Fugas - restaurantes e bares

Fernando Veludo/NFactos

Do you speak Lobby?

Por Andreia Marques Pereira ,

Como se chama Lobby Wine & Tapas, sabemos ao que vamos: ao culto do vinho e ao gosto pelos petiscos. O que não percebemos logo foi o intenso fervilhar deste bar que está a viver uma segunda vida (juventude?) - a programação é diária e ecléctica e a caminho vem ainda uma galeria, ou não estivesse na órbita da Rua de Miguel Bombarda
Do you speak Lobby?

A cidade que entra na noite chuvosa iluminada pelo trânsito fica completamente à porta. Se dermos com ela. Não é tarefa fácil e essa pouca facilidade não é totalmente inocente, descobriremos. O número 71 passaria despercebido se não o tivéssemos marcado como o X: uma montra cerrada com um cortinado branco, uma porta banal, luz rarefeita. Se fosse dia, talvez víssemos o relógio (daqueles que estão certos duas vezes ao dia e que, além de tudo, está "torto) que é a imagem-marca do Lobby Wine & Tapas e ali está num canto dessa montra - prestes a sofrer um upgrade. A montra tal como o Lobby, a viver o primeiro ano do resto da sua vida. O início de uma espécie de Lobby 2.0 é o que encontramos lá dentro, no espaço que quer ser um oásis na centro do Porto - "o barulho fica à porta", diz Hélder Paiva, um dos sócios. Não é wishful thinking.

O ruído dos carros é anulado por "I get a kick out of you" que sai das colunas quando fechamos a porta - sim, o Lobby é bar de porta aberta-fechada, num centro do Porto de passeios estreitos, trânsito constante e estacionamento escasso. Não estamos na Rua de Miguel Bombarda mas na sua área de influência próxima: é uma sua perpendicular, ainda no chamado "quarteirão das artes", aquela onde o Lobby assentou arraiais há vários anos. E agora, que vive a tal segunda vida, vai andar mais do que nunca ao ritmo da "Miguel Bombarda" - porque agora este lobby vai abrir-se para muitas expressões artísticas, e as plásticas, que fazem a fama da vizinhança, não só vão dizer presente como vão ser verdadeiras marias vão com todas (as vizinhas): as exposições vão seguir o calendário das aberturas colectivas da zona. Mas estamos a adiantar-nos neste novo Lobby.

Há o jazz que nos envolve quando entramos, e segue calmo ou gingão, a luz amarela difusa vinda de pequenos globos de vidro fosco que se alinham no tecto, um cheiro intenso a incenso, quatro mesas ocupadas de entre aquelas que se sucedem em frente ao sofá bordeaux que acompanha a parede. Quatro mesas, quatro portáteis. Há wi-fi gratuito - e há fãs. Estratégia calculada, brinca Hélder, "vêm navegar na Internet, ver o Facebook e lancham".

Não é novidade, o Lobby, na vida portuense, um misto de bar e café contemporâneo. Abriu em 2006, mas em Setembro de 2010 mudou de mãos. Hélder Paiva e o sócio João Vilela, anos de experiência na área, queriam abrir um restaurante no Porto - à imagem deles. Por falta de fundos, decidiram-se entrar de mansinho, com um bar e grandes objectivos: ser "o melhor do Porto". Observaram o movimento do Lobby, perceberam-lhe (percebem-lhe) o potencial e arriscaram. Com um "modesto" propósito: mostrar o que o Porto e Portugal têm de bom, a portugueses e estrangeiros - e isso, adiantamos já, segundo o Lobby, passa pela gastronomia, arte, música e arte de "bem receber".

Logo de início, o Lobby passou a ser seguido de Wine & Tapas no nome, uma declaração de princípios que é quase uma missão. Não será exactamente um wine bar (aliás, tem, por exemplo, uma carta de 43 chás biológicos), mas aqui o vinho é levado a sério - começa na oferta ("da básica Quinta da Aveleda ao Alvarinho Deu La Deu" e uma série de castas distintas para "agradar a gregos e a troianos") e termina no serviço (com aconselhamento do melhor para acompanhar o prato e direito a provar o vinho); e as tapas são um modo de vida. À falta de restaurante, os "petiscos" preenchem essa vocação irreprimível (Hélder fala do Lobby como "o restaurante"), transbordante num menu onde, por exemplo, se encontram desde o caldo verde ao chouriço assado, dos camarões ao alho às amêijoas à Bulhão Pato, pimentos Padrón, polvo, mexilhões - e quem quiser adoçar o palato, deixe-se tentar pelas sobremesas: gelados artesanais (Don Petri), fondant (de chocolate, caramelo, chocolate branco, After Eight ou o Lobby) com gelado à escolha (o de limão e hortelã rivaliza directamente com o de ananás e manjericão - em terceiro, vem o de coco e malagueta) e bolos ou tartes. E, já estamos habituados, quem combina vinho e tapas tem um desejo pouco secreto: conquistar clientes para o final do dia.

