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Alicante Bouschet, a prima donna que se deu bem no Alentejo

Por Rui Falcão

Criada em 1855, a Alicante Bouschet é uma casta apátrida, de adaptação difícil e comportamento caprichoso. Menos no Alentejo, onde a Alicante encontrou solos e climas ideais para mostrar o que vale.

O mundo está repleto de casos assim, castas que desabrocham tarde, castas que pouco ou nada acrescentam nas regiões de nascença para logo deslumbrar o mundo quando chegam a paragens distantes da origem. Variedades que revelam no berço um comportamento modesto, castas reputadas como menores na origem que o tempo quase acabou por condenar à extinção… castas que desabrolham para o esplendor num território novo para o qual foram conduzidas por engano, por apego à tradição ou por alguém que não carregava grandes esperanças no seu futuro.

O mundo está igualmente repleto de castas consideradas prima donna, castas que dão largas a um comportamento extremado e temperamental, variedades que não gostam de viajar e que sentem dificuldades ingentes na adaptação a novos destinos. Castas que poderão mostrar-se excelentes e carregadas de personalidade no local de origem, e em mais um ou dois locais muito particulares do mundo, mas variedades que mostram em registo simplesmente banal nos demais lugares do planeta.

A Alicante Bouschet, a casta rainha do Alentejo, insere-se precisamente no grupo destes dois bandos abstrusos, no lote das castas prima donna, de adaptação difícil e conflituosa… e no lote das castas que exerce um papel modesto na sua região de origem. Na verdade, a Alicante Bouschet é uma variedade tão misteriosa e particular que nem sequer se pode falar em região de origem, em lugar de nascença e região natural. Com alguma liberdade criativa podemos mesmo chegar a nem lhe atribuir um país de origem, uma nacionalidade definitiva e convincente.

Aqui chegados convém recordar que tal como todos os seres vivos também as castas, todas as variedades de uvas existentes, nasceram do cruzamento de duas uvas, um pai e uma mãe. A larguíssima maioria das variedades que conhecemos e utilizamos resulta de um cruzamento acidental na natureza de duas castas, cruzamento que redundou no advento de uma nova casta. Entre os exemplos mais fáceis de assimilar desta realidade encontra-se a Cabernet Sauvignon, uma das castas mais famosas do mundo, a qual se sabe hoje ser consequência do cruzamento acidental das castas Cabernet Franc e Sauvignon Blanc.

Porém, e para além destas miscigenações naturais oferecidos pela natureza, existem ainda cruzamentos forçados pelo homem, castas movas projectadas em laboratório que revertem do cruzamento directo de duas uvas.

Entre os exemplos mais famosos das variedades formatadas pelo homem encontra-se a Alicante Bouschet, criada por Henri Bouschet em França, em 1855, desenvolvida do cruzamento das castas Garnacha e Petit Bouschet (a última das quais tinha sido desenvolvida pelo pai de Henri Bouschet e que adveio do cruzamento das castas Aramon e Teinturier du Cher). Talvez por isso, por ser uma variedade criada pelo homem e não uma casta nascida dos humores e acasos da natureza, se possa considerar que o Alicante Bouschet é uma casta apátrida, sem nacionalidade definida, uma casta perdida que os portugueses adoptaram e que o Alentejo perfilhou com toda a generosidade.

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