D''Ouro já havia o restaurante. E antes disso, muito antes disso, o café. Estrela D''Ouro, desde 1955 bem no centro do Porto. Há pouco mais de um mês, o Estrela restaurante ganhou um irmão, que ficou com o sobrenome e uma nova função. O D''Ouro Club é bar-disco ou disco-bar, diz Manuel Martins, um dos sócios e abriu por cima do restaurante, onde já houve um salão de bilhares (nada de brincadeiras, com equipas federadas e tudo) e um bar com bilhares - e já percebemos que a designação não é realmente importante. O percurso trouxe-o agora para o epicentro noctívago do Porto - "Quando tomámos conta disto [2007] a Baixa do Porto estava em baixo", recorda o sócio, "não se passava nada" - e por isso vestiu-se a rigor para se adequar à nova vocação da zona, uma vocação que fez sua. E que é quase uma filosofia da casa: "Moldámo-nos ao público que temos", explica Manuel Martins.
Na verdade, a casa - o restaurante - tem (ganhou) pergaminhos académicos. No clube, esse não é o público preferencial, mas não o desdenham. "Desde que saiba estar, queremos todo o público", afirma Manuel Martins. Com a noção de que será sempre um público que gosta de prolongar as noites. "Temos uma casa fechada", nota Fernando Figueiredo, o gerente, "os nossos clientes começam a chegar pela 1h30, 2h00, quando os bares ''de rua'' começam a fechar". E com a oferta já existente na zona, o D''Ouro Club, assumindo-se como um "clube de house comercial, aquele que todos conhecem", explica, aposta na variedade. O que significa que a música vai variando ao longo da noite, independentemente da temática oficial para cada dia. Rock, pop, brasileira - além do house, tudo pode caber numa noite aqui. O importante é ver toda a gente a dançar - e, dizemos nós, ter casa cheia, o que num espaço com cerca de 300 metros quadrados implica ter várias centenas de pessoas dentro.
Antes de entrarmos, vemos o primeiro andar do edifício com a fachada de varandas forrada com imagens - e descobriremos já que lá dentro não há acesso, é uma barreira sonora em forma de parede. A porta é quase discreta, de metal. Ainda não há dourados, mas este é um espaço "d''ouro" e já lá vamos. Não é uma explosão, mas eles estão por todos os lados. Entramos e o papel de parede é castanho e dourado, desenhando uma espécie de pequenos ladrilhos. No meio da parede, uma moldura dourada e rebuscada espera conteúdo - que será o logótipo da casa, D''Ouro Club (e mais dourados, pois claro).
É imenso este "club". Ainda não há aquela que será a imagem de marca da casa - a longa parede principal vai ser forrada com uma fotografia panorâmica da Ribeira, em tons dourados, avança Fernando Figueiredo, o gerente. "Uma maneira de estabelecer a relação ao Douro". O rio que às vezes, dependendo dos truques da luz, é mesmo de ouro - e que confunde o nome da casa: veja--se como na rede social Facebook é "Douro Club". Por enquanto, a parede está dividida: o tal papel de parede que cobre quase todo o espaço divide a parede com fotografias de cores saturadas, de momentos nocturnos - e são herança das outras encarnações.
A parede, um enorme espaço vazio e é esse "nada" que dá a indicação, estamos na pista de dança - reparamos depois nos robots de luz no tecto que configura o espaço dançante, mas os lasers que se movem ao ritmo da música vão correr tudo além da pista. E além da pista, no rectângulo primordial, há ainda umas poucas de mesas baixas rodeadas de sofás castanhos e brancos - e novamente uma moldura vazia: "Falta o espelho, que dará profundidade à casa", um espelho que será "enferrujado" como o que se pendurou dentro do balcão. Abre-se um recanto que por enquanto é lounge, apenas mesas e sofás - e alguns candeeiros de pé, brancos, que se repetem por todo o espaço, alguns como colunas, outros como garrafas: pontos de luz suave em casa de tecnologia - mas que será zona VIP quando o futuro chegar. "Ainda estamos a arrancar", lembra Fernando Figueiredo. Passos pequenos a sentir o pulso à nova casa e a conquistar uma nova atmosfera que faça esquecer o "ambiente estranho" que se vivia nos últimos tempos do tal bar-com-bilhares. "Muita miudagem..."
Agora a miudagem, a haver, é universitária - os jantares no Estrela d''Ouro e a continuação da noite no D''Ouro Club. Por enquanto, as quartas-feiras, por exemplo, estão reservadas a festas académicas (e aniversários), em regime de reserva do espaço. O clube abre a partir de quinta-feira, com a noite latina - que é também noite da mulher -, mas quando passar a abrir à quarta-feira haverá anos 80. Às sextas-feiras avança-se uma década: com Time Traveller, parte-se dos anos 90, e do conceito do Cais 447, para se chegar aos dias de hoje; e chega-se a sábado com house, sem ortodoxias: uma noite típica pode abrir "com rock, passar pelo disco, deep house e chegar à comercial", explica Fernando Figueiredo, que é também um dos DJ residentes. Aos sábados haverá também DJ convidados, uma vez por mês, pelo menos - e nessas noites o consumo obrigatório será de cinco euros, ao invés dos dois que são a regra.
Mas, voltando ao tal bar-combilhares, a terceira zona do D''Ouro Club é quase uma cópia dele. Na estrutura pelo menos, e é esta que não passa despercebida. O tecto, que nunca é muito alto, aqui ainda baixa um pouco mais e cobre-se de " vulcões" - formas convexas que pendem como estalactites, com focos de luz na ponta. Sob elas, mesas altas, pé de metal e tampo branco e uma cortina de ar que varre o espaço que é a zona de fumadores. O bar, comprido, também tem caprichos convexos, ondulantes como um oceano em dia de vento - são brancos e com as luzes viram azuis. Uma das poucas excepções num espaço que se quer dourado, mas que quando a música começa a acelerar se pinta de vermelho e verde pelo tecto salpicado dos lasers que o percorrem. Em ritmos pré-definidos mas à mercê de um eclectismo musical característico de algumas casas da Zona Industrial do Porto - que agora se serve, também, na Baixa, portanto.
Academia
Quando se instalaram aqui, os sócios (Manuel e o irmão, Fernando Martins) criaram um espaço que tentaram que fosse agradável. Investiram "em design" cuidado, "mas os estudantes não ligam", diz Manuel Martins. Por isso, aos fins-de-semana, sobretudo, não surpreende se as mesas são corridas e colocadas para muitas dezenas de pessoas. Por estes dias, um jantar académico de 400 pessoas passará por aqui e o restaurante vai transbordar para o clube. Desta vez, literalmente - nas outras vezes, pode ser criado um menu especial que inclua, por exemplo, uma bebida gratuita no D''Ouro Club ("procuramos criar situação à medida na sala de cima"). Mas a grande vantagem do espaço, na opinião de Manuel Martins, é as pessoas poderem chegar, sentar e comer e depois subirem e divertir-se. E a comida e a diversão nos dois espaços, independentes, vão até às 6h00.
(Dezembro 2010)
- Nome
- D'Ouro Club
- Local
- Porto, Porto, R. da Fábrica, 59
- Horarios
- Quinta a Sábado das 23:00 às 06:00