Dez anos é muito tempo, cantava Paulo de Carvalho. Em tempo Bairro Alto, à velocidade que abrem e fecham sítios, uma década deve equivaler pelo menos a um século. O Purex, protegido na Rua das Salgadeiras, sossegado (em comparação com o resto) cotovelo do bairro mor da noite alfacinha, abre-se à diversão desde há precisamente uma década, celebrada há um mês. "Uma espécie de ''Cheers'", sorri Joana Girão, uma das três sócias (com Joana Reinhardt e Susana Faria, que também é DJ da casa). Só "uma espécie", que as noites aqui vão para muito para lá do ambiente do bar da série televisiva. "Às vezes queres ir onde todos conhecem o teu nome / e todos ficam contente por teres vindo", cantava-se no genérico da série. É por isso que, hoje, não só vamos cruzar a porta laranja do Purex como vamos apurar os dez anos de vida do bar, "aquele bar" para muitos milhares de bairroaltistas. Something wonderful is about to happen (algo maravilhoso está prestes a acontecer) é o mote do dia - e o mote escrito a toda a largura na parede do balcão do bar, de certo modo herdeiro do carisma (e muitos clientes) de bares saudosos como os Três Pastorinhos ou Captain Kirk.
"Diria que uns 25 por cento dos nossos clientes são habitués", afiança Joana. Um ambiente clube de amigos que, de facto, se adivinha no bar, célebre pelos calorosos interiores vintage, entre o mobiliário reciclado e o melhor kitsch lusitano (e de proveniências várias). Enquanto Joana nos guia pela década Purex, uma Virgem Maria quase irradia num quadro (de arte chinesa, decerto). E estamos sentados noutro ícone do bar: bancos vindos de um velho autocarro escolar, sob a luz de lustres feitos de copos de plástico. Em frente, o balcão do bar é abrilhantado por lustres feitos de palhinhas. São duas salas mas é todo um mundo; uma sala de bar, com os tais bancos em redor de mesas altas; outra mais interior, jeito lounge com cadeirões, sofá, DJ - e que a clientela torna em pista. Por todo o lado, uma miríade de detalhes, de orelhinhas a outros membros pendurados na parede, santos (e pecadores), objectos de outros tempos recriados ou não, bolas de espelhos, um quadro central de cavalos galopantes - símbolo da energia do ultracriativo festival anual Add Wood, que volta no próximo mês.
Um cenário trashy, "de bas-fond", vai dizendo Joana, com toques de "criatividade e diversão". A música também nunca desrespeita o cenário neste garantido refúgio humano para quem foge de um Bairro Alto de ruas de cerveja ou espaços sem vigor: retro, revival, 70''s, 80''s, electropops, até nacional-cançonetismo se for preciso e até pimba quando a noite mais sorri. Pelos inícios de noite e dias calmos, é poiso certo para bem estar e conversar. Já em dias nobres, o Purex rebenta pelas costuras, extravasa para a rua, mas ninguém parece querer arredar pé. Como diz Joana, entre duas gargalhadas, "quando se está bem ensanduichado, até se gosta de estar ensanduichado". Então quando há festas temáticas ("sempre algo surrealistas"), caso da muito concorrida Festa do Emigrante em Agosto, o espaço sai ainda mais curto.
"Já pensámos em expansão", confessa Joana, "gostaríamos de voltar a ter disco". Expliquese: o Purex - nascido no espaço que antes era o Café Puro (que serviu de pura inspiração para o actual baptismo) - era, durante os primeiros anos, um clube com pista e som à altura que cativava à séria; por aqui passaram muitos DJ célebres e que hoje são cabeças-de-cartaz - até internacionais, como a (agora) superestrela Ellen Allien. Mas ao perder o estatuto disco, passou a só-bar (sempre dançante, que bem pode a música ser em volume baixo que o povo arranja sempre maneira de fazer pista). Entre essa fase e hoje, a conquista fez-se pouco a pouco. Agora, "é um conceito firmado", sublinha Joana, feito de "simpatia", "familiaridade", "eventos giros" - "até porque estamos sempre abertos a propostas". O Purex não se expandiu ainda mas já tem um braço gastronómico: o restaurante económico Estrela da Bica, no vizinho bairro homónimo. Com o mesmo espírito.
