Há cinco anos, aterrou um ovni ali para os lados dos Clérigos - e a história já foi contada vezes sem conta, a da Tendinha dos Clérigos. Onde não havia nada (e "nada" aqui lê-se "vida nocturna") nasceu uma das pistas mais alternativas da cidade do Porto, na atitude e na música. Os anos passaram e o nome "Tendinha" anda nas bocas do mundo: "Onde é a Tendinha?", "Donde es la Tendinha?" - e mostra-se o papel onde alguém escreveu o nome do sítio imperdível. A Tendinha dos Clérigos continua a ser "a Tendinha", mesmo entre Alberto Fonseca, o seu mentor, e os funcionários. Mesmo que estejam noutra "tendinha", mais escura. É verdade, há outra Tendinha na família. Que é a velha Tendinha. Tendinha Indiscreta é a irmã mais nova que quer ser como a irmã mais velha, pré-velocidade-de-cruzeiro. Ou seja, quer ser alternativa e underground, como a Tendinha dos Clérigos era antes de ser uma instituição.
É que a popularidade teve (tem) um preço. Ou vários preços. A Tendinha dos Clérigos está sempre tão cheia que muitos fãs de primeira hora não conseguem nem entrar (e aqui falamos literalmente) - e os grupos de "Amigos da Tendinha" que se reúnem noutros bares são só por si eloquentes. E a sua imagem musical é tão marcante que pode raiar a caricatura - vai-se à Tendinha pelo som da Tendinha e este som agora tornou-se intocável, cristalizou-se. Quem lá vai, quer dançar o mesmo de sempre, os velhos hits alternativos que se tornaram, em muitos casos, numa espécie de memorabilia mainstream. Vai daí, ensaia-se um regresso ao passado. "Anti-comercial", resume Pedro Puré, um dos colaboradores da casa, é o que a Tendinha Indiscreta ambiciona ser. E, sim, falamos de música porque esta continua a ser a maior preocupação e a principal imagem de marca da Tendinha agora em versão Indiscreta.
Até porque o espaço, lado a lado com o Teatro Carlos Alberto ali na Rua das Oliveiras, já não é novidade para os assíduos da noite portuense. Dir-se-ia que está amaldiçoado porque em pouco mais de dois anos sucederam-se ali o Wait, o Janela INDIEscreta e agora, desde o dia 8 de Agosto, abriu o Tendinha Indiscreta (que quase também se podia chamar Tendinha dos Clérigos - está nessa órbita: dos Clérigos, umas ruas acima da "irmã"). É para ficar, e Alberto Fonseca não acredita em maldições; acredita em música de qualidade e qualidade de serviço de bar - "Se calhar [os bares anteriores] não estavam nas mãos certas".
Há uma discrição na fachada que "contradiz" o nome (e "Indiscreta" ainda é reminiscência da outra vida: sem o "indie" no nome, mas no ADN): uma montra e uma entrada negra. Não é só aparência, esta tendinha é escura, de cima a baixo - as paredes e tectos são negros, aliviados por rabiscos prateados, pinceladas fortes e rudimentares. Parece composição tribal e lentamente descobrem-se figuras: árvores, uma pick-up, garrafas, corações, uma guitarra (e esta continua a imagem da Tendinha). Com as luzes ganham efeitos, uma cornucópia surrealista: foi tudo pensado "para as pessoas se libertarem, não estarem tímidas", concede Alberto Fonseca.
Há duas velocidades nesta Tendinha, porque o espaço até o proporciona. Há o início de noite e há a cave - pista de dança integral. No rés-do-chão é bar, reconhecível da encarnação anterior: os sofás rentes à parede em tons de vermelho a fugir para o bordeaux, mesas baixas de madeira escura e alguns pouffs (na Tendinha dos Clérigos há uma combinação de vermelho e preto; aqui é preto e vermelho e, sim, há diferença). O bar permanece na reentrância, a caixa registadora está no "toucador" branco, espelho dourado por detrás, tudo iluminado por um candeeiro-aranha que estende os braços em luz amarela fraca, de outros tempos.
