Fugas - Viagens

  • Miguel Manso
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No Alentejo com a cortiça à flor da pele

Enquanto observamos o trabalho dos machados – cada machado são dois homens e chamam-se assim devido à única ferramenta utilizada para a extracção da casca do sobreiro – Eduardo Bon de Sousa aponta para a árvore atrás de nós: o número cinco em cima, um seis em baixo. “Há casos em que não é possível tirar a cortiça da árvore inteira e divide-se. O ano passado, em 2015, ainda havia humidade na parte de baixo e conseguimos extrair mas a parte de cima estava contraída. Adiámos para este ano a extracção”, explica.

“A rapidez com que tiramos a cortiça depende da árvore”, atesta o senhor Belizário. A cobrilha é um dos maiores “pesadelos” dos sobreiros – uma lagarta cuja presença provoca o enfraquecimento gradual da árvore e é apenas visível durante o descortiçamento, originando feridas de cicatrização difícil que facilitam o aparecimento de fungos. “Caso contrário, quando a cortiça está a dar bem, é um trabalho em fluido”, diz.

Este é um dos trabalhos agrícolas mais bem pagos, realça Eduardo Bon de Sousa, devido ao cuidado que é preciso ter com o sobreiro. “A arte destes homens é descascar a árvore sem a ferir”, diz. Os cortes devem ser verticais e, para soltar a cortiça, podem empurrar com o cabo do machado ou com um pau, sem nunca forçar, caso contrário a próxima tiragem fica comprometida.

Já descortiçado, o tronco adquire uma cor avermelhada que vai escurecendo à medida que se regenera a casca – e neste período a manutenção do sobreiro, uma espécie típica na região mediterrânica ocidental e considerado património nacional, é essencial. Com folhagem verde todo o ano, o sobreiro é uma árvore que “muito dá e pouco pede”, e o seu abate é proibido pela legislação nacional e regional.

Apesar da forte protecção existente em torno dos sobreiros e da sua cortiça, esta só ganhou importância no século XVII – antes era a madeira dos sobreiros que era valiosa e utilizada nas naus e caravelas dos Descobrimentos. A cortiça era um material menor, utilizado apenas para bóias ou imobiliário – com a produção de rolhas para o champanhe francês Dom Pérignon.

Segundo dados da Associação Portuguesa de Cortiça, a produção mundial ultrapassa as 200 mil toneladas por ano – Portugal é líder, com uma produção média anual de mais de 100 mil toneladas. Nesta propriedade, são extraídas 2500 arrobas por ano, equivalentes a 30 mil euros de facturação com um custo de extracção de 14 mil euros.

Apesar de a cortiça ser um dos produtos naturais mais característicos de Portugal e utilizado mundo fora, há quem não saiba de onde vem. O director do hotel Convento de São Paulo, na Serra de Ossa recorda uns hóspedes americanos que julgavam que a cortiça vinha do mar e, ao visitar a herdade, ficaram admirados com a sua proveniência. “Para eles é um produto que dá à costa. Há um alheamento muito grande. Com a velocidade destes tempos, está a perder-se o conhecimento de onde vêm as coisas”, critica, reconhecendo, porém, a curiosidade.

O processo de transformação

Depois de retirada da árvore, a cortiça é transportada para uma fábrica. Na Cortiçarte, na Azaruja – o maior centro corticeiro do Alentejo – há pilhas e pilhas de cortiça no exterior. É aqui que fica, ao sol e à chuva, sob estruturas de aço inoxidável durante pelo menos seis meses para estabilizar. Só depois é transferida para o interior da fábrica e cozida. “Nós aqui fazemos a preparação da cortiça e, depois, os artefactos”, diz Joaquim Caeiro, responsável da fábrica, explicando-nos o processo de preparação, que consiste na selecção da cortiça pela sua qualidade (calibre e espessura).

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