Ao longo do tempo, o Purex já teve muitas famas ("já nos chamaram de tudo, já", ri-se Joana), particularmente a de não passar de um bar gay ou mesmo apenas lésbico. Para Joana, não há carimbos: "é gay friendly". É muito frequentado pela comunidade gay mas "também por toda a gente, de todas as idades, de todas as áreas, famosos e anónimos". Lado a lado, "tanto pode estar o maior beto como o maior freak", "um gay ou um hetero". Nada de guetos, portanto. "O que temos é uma clientela muito civilizada". Ponto final, que este é um bar dançante para a civilização. O ambiente cosy tem as suas consequências: "Em dez anos, contam-se pelos dedos os problemas que tivemos", "e isto sem porteiro" , "é como se tivéssemos um porteiro invisível". E em dez anos já houve muita noite memorável, como aquela em que as divas Peaches e Dita von Teese, que por essas alturas eram estrelas de um cartaz Lux, foram apresentadas ao Purex e de lá não quiseram mais sair. Ou quando a ex-deputada Odete Santos participou no festival Add Wood: "Era gente rua abaixo, rua acima, que já não cabia cá dentro, esborrachados para a verem, a gritarem Odete, Odete". Há noites assim.
E qual será o futuro do Purex, que apesar de um certo low profile (ou talvez por isso mesmo), é, sublinhese, um dos poucos bares de verdadeiro culto, "com alma", "com carisma", que restam no Bairro Alto? "Evolução na continuidade"? - pergunto de sorriso na caneta. "Evidentemente", ri-se Joana: "Mutável, mas sempre neste conceito trashy".
Referências
Add Wood é o festival
É um certame marcante da vida do Purex, um "festival-extravaganza" onde o "lixo se junta à subversão", prestes a celebrar cinco anos a reunir artistas de várias artes (performance/teatro, música, dança, literatura, moda, cinema/ audiovisual, etc.). Bem lido, o Add Wood reporta logo a Ed Wood, dito o pior realizador de sempre, que fazia filmes tão maus que eram bons; também cheira à tal Hollywood e ainda sublinha o "add" que vertido do inglês dá adicionar (até ao cúmulo, digamos). Este ano, "o pior festival de sempre" promete mais, sempre segundo o lema "quanto pior melhor". Os criadores participantes têm a "possibilidade de apresentar publicamente as mais asquerosas, idiotas e impraticáveis ideias" que "alguma vez tenham tido a ousadia de conceber". O cartaz da próxima edição ainda não foi fechado e o certame está em fase de organização mas marque-se já na agenda: deverá realizar-se de 17 a 20 de Maio. Noutros anos, passaram pelo Add Wood, entre muitos (muitos) outros, JP Simões, Edgar Pêra, Tiago Gomes, Ana Borralho e João Galante, Ana Vidigal, António Cabrita, João Vinagre, Miguel Bonneville, Tiago Borges ou a exdeputada comunista Odete Santos.
Purex II - o restaurante
O espírito do bar desceu à Bica e tomou forma de restaurante. Pratica preços económicos ("por uns €10, €12, janta-se e bebe-se"), ar de cantina caseira. Na ementa há sempre dois pratos a sair (um vegetariano).
[Tv. do Cabral, n.º 33, Lisboa. Tel.: 213473310 | Encerra à 2.ª. De 3.ª a 5.ª das 16h30 às 23h00. Fim-de-semana das 12h00h à 01h00].
- Nome
- Purex
- Local
- Lisboa, Encarnação, R. Salgadeiras, 28
- Telefone
- 213421942
- Horarios
- Terça a Domingo das 22:00 às 02:00
- Website
- http://www.facebook.com/purexclub