Descem-se as escadas e o negro é mais avassalador. A única cor está em frente: a cabina do DJ é no mesmo vermelho esbatido dos sofás de cima e na parede por trás os desenhos são temáticos, auscultadores, notas, claves de sol. Depois, a sala é uma pista, bolas de espelhos penduradas e um longo balcão a ocupar uma parede (e nas outras paredes, esguios apoios de copos): insistimos, negro (como até é o espelho que o acompanha, fumado: "Dá uma sensação de amplitude, mas não permite que nos estejamos a mirar"), com as garrafas alinhadas dentro, iluminadas por detrás, a emitirem a cor. As paredes estão rabiscadas, mas ainda não totalmente. "É um trabalho que não vai acabar" e esse trabalho, em breve, trará LED à "cave".
Aqui é onde bate mais forte o coração da Tendinha Indiscreta. É que apesar do funcionamento-extra como bar, este é ainda um local para dançar. É um local onde a música é quem mais ordena. E as ordens são para que a Tendinha Indiscreta passe música que não se ouve nos outros bares. Isto sempre numa "onda mais pesada", afirma Alberto Fonseca - e esclarece: pesada, aqui, é pop-rock indie. Voltamos ao início, que é como quem diz, à Tendinha dos Clérigos: indie era o seu credo.
Mas os caminhos do sucesso têm estes desvios, agora "está mais comercial" e quem o diz é Alberto Fonseca. "As meninas pedem", ironiza. As meninas pedem, a Tendinha está cheia ("e isso é bom") e os pioneiros fogem para outras paragens ("isso é mau, porque estão fora das nossas portas"). Agora, a ideia é que regressem de forma indiscreta e redescubram o espírito original a dois passos do "altar"-primeiro - "não podia ser de outra forma, os clientes do Tendinha sempre circularam na Baixa". Não há concorrência porque as músicas, "alternativas", são outras - nos Clérigos a vocação agora parece ser mais a de greatest hits; no Indiscreta não se nega uma revisão da matéria dada (pouco ortodoxa, para alguns ouvidos), mas ambiciona-se também ser montra dos best of de amanhã.
E não há, portanto, assegura-nos Pedro Puré, medo de arriscar. Arriscar em novos projectos, arriscar em música não tão obviamente dançável (um pouco como aconteceu há cinco anos: não era música obviamente dançável e agora é a dança de toda a Baixa). "Há montes de coisas novas que as pessoas têm medo que não se dance", explica Pedro Puré. Procura-se a vanguarda alternativa, com um olho nas vanguardas do passado, que se deixaram de ouvir e, sobretudo, de dançar. Não é uma nova vida, é uma espécie de Tendinha reencontrada.
Referências
O domingo é um dia útil
Uma "Reunião de Condomínio" inaugurou a Tendinha Indiscreta no dia 8 - um domingo. Não foi um acaso, foi (é) a tentativa de colmatar falhas e de criar novos hábitos - o de sair ao domingo e, a partir de Setembro, à segunda-feira também. "Queremos aproveitar os dias em que não há oferta na zona", explica Alberto Fonseca. Aos domingos haverá sempre a "Reunião de Condomínio", dirigida por quatro DJ (Isidro Lisboa, António Barroso, José Reis e Mónica). A segundafeira é ainda uma noite à procura de tema. O objectivo é "atrair mais gente do teatro, do espectáculo".
A família
No início existiu a Tendinha dos Poveiros, que na viragem de milénio se tornou um dos locais cool da noite portuense - e ali se forjou o "som tendinha". Mas já existia antes como já existia a Tendinha do Padrão, restaurante. Nos Poveiros continua a Tendinha, que já não é da "família" - não pertence a Alberto Fonseca. Mantêm-se o Padrão, os Clérigos, agora a Indiscreta e o La Bohème, na Rua Galeria de Paris, que depois do Verão vai "lavar a cara" (o Blá Blá, em Matosinhos, também fez parte do clã, mas durante pouco tempo). Não está de parte a abertura de mais bares-clubes: podem não ser "tendinhas", mas terão sempre a marca do pequeno "grupo" - a música e o trabalho de bar (que inclui barmen profissionais, faz questão de sublinhar Alberto Fonseca).
(Agosto 2010)
- Nome
- Tendinha Indiscreta
- Local
- Porto, Porto, R. das Oliveiras, 45
- Telefone
- 933347079
- Horarios
- Quinta a Domingo das 22:00 às 06:00