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Batô

Por Andreia Marques Pereira ,

A caminho dos 38 anos, o Batô continua o seu solitário percurso de excepção à regra. À regra da noite do Porto e arredores, seguindo imperturbável o trilho do rock dançante que lhe trouxe fama - ainda não deixou de ser a discoteca mais alternativa da zona.
Como se fala do Batô sem cair em lugares-comuns (o mais comum - a redundância é feitio: é a discoteca mais antiga do Grande Porto, aberta em 1971)? Porque o Batô é tudo menos um lugar-comum. Quantas discotecas no Porto seguem uma dieta rigorosa de pop/rock dançante e, no seu melhor, alternativo? Pois... Por isso, o Batô é uma espécie de extraterrestre da cena noctívaga da cidade, que se estende até Leça da Palmeira, onde este navio há muito lançou amarras à beira do "castelo".

Não é à toa o recurso a imagens náuticas: o nome "Batô" é quase literal e, juntamente com a música, é o visual que ajuda a compor o seu mito - e, rendamo-nos então à evidência, a sua longevidade também entra na equação. Porque a imagem do Batô é mesmo a de um barco - o "bateau" francês foi aportuguesado, e o barco inspirador terá sido o "Varna", que naufragou na Foz do Porto no final da década de 60, de onde terão vindo algumas peças que compõem o cenário (que se manteve sempre inalterado, assim como a orientação musical).

Tudo isto faz parte da lenda do Batô - que conheceu desvio inesperado quando o Batô foi vendido, pela primeira vez na sua história. Desde 1 de Abril, a gerência é nova e Edgar Rodrigues, um dos sócios, assegura que tudo no Batô é para manter: "Crescemos aqui e, porque é um sítio mítico, queremos levar este barco para o futuro e melhorar as condições para os clientes". Quase tudo, vá lá, numa adaptação da máxima de Lampedusa, "é preciso que "algo" mude para que tudo se mantenha".

E o tudo que se mantém é a decoração - estamos dentro de um barco de onde não queremos sair - e, sobretudo, a música. E o "algo" que muda é a decoração e a música. Começamos pela música. A identidade do Batô construiu-se pela sua cartilha musical e insistimos: corremos o risco de perder a banda sonora (dançante, pelo menos) mais alternativa da cidade? "Vamos continuar com a mesma dieta musical e, se possível, com mais qualidade". É o tal olhar para o futuro: manter o que está e tentar que o que se está a passar fique na memória também, explica Edgar Rodrigues. A música não parou nos anos 90 (para os que pensam que sim, há a "Noite do Baú" e a "Remember the 90"s"), há que mostrar os "clássicos" que aí vêm - algo que nem é propriamente novidade, pois o alinhamento sonoro do Batô sempre absorveu as derivações mais contemporâneas do rock, com mais ou menos militância.

A publicidade mais eficaz do Batô sempre foi o boca-a-boca e o seu legado é passado de geração em geração. Há um cruzamento geracional, que se reflecte na música - nos anos 70, vinha directamente de Londres, trazida por comissários de bordo; agora vem de todo o lado: mantêm-se os clássicos dos anos 60/70, os hinos dos "eighties" (uma noite sem Pixies ou Violent Femmes não é o Batô), todo o grunge dos anos 90 e a mistura de tudo produzida pelo novo milénio.

E se persistimos na música é mesmo pela sua singularidade, que faz uma selecção natural de clientes (embora haja selecção à porta: antes de mais, o espaço é pequeno) e que ajuda o Batô a manter-se ao largo de tendências (e crises): o Batô nunca foi um local da moda, mas esteve sempre na moda. "É para uma imensa minoria", considera Jorge Vieira, DJ residente há 11 anos - que vem para dançar. "Oitenta por cento das pessoas está na pista a dançar, a maior parte está a cantarolar", avalia Edgar.

Às vezes pensamos que nunca saímos daquela festa de garagem (e isso é uma coisa boa), mas depois olhamos em volta e percebemos que estamos longe. O interior do Batô é inconfundível: madeira por todo o lado, simulação de um navio - tanto estamos no interior como no exterior, à porta de um camarote, no castelo da proa em frente ao leme ou no da popa (os dois mezaninos, lugares para sentar ou espreitar a pista). Dançamos entre escotilhas luminosas, sob cordas, roldanas, "mercadoria", sobre madeira que veio do naufrágio - Jorge Vieira vai apontando as peças "reais" e desfiando o que ouviu dos fundadores sobre a história do Batô.

O barco resistiu ao longo do tempo, com a manutenção devida. Agora, a manutenção terá um pouco de remodelação: a alcatifa vai sair ("um barco não tem alcatifa, tem madeira", nota Edgar), a lareira, que há vários anos não é acesa por imposições de segurança (que também obrigaram à retirada das velas - sobram os "mastros"), vai dar lugar a um pequeno bar de apoio (mas mantém-se a zona de sentar, "look" muito "seventies", com os sofás em meia lua na estrutura de madeira), o sistema de iluminação vai ser substituído por um mais moderno e económico (aumentando o pé direito). Estas intervenções - "menores", não se cansa de repetir Edgar - não vão fechar o Batô, o principal será feito em Agosto, tradicional período de férias do pessoal.

O Batô permanece, a caminho dos 38 anos, como o segredo mais mal guardado da noite portuense. Quem gosta de música rock alternativa, mais cedo ou mais tarde descobre o caminho de Leça da Palmeira - e o mais certo é voltar.

Noites temáticas
A "Festa do Baú" e a noite "Wash your brain" já fazem parte da agenda do Batô há muito tempo: a primeira vai bem lá atrás no tempo, para gáudio dos mais nostálgicos, e a segunda está bem no presente, apontando para o futuro da música, para quem está em sintonia com as novas tendências do rock. Agora, ensaia-se a "Remember the 90"s", para a geração grunge, e vai inciar-se a "Keep in Touch", para acompanhar os lançamentos mais recentes do rock.

Serviço à mesa
Uma das originalidades do Batô é o atendimento à mesa. Edgar Rodrigues fala com orgulho dessa tradição - que é para manter, assim como os copos e garrafas de vidro. Para diferenciar o serviço.

 

(Abril 2009)
Nome
Batô
Local
Matosinhos, Leça da Palmeira, Largo do Castelo, 13
Telefone
229953405
Horarios
Terça a Sábado das 23:00 às 04:00
Website
http://www.myspace.com/o_bato
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