como se a vida orbitasse em torno de um calendário onde só há cinco dias.


Breve guia da festa

Blocos – Grupos organizados de pessoas que participam no Carnaval. Há blocos para todos os gostos, para todas as idades. Cada um tem uma hora e um dia para sair à rua. Alguns têm coreografias especiais. Outros saem, apenas. Música, apenas com instrumentos de percussão ou com orquestra, não falta. Os grupos podem ser seguidos livremente por quem quiser. O Galo da Madrugada é o campeão do público, mas há blocos bem mais outsiders e imaginativos. Como, por exemplo, os Eu Acho é Pouco, Que Corno é Esse, O Grande Demente, Quero Te Comer…

Maracatu – Pode significar um estilo musical ou um cortejo que representa uma corte africana com roupagens da época de Versalhes. Os caboclos de lança que defendem a realeza vestem-se com majestosas golas decoradas com missangas e lantejoulas. Cada maracatu pode ter até 50 figuras. Os maracatu de baque solto (das zonas rurais) têm ainda um mestre que profere loas. Estes grupos produzem uma algazarra audível a milhas. Têm o seu dia grande em Nazaré da Mata, a 70km do Recife, mas poderão ser encontrados na festa do Recife e Olinda.

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