Um espaço temporal - a "primeira referência" reporta-se ao início da noite, que aqui se quer tornar a "melhor parte da noite" - e um espaço físico, claro. E antes de entrarmos, detemo-nos no exterior, que no Edifício Transparente é praia. Deveríamos ter vindo no Verão - o Creme abriu a 9 de Julho - quando a esplanada brilhava com vista para o mar, rés-mar. Agora, que é Outono e a chuva já fez aparições (em força), foi recolhida de vez ("o mobiliário era muito pesado", explica-se) e o quadrado de cimento está vazio (à espera que se avance com o projecto para cobrir a esplanada, o que deverá acontecer até final do ano), com a mesma vista - e como entretanto anoiteceu, esta é a espuma branca que se desfaz por detrás de umas poucas árvores.
Mas entramos e a praia é-nos devolvida, com algum esplendor veraneante. Porque entramos para o azul ("azul-piscina", diz António Freitas, que também poderia ser um "verde-água") que repete à exaustão dias soalheiros, mesmo quando a noite se fecha e o frio assenta - foi uma questão de "sintonia com o que está lá fora". Não é creme, está visto, este Creme que se moldou um pouco à maneira dos bares de Miami, que os irmãos conheceram mesmo sem saber que um dia teriam um bar à beira-mar plantado. Porque, diz-nos António, o Creme é o resultado de uma proposta inesperada - nunca tinham sequer pensado em ter um bar - mas "aliciante" para "pessoas novas" (ele tem 25, o irmão 28 anos). "O espaço tinha potencial, mas não nos moldes de antes", recorda - o "antes" era a discoteca Shu, de serviço apenas ao fim-de-semana, que podia estar aqui ou num qualquer centro comercial anódino, "era escura, pesada".
O Creme não é totalmente diferente porque a estrutura do espaço se mantém, mas é radicalmente distinto em tudo o resto. Primeiro, abre todos os dias - e durante o dia, que aqui começa às 11 da manhã (hora de Inverno) para servir almoços, lanches, jantares e o que mais aprouver, antes de se tornar animal noctívago; depois, é claro e leve como um bar de praia, e sofisticado como um bar de cidade (que também é, não esqueçamos, restaurante e lounge e puxa para a discoteca quando está para aí virada). Para compor um "ambiente descontraído e um pouco refinado", para um público que aprecie "conforto e estar de frente para o mar" - e, já agora, "vestir-se bem".
Sim, a ideia era que fosse "muito confortável" e é na cor ("toda a gente repara primeiro na cor", afirma António Freitas, "por ser imprevisível num espaço destas características") que tudo começa - o azul é o bar, com intromissões de brancos, cru, verdes. Não é zen, porque isto vem tudo em combinações imprevisíveis: há paredes com traves de madeira e mobiliário Philippe Starck, há candeeiros de pé e cabeças de animais, há alcatifa e pouffs de verga brancos, há papel de parede e paredes de vidros fumados, há ecrãs plasmas e vasinhos de plantas. E há uma parede inteira que são portas de vidro: no Verão, uma abre-se para a esplanada, no Inverno, mantêm-se fechadas e à noite são cobertas pelos reposteiros.
Na entrada, mistura-se um pouco de tudo: é um pequeno átrio com uma parede (e tecto) de repas de pinho, outras azuis e uma faixa de papel de parede, iluminada por um candeeiro de pé alto (branco) e abat-jour cru (e lá dentro vemos alguns, nos cantos junto à parede envidraçada). Passando a segunda porta, o espaço é rigorosamente contemporâneo, clean e luminoso. O balcão principal tem a forma de um feijão luminoso e por cima um candeeiro é base para duas cabeças de rinoceronte, brancas, esculpidas - no segundo balcão, no lado oposto, são gazelas. Junto às janelas, alinham-se sofás azuis e mesas de vidro da mesma cor e pouffs a imitar verga branca junto a mesas-sofás brancas, baixas. Estes conjuntos repetem-se no centro, durante a semana, para criar ambiente lounge - nesta sexta-feira, estão nas "traseiras", por debaixo dos plasmas, e o centro está decorado com esguias mesas altas colocadas como peças de xadrez. É para estar e também dar à perna, pista de dança informal, dizem-nos, mas com bolas de espelhos e robot de luzes a trabalhar incansavelmente, defronte do "palco" que também é cabina de DJ - e espaço reservado: por detrás do DJ, vêem-se as cadeiras Philippe Starck, espaldares altos, largos e alvos, em torno de duas mesas-diamante. Reservado como é, o acesso aqui ou é feito por convite dos proprietários ou se os clientes decidirem comprar garrafa - "aqui têm um espaço mais privado para usufruir a noite".