O Lobby apresenta-se à luta com argumentos de peso, como uma happy hour, que é na verdade mais de quatro, entre as 16h30 e as 21h, com menus "chamativos" (o "scones", o "snacks", o "fondant" e o "tapas" - sempre com bebida a acompanhar), para contrariar o handicap que é estar localizado em "local especialmente movimentado e com falta de estacionamento". (Abra-se aqui um parênteses para uma palavrinha sobre as sangrias - branca, tinta, espumante, champanhe, morango e cerveja (receita) - e sobre os cocktails - as caipirinhas e mojitos têm aqui várias declinações)

E tratada da mesa, as atenções viraram-se para "o resto". No início do ano começaram a explorar a fundo o outro potencial e, diz Hélder, ainda vão a meio do que querem fazer. A programação começa a consolidar-se - e parece não acabar: à noite, a música ao vivo domina a maior parte da semana, mas há ainda magia e história, noites orientais e salsa, poesia e cinema, por exemplo; todo o dia, exposições de (quase) tudo o que aparecer -, o espaço continua em transmutação para albergar tanta ambição. A sala onde estamos, a principal, manteve a cara anterior, mas pintou-a - literalmente mas também figurativamente. Há fotografias nas paredes, agora, umas são permanentes (da autoria de Hélder) e espalham-se por cima do sofá; outras são uma exposição temporária e aglomeram-se numa parede, em molduras diversas, como se de um puzzle se tratasse: de dois em dois meses vão mudando (de mãos dadas com Miguel Bombarda), mas o tema será sempre o mesmo, o Porto.

Há um palco num canto (e até uma pequena bola de espelhos) e há um canto de leitura (a caminho das casas de banho, portas encarnadas e o "clássico" "Menino da Lágrima" a marcar os géneros - o feminino tem um laçarote vermelho na cabeça): em móvel antigo iluminado por pequeno candeeiro, encontram-se Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis, As Aventuras de Tom Sawyer e Os Cinco na Ilha do Tesouro, a História do Porto e a História de Portugal; a National Geographic e o Courrier International...

Mas as principais revoluções não são aqui, nesta sala comprida. Na cave, cheira a tintas e madeira - o arquitecto Pedro Cunha constrói a galeria de arte, a Lobby Gallery, que terá também um pequeno espaço "de estar", entre as exposições que se querem eclécticas: pintura, fotografia, bijuteria, escultura, design. No terraço, espera-se a bonança climatérica para se intervir e torná-lo um verdadeiro lounge chill-out. Por enquanto, o mobiliário (quatro conjuntos de sofás e mesas baixas, o dobro de mesas altas) está quase empilhado, o buda está encostado e serve de cama aos gatos que por ali circulam (e fogem dos clientes), as colunas estão emudecidas. Mas o muro vai subindo pouco a pouco, para que no Verão já seja um pára-vento mais eficaz tapado por canas de bambu, as plantas e flores já estejam a demarcar o perímetro, o ecrã já esteja pendurado (para transmitir os concertos de dentro) - e porque nem só de bom tempo quer viver esta esplanada, uma cobertura amovível há-de ser colocada e três aquecedores hão-de fazer esquecer os invernos do nosso descontentamento.

Neste fim de dia chuvoso, seguimos sentados dentro, numa das mesas clássicas com twist moderno, velinha em cima. Em frente, um azulejo de espelhos em ondas suaves. No ar, um cheiro a incenso para disfarçar o fumo (que nem há por estas horas). Nas colunas, o jazz tem companhia - Jeff Buckley, Radiohead.... A New York Magazine, que Hélder Paiva mostra com orgulho, incluiu o Lobby na sua visita ao Porto - no Oddball Day, lá está, como um sítio para o pós-jantar, com música ao vivo grande parte das noites. O Lobby sente-se bem assim - nos inícios de noite que vêm logo depois dos finais de dia e a apostar na música ao vivo e a cores. Só quer ser, revela Hélder, "o melhor bar do Porto". O criador de uma nova linguagem (e linhagem), quiçá - com se lê em algum material promocional: "Do you speak Lobby?"

Sete dias, sete noites
Domingo. Ainda vive de projectos, esta noite, à espera da consolidação das outras para se lançar sem medo. A ideia é que seja "calma", a "preparar a semana que começa". Poesia (portuguesa), contadores de histórias, noite oriental e curtas-metragens farão parte da ementa (a acontecer...).
Segunda-feira. "Vamos variando". A primeira do mês é de salsa. A última de covers - com os We3 (U2, Coldpaly - o repertório é vasto, garante Hélder). "Depois, como já temos bastantes coisas, vamos trocando." Por exemplo, vão ter música clássica (Mozart) com alunos da ESMAE e o espectáculo de magia A Caixa do Correio. Jam sessions serão bem-vindas, tributos, reggae natural, nova tendências, músicas perdidas...
Terça-feira. Música contemporânea em português . Rui David canta (e toca) música portuguesa, brasileira e toda a lusofonia que couber.
Quarta-feira. Há silêncio e canta-se fado no Lobby. Esta será a quarta semana da música "nacional", porque gostam e porque os turistas procuram - e muitas vezes não encontram. Aqui, diz Hélder, encontram um local acolhedor e boa acústica.
Quinta-feira. Jazz, blues, bossa nova.
Sexta e sábado. Noites de DJ. Por vezes, concertos, como o dos Governo Sombra, que ocupou o bar na semana em que lá estivemos. "Festas geracionais 70/80, rock and rol nada forte, coisas dançáveis, cantáveis". Álvaro Costa é um dos residentes - um sábado por mês.

(Fevereiro 2011)

Nome
Lobby
Local
Porto, Porto, Rua de Adolfo Casais Monteiro, 71
Telefone
226092075
Horarios
Todos os dias das 16:30 às 02:00
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