Chegar lá não foi fácil, dizem-nos, mas, dizemo-lo nós (pelo menos), a chegada é óbvia. É daqueles casos em que se dá voltas à cabeça para encontrar o que sempre esteve bem à frente dos olhos - no caso, a circular de boca em boca. Falamos do nome de um mui novo bar portuense - quando o visitámos estava quase a estrear: porém, duas festas de inauguração privadas, mais a abertura oficial, mais uma noite de sábado e uma festa de Halloween (sim, realmente, a tradição já não é o que era) deixaram sequelas e ainda apanhámos (numa das visitas) os trabalhos de "reforço" de um sofá. Mas falávamos do nome: se não o houve antes do bar foi por pura casualidade. Porque é tão óbvio, repetimos, o nome, que poderíamos dizer desprovido de originalidade. "Queremos abrir um café na Baixa", diziam os mentores do projecto; como diziam, como dizem, como dizemos, "vamos à Baixa". "Nunca dizíamos ''queremos abrir um café no Porto''", recorda João Paulo Moreira, um dos sócios (são dois) do Baixa - aí está, evidente, o novo bar da Baixa portuense.
"Baixa" emerge (quase fluorescente ou quase imperceptível - noite e dia ali) da fachada austera da burguesa Rua de Cândido dos Reis. Já foi pólo de comércio - e, sim, o Baixa nas encarnações anteriores foi armazém (recentemente, armazém de tudo, local onde tão depressa se encontrava uma bola de pingue-pongue como um carrinho de bebé) - agora é mais de animação, nocturna, sobretudo, mas que já mexe a partir do final da tarde, com as esplanadas a tomarem conta de uma porção dos passeios. A do Baixa terá começado a funcionar em horário de fim de dia esta semana que hoje termina - nós estivemos lá na outra semana (a segunda da sua vida), e a esplanada, ao estilo parisiense feita de mobiliário de palha e bambu, só saía à rua à noite.
Não estamos junto ao Sena, como João Paulo Moreira gosta de imaginar a sua esplanada, mas a Torre dos Clérigos espreita mesmo ali. E sim, o Porto agora vai à Baixa à noite - mas há baixa e baixa. "As ruas estão perfeitamente segmentadas e identificadas. Os públicos são diferentes", considera João Paulo. Esta, na sua opinião, é para um público mais velho (leiase, para cima de 25 anos) - este é o público que querem trabalhar. "Já tínhamos o conceito, procurámos o espaço", explica, "de preferência nesta rua. Queremos dar continuidade ao trabalho dos nossos vizinhos. O nosso público é mais ou menos igual" - excepção, ressalva, do Plano B, que atrai um público mais ecléctico às suas "iniciativas fantásticas".
Público semelhante, então, a circular numa fiada de edifícios similares no rosto e no interior. Na estrutura, pelo menos. Vimos o antes do Baixa num edifício contíguo - onde abrirá um restaurante: uma desmesura de pé alto, duas salas amplas divididas por arcadas duplas, parede de vidro que é porta e janelas a flanquear. Voltámos ao Baixa e percebemos a insistência de João Paulo quando entrámos: "Tudo o que vemos não existia. Foi tudo criado, desde a entrada até ao fundo".
A criação tem assinatura do arquitecto José Carlos Cruz e quase poderíamos dizer que é uma espécie de Dr. Jekkyll e Mr. Hyde, em feitio e temperamento. Mas, atenção, no bom sentido, claro: de um lado clássico e quase recatado, do outro quase high-tech e com a loucura mais à flor da pele; de um lado, os crepúsculos prolongados; do outro, a chegada das madrugadas. E antes de tudo isso uma pequena antecâmara de latão dourado e vidro martelado, como um aquário de transição entre a rua e a Baixa - e os cortinados de veludo azul nas janelas-montra podem, querendo-se, assegurar que a rua nunca se intromete.
A música que aqui toca é sobretudo comercial - pop, rock e o (parece que) obrigatório desfile dos greatest hits de um passado mais ou menos longínquo - mas a atmosfera que nos envolve quando fazemos a transição definitiva é bem mais retro. Não precisamos que João Paulo nos diga que "a ideia foi recriar uma sala antiga" porque estamos entre espelhos e bronzes, "estuques" (que são molduras) e dourados. É um salão quase clássico, cor de tijolo (não garantimos que o vejam assim: as luzes são ilusórias, como convém) com molduras castanho-rato que desenham ornamentos mais ou menos rebuscados nos tectos e nas paredes - uma preenchida com espelhos de grande rectângulos e juntas de bronze, a outra com um balcão maciço onde não falta um pousa-pés de latão. Dourado, portanto, o mesmo dos candeeiros que pendem alinhados sobre o balcão, o mesmo das prateleiras que preenchem o interior do bar, entre mais espelhos e garrafas - e um pouco ortodoxo Santo António ("porque fica sempre bem", brinca João Paulo), cor azul-escura quase roxa com quem as luzes gostam de brincar. Um longo sofá verde aninha-se sob os espelhos com mesas baixas e pequenos maples cor de tijolo - tudo convida a ir ficando, a puxar conversas, sob uma iluminação quase rarefeita, intimista.
