Fugas - restaurantes e bares

Fernando Veludo/NFactos

O V5 é um vintage instantâneo?

Por Andreia Marques Pereira ,

Uma moto portuguesa clássica dá-lhe o nome e um carro clássico dá-lhe o espanto. Nos interstícios, há decoração nada ortodoxa e muita música ecléctica, de DJ ou ao vivo, sem tempo nem idade. Ou de todos os tempos e de todas as idades. O V5 até parece um clássico moderno.
Falta um dia para o novo ano - ano da graça de 2010 - mas entramos no V5 e estamos no século XX. O máximo que podemos imaginar é o virar da década de 80 para 90: Belinda Carlisle recebe-nos, para depois sermos todos "kids in America", "walking on sunshine". Ironia este sunshine, chove torrencialmente e é quase meia-noite quando entramos no V5 sem termos tempo de reparar na fachada deste rés-do-chão de uma rua anódina (e refrescantemente não "noctívaga) do centro do Porto - fazemo-lo quando saímos algumas horas depois, já a chuva tinha dado tréguas: a fachada é antiga, de madeira trabalhada, com candeeiros-lanternas, grandes e pequenos vidros, e a placa pendurada perpendicularmente com o nome do bar também não parece deste tempo. Porém, dizemo-lo já para desfazer possíveis equívocos, também não é dos anos 80 (leva-nos um pedaço mais atrás), nem o V5 é um templo dos anos 80 - se entrássemos mais tarde seriam anos 90, ou 60, ou 50 ou os anos 10 do século XXI. O V5 respira "l''air du temp" e por isso é de todos os tempos.

Foi um "parto difícil", este do V5, conta Pedro Santos, o mentor e proprietário. A ideia tem dois anos, esteve para abrir em Dezembro de 2008, porém, complicações no outro bar de Pedro (o Pherrugem, de que é co-proprietário) foi adiando, adiando, até sexta-feira 13 de Novembro do ano passado. Outra noite chuvosa, em que os primeiros clientes do V5 tiveram oportunidade de "brincar" com o objecto que dá nome à casa: uma moto SIS Sachs V5 - agora está pendurada, num canto, nesse dia andava à solta, aliás, só tinha chegado dois dias antes, para desespero de Pedro. Não há qualquer fetiche com a mota - foi o nome que apareceu depois de muito brainstorming entre amigos - e o certo é que não é sequer o único meio de transporte em "exibição". O que salta mais à vista, aliás, é um Riley de 69 que "sai" da parede da sala principal. É só a parte dianteira e faz as vezes de cabine de som. "Sabia que queria algo de diferente, o carro até foi a primeira ideia que surgiu". Tinha apenas de ser "um clássico".

Hoje, lá está o Riley, com os faróis a piscar, mas sem ninguém ao volante. A música passa continuamente, mas é no andar inferior que se concentram as atenções. Na sala-palco do V5, Slimmy prepara-se para o concerto de apresentação do novo álbum. A entrada são cinco euros para quem vai assistir ao concerto, quem fica apenas cá por cima não paga entrada nem consumo obrigatório. E o andar de baixo só abre para "eventos", que é como quem diz, concertos. Por enquanto, foram apenas três, mas esta é uma área a explorar. Bastante. "A ideia é ter um clube de música ", explica Pedro, "mas a música ao vivo tem de ser um extra. Não faz uma casa". O que faz uma casa é "o bom serviço de bar, o bom ambiente de bar", e é essa parte que está a aperfeiçoar. "Depois, mando-me a cem por cento para o piso de baixo". Não é um discípulo, mas o Hard Club é um exemplo a seguir, sobretudo pelo carisma.

