Fugas - restaurantes e bares

Rui Soares

Boa cozinha e apurado sentido gastronómico em Ponta Delgada

Por José Augusto Moreira ,

A taberna já era. Restaurante confortável e bem-posto, onde é valorizada a boa cozinha açoriana e os melhores produtos regionais. Carta de vinhos valente e um serviço sagaz e com ritmo.

A sala é pequena e não há espaço nem tempo para contemplações, mas o ideal seria mesmo o cliente sentar-se, apreciar o vídeo e só depois passar às escolhas. As imagens gravadas da preparação dos pratos mais emblemáticos da casa repetem-se em contínuo no ecrã colocado numa das paredes, e tanto basta para se perceber o critério na escolha e manipulação dos produtos, o gosto e cuidado com que se trabalha na cozinha. A par disso, há mais quatro ecrãs, sintonizados nas estações de TV, que bem se dispensavam.

Na Taberna Saca-Rolhas, em Ponta Delgada, São Miguel, vão longe os tempos das pipas, copos e petiscos simples, e há hoje um restaurante bem-posto, aconchegado e com apurado sentido gastronómico. Das entradas às sobremesas, é valorizada a boa cozinha e os produtos regionais, carta de vinhos valente e um serviço sagaz, que ajuda a entender a oferta e a valorizar as opções. Despachado, com sentido de ritmo e, aqui e ali, até impositivo, mas essa é a herança taberneira que faz a essência do local. 

Fernando Soares é o mestre cerimónias e orienta as escolhas segundo aquilo que há de mais específico em cada dia. A par do pão com alho e manteiga (3,50€), cracas (26€) e caldo de peixe (3,50€) para início de hostilidades. Passou-se depois à mastigação com umas petingas com molho vilão (7,50€), seguidas por belo goraz na grelha (51,75€) e precioso naco de atum (18,75€). Para acompanhar, o Frei Gigante (21,50€), um branco da ilha do Pico à base das castas locais de Arinto e Verdelho cuja qualidade e procura o está a atirar para preços bem “picadinhos”. Para sobremesa, ananás do Açores (4€), naturalmente!

Mesmo conservadas em frio — que nem sempre o tempo permite a apanha —, as cracas são o marisco-maravilha das ilhas açorianas: O mar à mesa, com toda frescura, fragrância e saborosa salinidade, em dose substancial e com exemplares que chegavam a ter quatro e mais bicos. Saboroso, equilibrado e com variedade e peixe, o caldo (com arroz) servido na tigela da tradição regional.

As petingas, além de frescas, sequinhas e crocantes, ficaram bem mais macias e apetitosas com a envolvência do molho vilão, com pimento e cebola sumarentos, que limpava o efeito de fritura. Exemplar o tratamento na grelha do goraz. Mesmo aberto e espalmado (escalado), mantinha a frescura, suculência e delicadeza translúcida das carnes do mar. É preciso técnica e saber para, desta forma, evitar que os peixes sequem na grelha. Muito bem mesmo! 

A mesma mestria culinária com o arroz caldoso de tomate e pimento que acompanhava. Cebola do refogado em picadinho grosseiro, coentro, um aroma guloso e o suco único do vegetais das hortas dos Açores a dar um caldo saboroso onde bebia o arroz de grão firme. De grande nível! 

Não havia ventresca — os filetes gordos da barriga de patudo são do outro mundo —, mas o naco de atum é um dos pratos emblemáticos da casa. Foi convocado depois de apreciado no tal vídeo o carinho e perícia com que é trabalhado na frigideira: “À regional”. O que quer dizer que, tal como o bife de boi, por estas terras não se prescinde de lhe acrescentar um pouco de sabor. Mesmo quando as carnes são únicas e divinais, como as do gado açoriano e do atum patudo. 

O naco é apenas marcado com uma gordura (banha?) ganhando uma leve crosta tostada, sobre a qual é “montado” molho com picadinho de cebola, pimentos, alho e salsa. Fresco e saboroso (apesar da gordura), mas a essência está mesmo no interior da crosta tostada com a carne rosada, macia e deliciosamente gordurosa do lombo do patudo. Tanto pode acompanhar com batata cozida como com chips de batata-doce. 

A par das lapas, cracas, cavacos e outros mariscos, pescados como garoupa, cherne, boca-negra, lírio e outros do mar dos Açores fazem parte da oferta diária. Tanto em copiosas tachadas, como na grelha ou no forno. 

Afamados são o polvo e o lombo de bacalhau à lagareiro, a par da “bacoeira”, um prato de forno que junta bacalhau, polvo e alhos da ilha Graciosa, que é o cartão-de-visita do restaurante. O cozido, o galo de capão (ambos por encomenda) e o cabrito assado em forno de pedra são outros exemplos do apego à boa cozinha regional que tem feito a fama da casa. 

Mesmo em espaço modesto e exíguo, este Saca-Rolhas consegue acolher confortavelmente aí uma meia-centena de comensais. Decoração cuidada mas mantendo o imaginário de antiga taberna e cozinha à vista separada apenas por balcão forrado a caixas de madeira de reconhecidos vinhos. Toalhas em algodão, aos quadradinhos de cores quentes, baixela adequada e paredes preenchidas com fotos antigas, da vida local e de clientes de outros tempos. 

Numa das paredes, fornida garrafeira, com destaque para os vinhos do Douro e Alentejo, a que se junta um armário de temperatura. Apesar de localizado numa ruela sobranceira ao mar, não há vistas sobre o oceano e a iluminação é artificial.

Para chegar ao restaurante, a partir de Ponta Delgada, basta tomar a direcção do aeroporto local e aí rumar em direcção a Relva e Mosteiros. O Saca-Rolhas situa-se no morro que enquadra a infra-estrutura aeroportuária e há placas na estrada que orientam os automobilistas.

Nome
Saca-Rolhas
Local
Ponta Delgada, Relva, Rua da Corujeira, 3
Telefone
296 716 747
Horarios
Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado
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