Fugas - restaurantes e bares

Fernando Veludo/nFactos

Este bar é uma anémona e tem uma missão

Por Andreia Marques Pereira ,

Não é um organismo vivo, mas quase - até vive por detrás de um jardim vertical bem no centro do Porto onde já espreitam morangos. Chama-se Espaço Anémona e se o nome foi um acaso serve como uma luva a um local de lazer com uma filosofia e convicções fortes. Bar, loja, galeria, lounge: atravessamos fogo, terra, água e ar e descobrirmos uma espécie de espírito missionário - sustentabilidade é a palavra a espalhar

É um jardim vertical (ainda) discreto numa rua (que até é travessa) cada vez mais indiscreta - a Travessa de Cedofeita vive cada vez mais fora de portas: o 77 é uma instituição há anos, mas tem vindo a ser acompanhado de mais bares, casas de petiscos, lojas de roupa "alternativa", sex-shop e alfarrabista irredutível.

Estamos dentro dele como quem está dento de uma anémona - do Espaço Anémona, multidisciplinar e integrador de várias vocações. Entramos ao som de A Naifa no meio de uma prova de vinhos (Gravato), que se derrama pela calçada em frente como se de festa se tratasse. "Abriram hoje?", há-de perguntar um transeunte feito cliente improvisado. Duas semanas antes é a resposta, a 15 de Abril e este é o primeiro fim de tarde vínico do resto da sua vida ("oficial", porque já tinha havido um "ensaio"), por isso até há chouriço e queijo para degustação em mesa improvisada - é uma vitrina (há livros por debaixo: Darwin, e a sua Origem das Espécies, por exemplo) - e o produtor, Luís Reboredo, a contar a quem quiser ouvir a história do vinho. Há gente que julga vir ao engano - "Pensava que era um bar" - e depois é desenganada - "O bar é lá em cima".

 Tentacular este espaço, já se percebe, um pouco como a anémona que lhe dá o nome. Abram-se uns parênteses para falar deste: primeiro houve o nome - "Começámos pelo fim", brinca Nuno Gomes, um dos mentores do projecto, "fazemos muitas coisas ao contrário" (outra, relevante, feita ao contrário: a inauguração oficial do Espaço Anémona só vai ser em Setembro, mas já explicaremos porquê) - e foi um acaso (um amigo que queria editar uma revista literária com esse nome levou à apropriação total - em Setembro, quando a abertura for oficial, a revista será também lançada).

Porém, agora o nome é uma metáfora razoável para o que se pretende aqui - abrir os braços (as anémonas que vemos no aquário, pequeninas, estão fechadas - quando abrem revelam-se em cores diferentes, dizem-nos), estendê-los para além do corpo e entregar-se às possibilidades. Porque se os portugueses "são fechados", como comenta uma espanhola, "agora estão a sair para a rua" - aqui, hoje, já estão na rua. E aqui, hoje, é uma amostra do que se tem passado nos últimos tempos no centro do Porto.

Bem no coração da movida portuense, o Espaço Anémona não se envergonha da sua vocação nocturna, porque embora viva mais de dia sabe que não poderia passar ao lado do ímpeto noctívago que tem varrido convictamente a zona. "A parte de bar é importante", afirma Zeza Guedes (outra das mentoras - são quatro), "mas queríamos encaixar outras situações". Queriam um espaço multicultural e assente num denominador comum claro - o desenvolvimento sustentável: este é o combustível de um projecto que, tal como a anémona, quer funcionar como um organismo vivo, em que todas as partes são importantes para o funcionamento do todo. Um denominador comum e a ponte que aqui se percorre entre a ciência e as artes. "Pode parecer uma ligação estranha, mas o Porto é um microclima, onde estas linguagens já se vêm cruzando", considera Zeza Guedes, que, como Nuno Gomes, tem formação em Biologia (Sofia Pereira e Manaíra Athayde são formadas em Direito e Jornalismo, respectivamente). Aqui, a encruzilhada corporiza-se numa galeria, numa loja, num café-bar e num estúdio-lounge - cada um corresponde a um elemento.