E, talvez, arriscamos, pela filosofia, que o espaço lhe permitiu concretizar. Já o conhecia, o espaço, há 15 anos, quando era outro bar, Padaria (o nome não era à toa, originalmente o espaço era uma padaria e os fornos estão lá, em espaço reservado, para o provar). Lembrava-se vagamente da estrutura e quando o sinal "aluga-se" apareceu, viu que era o ideal para o seu projecto: dois andares a funcionarem autonomamente. Com música. Muita música, ao vivo em baixo, com DJ em cima. Há interditos assumidos - "nunca irei ter techno e hip-hop, pelo menos de forma vincada" - de resto, atendendo às palavras de Pedro, há espaço para tudo. "Funk, new wave, hits dos anos 80, 60, 90, indie, garage, grunge...". E rock. "Tenho de viver com o rock", brinca, referindo-se também ao Pherrugem, conhecido por esta sonoridade, apesar de no início a ideia fosse ter um som mais alternativo. "Mas aqui quero variar mais, desligar um pouco do "Pherrugem". Por isso, as noites com "temas"; por isso, e isto foi surpresa, o fado. Variar, "variar bastante" parece ser o lema, para surpreender o público - do "funk assumidíssimo ao rock". "Não sei se é a melhor estratégia, mas gosto de fazer o que sinto".

E deixamos a música para voltar ao antigo Hard Club - não é obsessão mal resolvida, é que há algo dele no V5 mais palpável do que o carisma e a filosofia. Aqui na sala traseira, para não fumadores (vazia, enquanto nos outros espaços as pessoas se atropelam), as mesas vieram de lá. São de madeira, algumas pintadas de branco e combinam com as cadeiras que vieram de uma leiloeira - há ainda sofás e poltronas, e até parece que estamos num café antigo. Cheio de pormenores: há lamparinas que espreitam da parede sobre as mesas e nas outras há lamparinas de pé, candeeiros de rua em ferro forjado (sem o pé), fotografias a preto e branco, famílias e episódios tudo claramente sul-americano, cobrem uma das paredes, e na outra há "bandeiras" de janela, de madeira dourada, que assim retiradas da sua função original até parecem quadros. O objectivo é apenas um: fazer um espaço acolhedor. Daí a iluminação subtil em todo o espaço (que até faz com que as paredes pareçam ter uma cor diferente, quando é sempre a mesma, verde seco - excepção nos acessos aos WC: aí não há confusão possível, são roxas as paredes), daí o soalho em madeira, daí a decoração, não raras vezes surpreendente.

Na sala principal, além do carro e da moto, há um pedaço de parede "inacabado", em cimento e com tijolo a espreitar, por detrás do pesado (e enorme) balcão de madeira em "L" (o tampo é uma das poucas coisas "novas" do bar - a outra são os "aparadores" que seguem a parede de granito, mas que estão apoiados em peças de ferro antigas), duas filas de televisores antigos servem de prateleiras para as bebidas ("Comprei-os por sms. Pedi televisores de caixa de madeira dos anos 70 e 80"), e alguns funcionam, numa parede "esculturas" de ferro que não o são (foram escolhidos pela forma e são uma plaina manual, uma ventoinha do radiador de um autocarro, um miolo de fechadura...), um galo de Barcelos espreita orgulhosamente e os candeeiros negros alinhados sobre o balcão são boiões de café Delta. O piso inferior é menos trabalhado - palco de um lado, pequeno bar do outro, mas os candeeiros destacam-se novamente, desta vez enormes e de formas bizarras - mas há pormenores no resto do espaço que compensam: veja-se a entrada superior (depois do hall, com vinis alinhados nas paredes) e o seu recanto com dois sofás, mesinha, candeeiro e espelho dourado, ou a casa de banho das mulheres, onde antigos bidés dos anos 50 são agora lavatórios.

É a arte da reciclagem, diríamos, uma adaptação da máxima de Lavoisier, nada se perde, tudo se transforma. E Pedro fá-lo: encontra objectos, guarda-os e depois arranja-lhes utilidade. Foi esta a estratégia na decoração do V5. "Vou construindo à medida que as coisas aparecem". Por isso, não nos admiramos se voltarmos ao V5 e descobrirmos um novo pormenor. Podia não ser um work in progress, mas não seria a mesma coisa.

Nome
V5
Local
Porto, Porto, Rua Mártires da Liberdade, 216/218
Telefone
918256382
Horarios
Terça a Sábado das 22:00 às 04:00
Website
http://www.myspace.com/vcincobar
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