No entanto, como já dissemos, não é só de noite que vive este Creme. Durante o dia tomam-se refeições e convive-se em amena cavaqueira - o público da tarde é mais velho do que à noite, notam, num ambiente lounge e os fins-de-tarde são de after-work e pores do sol. Durante as noites "úteis" é esse lounge que predomina, quase ambiente de café, com uma linha musical muito relaxada. Privilegiam-se as sonoridades de deep house e soulful dançante - um house sempre com voz e base soul. Tranquilo, como se quer o Creme, ou não tivesse ele vista de mar.
Referências
Dançável e leve
As opções musicais estão bem definidas no Creme, mas ao fim-de-semana aceleram-se um pouco as batidas e a festa começa - não é discoteca tout court, mas niguém se pode queixar de falta de espaço para dançar. As noites de sábado estão reservadas ao deep house e soulful mais puro - "o house do início da noite", bastante dançável e leve; às sextas-feiras há festas temáticas, e aí podem entrar pop e ritmos brasileiros, bossa nova, sobretudo. E há experiências, como a noite Ladies first, uma noite da mulher em que os homens só podem entrar depois da uma da manhã - e elas até essa hora têm direito a uma bebida. Hoje.... E já se prepara a festa de 31 de Outubro: o Halloween vai ser assinalado, e terá direito a "músicas de A a Z" e décor "Zombie Nation", a fazer finca-pé à moda dos vampiros.
À mesa
Se o Creme abre às 11h00 o motivo basicamente é preparar os menus-executivos, que são os almoços aqui. Há duas versões. A primeira inclui entrada ou sobremesa, com prato principal, bebida (água, refrigerante ou copo de vinho e café) e custa €7,5; a segunda engloba tudo e custa €9,5 (e para cada prato há diariamente quatro opções). Por enquanto, à noite só se fazem jantares para grupos, por reserva, mas a partir de Novembro haverá refeições à la carte. Tudo sob o signo de "apresentação gourmet", mas trabalhando a gastronomia tradicional portuguesa e a mediterrânica. Não há, para já, muitos lugares disponíveis para refeições (oito mesas), mas espera-se que a nova esplanada coberta venha dar novo alento ao Creme-versão-restaurante: com mais mesas e capacidade de albergar eventos de outra magnitude, faça sol ou faça chuva.
Originais
Temos o Cosmopolitan, mas também o Cougar; temos o expresso, mas também o Homem do Leme. Cocktails e cafés: no Creme há os tradicionais e há os originais. Não descobrimos os segredos do Oporto Sunset, mas descobrimos que o Blue Element, o cocktail-assinatura do bar é, inevitavelmente, à base de Blue Curaçao e cítrico e o Cougar, do Fábio, é à base de vodka de morango e extractos de frutos vermelhos. Nos cafés, o Homem do Leme é uma variação do "café com cheirinho", e se o Canelita não guarda segredos, o Women''s Secret é só segredo. Quem quiser arriscar novos sabores, no Creme, a lista é variada - e quem quiser jogar pelo seguro, também não se sai mal.
- Nome
- Creme
- Local
- Porto, Porto, Edifício Transparente - Piso Praia (Via do Castelo do Queijo)
- Telefone
- 927508121
- Horarios
- Domingo, Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira e Quinta-feira das 11:00 às 02:00
Sexta e Sábado das 11:00 às 04:00
- Website
- http://www.creme.pt