A noite é o elo mais fraco

A entrada é pelo elemento terra - entramos para a loja (esqueça-se a montra que pode confundir - rádio, televisão, projector, câmara de filmar antigas, são heranças do locatário anterior, as garrafas de vinho são a indicação certa) que não é uma loja vulgar. É livraria, mercearia, loja de artesanato e outras coisas mais: tudo se contamina. "É o intróito de tudo", explica Nuno Gomes. É a sala de visitas, montra do projecto entre paredes laranjas e castanhas e o fundo branco com "ramagens".

Gastronomia, arte, literatura, ciência, artesanato, até jogos para crianças - "sempre com o mote da sustentabilidade", sublinha Nuno Gomes, também proprietário da editora Planeta Vivo. Nas estantes alinham-se livros, ao lado uma secção infantil, ao fundo, artesanato numa estante vitrina, duas vitrinas exibem livros e produtos de mercearia - chás, especiarias, compotas, vinhos ("são todos servidos no bar", nota Sofia Pereira). Para descansar, um canapé ao fundo, "o ex-líbris do espaço", dourado e veludo escuro, que como o resto do mobiliário do espaço foi resgatado de antiquários ou casas de amigos - o relógio de pé em frente ao balcão (que veio da Escola de Hotelaria) é de "fabrico português", ressalta Nuno Gomes, os candeeiros, alguns de vidro pintado e outros com pendentes são recuperados. Faz parte dessa filosofia de sustentabilidade que é santo-e-senha aqui - e que, qual proselitistas, os mentores parecem empenhados em espalhar.

Na cave estamos no elemento água - e estamos no meio do azul, escuro nas paredes, quase turquesa no chão. Um aquário pequeno recebe-nos com as anémonas "adormecidas", ao fundo um ecrã, junto às paredes uns poucos sofás baixos, negros e vermelhos. É a sala multimédia, para projecção de vídeo e festas temáticas, que no dia seguinte ia receber o primeiro evento - de música electrónica.

Subimos ao primeiro andar e é o fogo que encontramos - no bar. Nas janelas, que ocupam toda a fachada, sentamo-nos no banco que as acompanha e estamos com a cabeça no jardim vertical - quase mil plantas, todas autóctones, que os quatro mentores apanharam e plantaram: "Quando crescerem, teremos uma imagem. Há desenhos de ondas e um sol ao centro feito de camomila, será branco e, ao entardecer, amarelo" (por enquanto há, por exemplo, morangos, que já espreitam vermelhos). E isso está programado para Setembro - daí a inauguração oficial, também adiada pela falta do elemento ar: não o vemos porque ainda está fechado. Quando abrir, o acesso será pela escada em caracol de ferro forjado que parte do bar para o que será um lounge e um observatório astronómico empoleirado entre os telhados da cidade. Ficamos pelo bar onde os cinzeiros cheiram a menta, as mesas são douradas (feitas pelos próprios a partir de colunas que agora são os pés), as cadeiras desirmanadas (a maioria, madeira e aveludados vermelhos, vieram do Rivoli), os sofás retro e a música embala em sonoridades chill out.

Neste conceito articulado e integrado, a noite é o elo "mais fraco", no sentido em que está menos entrosado. Os chás são biológicos, o vinho de pequenos produtores, as bolachas e os queijos artesanais - esta é a marca distintiva. O resto é uma "adaptação aos gostos gerais", assume Nuno Gomes. "Não podemos escapar-lhes". Mas podem ir "apalpando as necessidades" e, lentamente, formar clientes - um pouco de espírito de missão, portanto. Portas sempre abertas, para que todos cirandem e encontrem um mundo que se quer sustentável.

Nome
Espaço Anémona
Local
Porto, Cedofeita, Travessa de Cedofeira, 62
Telefone
222081004
Horarios
Segunda das 10:00 às 20:00
Terça-feira e Quarta-feira das 10:00 às 00:00
Quinta a Sábado das 10:00 às 02:00
Website
http://www.eanemona.com
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