Com 34 letrinhas apenas se escreve a palavrinha "Supercalifragilisticexpialidocious". E, parecendo que não, muita gente cresceu a (não) conseguir dizer tal termo, que dá título e serve de mote a uma célebre canção do musical Mary Poppins, colheita Disney de 1964, em que Julie Andrews encarna uma mágica ama. Agora, como é que raio a Mary Poppins cai dos céus em plena Alfama? E logo com uma sardinha explosiva nas mãos? Graças a Alexandra Sumares e Sofia Garrido, dupla simpática que arregaçou mangas e decidiu criar um "tasco atípico" (atenção, que há um "a" antes de "típico") à sua imagem e segundo as suas personalidades.
O SuperCaliFragilistic chegou com a Primavera e, diga-se desde já, que a única coisa que foi buscar à Poppins foi mesmo o nome; a casa não tem mais nada a ver nem com o filme. "É apenas pela fonética" e "por nos remeter para um mundo de fantasia", explicam. O SuperCali é tanto bar-tasco-reinventado, quanto restaurante ou sala de estar sem pressões nem manias, para petiscar ou beber a qualquer hora, ler uma revista, ouvir uma musiquinha ou até assistir à bola (só jogos especiais, só jogos especiais). Ou, segundo as suas autoras, um "local de convívio pouco organizado onde a qualquer hora do dia se servem petiscos e se bebe vinho", "apresentando uma carta modernizada, ousada, informada". Um espaço amigável e familiar, destinado ao convívio sem stresses, que dá a Alfama uma nova boa onda e permite ao cliente libertar-se dos grilhões de horários obrigatórios de refeições. Aqui, "tanto se pode jantar à uma da manhã como saborear um cocktail às seis da tarde, petiscar quando se tiver vontade ou beber um copinho de tinto do pipo às nove da noite". Ou chegar a meio da noite só para provar "as melhores batatas fritas do mundo" e ir ficando em contínua degustação horas a fio, dizemos nós. Haja liberdade.
Basta dar um passo adentro e já se sente outra Alfama. Que, porém, não renega tradições, antes as mistura e volta a servilas, temperadas pela imaginação, sabedoria e gostos das meninas "supercalifragilisticexpialidocious". A casa mistura também cores e decorações, junta lustres a mesas de madeira ou de tampo de mármore a cadeiras desirmanadas, recicladas e das mais variadas proveniências, casa um balcão de bar como manda a lei, alto e longo, debruado a pele de leopardo, com umas belas pipas de vinho mesmo ao lado... São, na prática, duas salas: uma de entrada, mais pequena e de cores mais calmas; e a seguinte, salão principal e social, a que se tem acesso também pelas traseiras do prédio, onde, num pequenino pátio alfamado, se esconde uma micro e íntima esplanada. É uma casa sem mistérios mas que tem prazer e diverte-se a dar a descobrir as suas invenções (olha uma boneca Barbie na casa de banho dos homens, olha o belo logo da casa, por acaso assinado por Nuno Tristão e que estiliza a árvore das traseiras que engalana a esplanada...). A banda sonora segue o mesmo rumo e tanto poderá ser ambiente como servida por DJ. Mas sempre escolhida a dedo, "seja fado, seja techno". O mesmo para as bebidas, cuja carta deverá no futuro ir apostando mais nos cocktails - para já, pode contar-se com mojitos ou o cocktail da casa, que junta champanhe e gelado de limão caseiro.
E se ainda se pergunta o que é um "tasco atípico", a resposta é simples: "porque não é típico", ri-se Alexandra. "É feito à nossa imagem", sublinha Sofia. "Queríamos fazer o nosso sítio perfeito, onde nos sentíssemos bem e os outros também". Acrescente-se que Sofia, que é, digamos a chefe cozinheira, também queria um sítio para fazer as suas experimentações culinárias (veja-se na saborosa caixinha nestas páginas), onde utiliza todas as culinárias e produtos que respeita e gosta. São privilegiados os produtos nacionais, garantem, mas aqui há mais curiosidade que complexos. Há muitos e bons exemplos, mas o mais chamativo e destinado à fama é, decerto, a sardinha explosiva. Mas nada tema, a não ser que as suas papilas sejam sensíveis. A explosão da sardinha, que vem num espeto, deve-se ao picante que lhe é outorgado pela malagueta. "Queremos uma cozinha excitante e intergaláctica", anunciam. Portanto, tanto se pode ir de morcelas a farinheiras reinventadas, de wasabi a caril, de ostras a torresmos, de tártaros a cabidelas. É uma cozinha aberta à experimentação. Tal como o resto da casa e o seu ambiente, que se quer "irrequieto, divertido, descontraidamente caótico".
Referências
Petiscos e companhia
Por aqui não há formalidades de horários e, haja apetite, há sempre que comer. A carta, que vem escrita à mão em papel corrente, é dada a nomes bem esgalhados e inclui petiscos tradicionais reinventados ou não, pratos do dia curiosos, propostas surpreendentes. Há "superpão com pesto de manjericão", umas belas batatas fritas com alho e salsa ou cubos de milho fritos, hummus, mousse de abacate, sopa de miso amarelo com algas e camarão ou sopa de legumes com ananás, creme de couve-flor e aipo com amêndoas e queijo da ilha... Que tal uns bombons de farinheira ou um vulcão de morcela? E um tártaro de atum (ou de corvina ou de salmão)? A lista prossegue, criativa e temperada, e pode incluir pratos mais substanciais: peito de pato com frutos silvestres e porto com cubos de milho frito, galinha com grão e hortelã (ou com chocolate e banana), até uma feijoada ou arroz negro de choco com camarão, corvina do mar em saké, shoyu e limão, sashimi de salmão com laranja, almôndegas de alheira e cogumelos ou umas panquecas de enchidos com grelos, gelado de azeitona verde, mel e chocolate. Também se pode ficar por umas fatias de pão com salmão, presunto, queijo de cabra ou vegetais. Doçuras também não faltam: frutas com chocolate quente picante, bolo de frutos silvestres, kashmir ou a mui musical laranja Tom Waits. Já para não falar nas propaladas sardinhas explosivas...
- Nome
- SuperCaliFragilistic
- Local
- Lisboa, Lisboa, Rua dos Remédios, 98
- Telefone
- 912506755
- Horarios
- Terça a Sábado das 18:00 às 02:00