Fugas - restaurantes e bares

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Cozinha à moda de Braga

Por José Augusto Moreira ,

As genuínas receitas da culinária da cidade dos arcebispos mantêm-se vivas e bem preservadas na restauração local. A prová-lo estão o restaurante O Alexandre e os seus vizinhos concentrados no Campo das Hortas.
Entre os vastos pergaminhos que ostenta a cidade de Braga incluem-se também alguns dos símbolos do património culinário nacional. Do icónico pudim abade de Priscos ao bacalhau à Narcisa, ou os rojões, papas de sarrabulho e arroz de pato à moda de Braga, genuínas receitas locais que se mantêm vivas e em regra bem preservadas na restauração local.

Apesar deste importante contributo para o receituário e história da arte dos fogões, a cidade não tem tido, no entanto, restaurantes que se destaquem particularmente no contexto nacional da alta gastronomia, pese embora a projecção atingida pela casa Narcisa. Talvez porque a boa cozinha sempre tenha sido uma característica generalizada, não sendo, por isso, difícil encontrar o poiso adequado para se manducar a preceito. Seja pelas encostas do Bom Jesus e Sameiro, no centro histórico ou nos mais modernos bairros que rodeiam a velha urbe.

Neste aspecto merece especial referência o Campo das Hortas, uma praça onde há décadas coexistem porta-com-porta uma série de restaurantes de referência. Além dos prazeres estomacais, o sítio é igualmente recomendável pelos elementos históricos e monumentais que o rodeiam. A Sé Catedral e a sua história milenar ali a dois passos, o Museu dos Biscainhos, do outro lado, ou até o mais recente Museu da Imagem estão por ali. Para quem vem do centro (tem que ser a pé), o Campo das Hortas dá-se a conhecer franqueando o Arco da Porta Nova, a monumental porta da cidade aberta no muro da urbe medieval no século XVI e cuja configuração actual data de dois séculos depois.

No miolo da praça, que originariamente se chamava Campo das Carvalheiras, outros dois importantes símbolos do barroco granítico: o cruzeiro e a fonte. Ambos classificados como monumento nacional e edificados no contexto de opulência e monumentalidade com que o poder da igreja quis dotar a cidade entre os séculos XVI e XVII. No topo oposto, a poente, a Casa Grande ou Palácio dos Cunha Reis, uma imponente construção já do final do século XVIII que é um dos muitos símbolos do poder dos deões da Sé espalhados pela cidade.

É na ala sul da praça que vamos encontrar, por esta ordem, os restaurantes Inácio, Bem-me-Quer, Cruz Sobral, O Alexandre e O Bacalhau, ocupando praticamente toda a correnteza de edifícios. Com excepção do último, de implantação mais recente, todos os outros são há muito referências da cidade, praticando o mesmo tipo de cozinha tradicional e opulenta e privilegiando o receituário local.

Com ofertas idênticas, destaca-se O Alexandre, pelo aspecto esmerado dumas instalações mais modernas e amplas e a prometer uma ambiente de maior conforto. Assim é, de facto.

Amplo pé direito, com uma espécie de mezanino a dividir os espaços em duas salas sobrepostas. Paredes de granito, mobiliário contemporâneo, espaço desafogado e as mesas elegantemente compostas com alvas toalhas de algodão. A cozinha e tudo o que lá se passa são dados a ver ao cliente através do amplo janelão que faz a ligação com a sala inferior.

Em recente visita, fizemos um jantar para o tardote, numa altura em que a oferta estava já amputada das chamadas sugestões do dia, compostas, ao que nos pareceu, por um bacalhau, vitela e cabrito assados no forno. Além de um queijinho fresco que foi colocado na mesa, convocaram-se também uns rissóis, de peixe, croquetes de vitela e bolinhos de bacalhau, todos em tamanho reduzido e de confecção escorreita.

Para entrada, a alheira panada (5€), que era exactamente isso: envolta em pão ralado que lhe absorveu todas as gorduras e frita por inteiro, singelamente depositada no prato sem qualquer vegetal, legume ou outro que lhe pudesse animar a existência.

Nos peixes, provou-se a pescada à moda da casa (15,50€). Dois troços generosos da parte central levemente gratinados no forno. Fresca, suculenta e saborosa, como mandam as boas regras da cozinha. Foram servidos com uma cobertura de rodelas de cebola e salsa picada salteadas em azeite, na companhia de gulosas batatas fritas às rodelas. Quanto a pescados, a oferta propunha ainda cabeça de pescada para cozer, robalo grelhado e os habituais bacalhaus.

Seguiram-se os rojões (9€ a dose), de boa confecção e textura mas aos quais faltaram o sangue e a orelha de porco para cumprir integralmente a receita bracarense. No mais, carne da perna do reco, tripas e os farinhatos fritos, na companhia de batatinhas alouradas em banha, tudo como manda a boa regra. No que respeita às propostas cárnicas, a carta limitava-se aos habituais bifes, em três ou quatro variações.

O pudim abade de Priscos e uma rabanada compuseram as sobremesas gulosas, ambas honrando e respeitando a tradição e a deixar o sabor doce da satisfação no final da refeição.

Em tempos em que o ambiente de crise parece sobrepor-se a tudo o mais, a carta deste O Alexandre parece não querer destoar. Nota-se alguma contenção resultante da preocupação em arriscar pouco em confecções perecíveis. A contenção no investimento é particularmente notória na carta de vinhos. A par de alguns rótulos do Alentejo e Dão mais populares e de preços sensatos, a oferta esquece a generalidade dos vinhos mais modernos e recentes, particularmente os do Douro. Há, no entanto, uma série de vinhos conceituados já com alguma idade que podem, na generalidade dos casos, revelar-se excelentes opções para acompanhar com pratos de cozinha mais elaborada. Desde os rótulos de cortiça da Adega de Borba aos Barca Velha e prestigiados Dão década passada, há de tudo um pouco.

Apesar do evidente esforço em acompanhar os actuais tempos de contenção, O Alexandre continua como um dos guardiões das boas receitas da cozinha à moda de Braga. Uma palavra de apreço também para o serviço, que é rápido, correcto e diligente.

Nome
O Alexandre
Local
Braga, Maximinos, Campo das Hortas, 10
Telefone
253614003
Horarios
Domingo, Segunda-feira, Terça-feira, Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado das 12:00 às 15:00 e das 19:00 às 22:00
Preço
20€
Cozinha
Trad. Portuguesa
Espaço para fumadores
Não
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