No entanto, é a nossa primeira vez aqui e seguimos o soalho antigo (cerâmica hidráulica em jogo de branco e cinzas, quase como se de um tabuleiro se tratasse) e há um túnel para atravessar (à noite iluminado por focos nos chão). As duplas arcadas desapareceram, cobertas por repas compondo formas excêntricas - e arredondadas. "A ideia", conta João Paulo, "é que parecesse que uma marreta passou por aqui e deixou este desenho". "Parecem as escarpas do Douro...", atreve-se. É rugoso de madeira e caprichoso de forma. Daqui abrem-se as casas de banho (formas arredondadas, pastilhas hexagonais formando colmeias alvíssimas), mas já emergimos "do outro lado" (esta é uma fronteira bem visível) e o outro lado é brilhante - e por vezes ondulante. As paredes e o bar, ao fundo, gostam de arredondar-se e em torno das janelas há uma espécie de moldura que sobe em ondas que se desfazem no tecto: é tudo em vidro, mas parece folha de vidro - o resultado traz ecos de algum "cotovelo" do Guggenheim de Bilbao (e com as luzes nocturnas os mil reflexos, do espaço e dos azulejos do prédio atrás, transformam-no, com alguma concentração, numa visão quase onírica como se de downtown Tóquio se tratasse, como sugere Paulo Pimenta). Moderno, sim, mas de modo algum asséptico - as paredes são em madeira (e também arredondam na zona da cabina do DJ), de várias cores, várias texturas, os sofás são de veludo (e continuam as formas redondas nos "esses" que constroem). As luzes aqui são LED e se estão discretamente instaladas, estão conspícuas quando ligadas - em harmonia com a gigantesca bola de espelhos bem no centro da sala, percorrendo as paredes em ondas (novamente) que seguem os desvarios da madeira. E se na outra sala se conversa, aqui a dança é quem mais ordena - alguém se atreverá a resistir?
Pela amostra dos primeiros dias, poucos. Mas a verdade é que, antes mesmo de abrir, o Baixa já tinha quase dois mil fãs no Facebook, montra do espaço - físico e musical. Porém, João Paulo não quer que as pessoas fiquem pelas aparências, quer mais do que o "diz-que-se-diz". "Nós não somos mais um bar que abriu. Queremos ser diferentes. Daí o espaço, daí a música, daí o serviço. Mas, as conclusões, o público só pode tirar depois de visitar-nos." Talvez um dia se diga ir ao Baixa, como se diz ir à Baixa. Por enquanto, ainda se descobrem os caminhos para esta nova geografia.
Referências
Snack drinks ao final da tarde
É certo (e sabido e repetido) que os portugueses não têm o hábito de ir a um bar após o trabalho, antes do jantar. Mas muitos parecem querer mudar a rotina nacional e encher os bares ao final da tarde. No Baixa, há a vontade (até para "fazer parte do grupo que traz dinâmica, mais gente" a uma Baixa que querem "cada vez mais apelativa") e apresentam-se alguns argumentos para diferenciar o espaço dos seus vizinhos - destaque para as snack drinks. Copos de vinho ou de espumante (ou café, ou capuccino...) acompanhados por aperitivos gourmet para o descanso depois de uma jornada laboral. E o descanso pode ser no "salão" ou na esplanada, tutelada pela Torre dos Clérigos que espreita no canto, para onde se pretendem atrair também muitos dos turistas que se alojam nos hotéis das redondezas - momentos de relaxe num cenário eminentemente urbano, onde não faltará o tradicional cálice de Porto.
Não estar apenas aberto
A programação é ainda um trabalho a construir, mas a música é a parte principal desta - e um dos vértices para o funcionamento da casa, diz-nos João Paulo, juntamente com a decoração e o serviço. Por enquanto há duas noites temáticas definidas - Funky Town, na última quinta-feira de cada mês, terá funk na alma e nos pés, servido por Tó, dos Expensive Soul; a outra, ainda à procura de nome, será em português, com a música nacional a rodar e a revelar "as novas tendências" e a recordar os "antigos" (os DJ desta noite idealmente serão músicos portugueses "com vontade de partilharem os seus conhecimentos musicais). Mas sempre que for possível fazer programação diferente, far-se-á - porque a ideia é tentar dinamizar os dias da semana com coisas diferentes. "Para não estarmos apenas abertos".
(Novembro 2010)
- Nome
- Baixa
- Local
- Porto, Porto, R. Cândido dos Reis, 52
- Telefone
- 222015855
- Horarios
- Terça a Sábado das 16:00 às 20:00 e das 22:00 às 02:00
- Website
- http://www.baixa.pt