Fugas - restaurantes e bares

Fábio Teixeira

Olhai os gatos do rio

Por Luís J. Santos

E sob a bênção do Museu de Arte Antiga e do seu jardim, com todo o corpo virado ao Tejo ali a um salto, (re)nasceu uma esplanada-maravilha, um portal para todas as reflexões. Le Chat qui Pêche, bar protegido, esplanada permanente e transparente, alva e reflectora, promete trabalhar para a qualidade global, incluindo da boa vida. Luís J. Santos (texto) e Fábio Teixeira (fotos) foram lá miar ao sol, ficaram pelo entardecer, foi anoitecendo. Miau.

Não serão muitos os que se lembrarão da primeira vida deste ‘gato’: foi em 2007, numa outra estrutura temporária exactamente no mesmo local, quase encostado à entrada principal do Museu de Arte Antiga - “uma experiência que durou seis meses”, lembra a proprietária e gerente Catarina Fonseca. “Serviu para aprender”, remata, e “para criar agora este projecto a longo prazo, mais pensado”.

Já se sabe que é da experiência que nasce a conclusão e, diga-se, cá temos uma bela conclusão: fazendo jus ao felino que lhe serve de mote, o Le Chat conquistou o direito a uma segunda vida e apresentase imaculadamente transparente e reflectivo (em duas camadas: tanto reflecte literalmente como é sítio ideal para bons momentos de reflexão) e, no resto, de uma imensa alvura.

O Le Chat qui Pêche (traduzindo: o gato que pesca) ainda cheira a novo. Abriu há semana e meia (para uma festa de lançamento da Lifecooler, de Bruno Aleixo e Movijovem - salte para as páginas do Zoom) mas, na prática, só desde a última terça-feira é que entrou em funcionamento completo para o público.

Não é nada de mais e explica-se em duas penadas: uma caixa-aquário de vidro de olhos em rio e costas para jardim, esplanada altaneira virada ao Tejo e quase a pisar telhados, interiores espelhados que reflectem rio, ponte, árvores, museu, Lisboa.; dentro do aquário, tudo em branco, incluindo um balcão de bar bem artilhado; em terraço, mesas e cadeiras (as tradicionais cadeiras Gonçalo) branquinhas. Não é nada de mais e já se vê que é quase tudo. E, já se sabe, nada fica melhor ao luxo que o condão da simplicidade.

Catarina Fonseca explica que a condição essencial para a estrutura, situada no topo de um armazém, era precisamente “um espaço que não se impusesse” porque “o espaço é a sua vista”. Felizmente.

Porque, olhe-se de onde se olhar, a construção, embora, claro está, não invisível, tem a naturalidade possível. Além-vidro e alémtransparência e ao ar livre, o rio e suas margens dá-nos mais um superlativo lugar comum, aquele lugarzinho comum que faz as delícias de moradores e visitantes, o efeito postal ilustrado no seu melhor, a luz de Lisboa, a ponte a sustentar o entardecer, velas a navegarem, pequenos e imensos barcos. e, vá lá, o comboio ali mesmo em baixo a cruzar e até, em postal mais industrial, grandes contentores ali mesmo à espera de futuro.

É coisa da modernidade mas, enquanto o tempo não muda o resto do espaço, até permite o vislumbre de uma Lisboa Antiga: passeai pela esplanada e ali mesmo na falda do ex-líbris da Arte Antiga vislumbrareis casario envelhecido, até uma barraquinha pirata. E ganhando nós agora este novo portal-maravilha, que mais se pode esperar do “lechatquipeche” (dito rápido, tem logo outra graça)? É que postais ilustrados não nos faltam. “Qualidade”, promete Catarina. Eis a palavra-chave nas bebidas (entra Nuno Ferreira, barman experiente e académico dos cocktails), nas comidas (entra António Ferrador, jovem cozinheiro profissional) e no serviço (entram todos, que o serviço quer-se “dinâmico e atencioso” até para contradizer alguma má fama de muita esplanada destas terras).

 

Referências

Le chat qui bebe
A carta de bebidas, promete Nuno Ferreira, pode ter muita e variada coisa, mas “o centro são os cocktails”. Ou não fosse o professor Nuno, ligado à Cocktail Academy, um mestre que se dedica também a dar formação na área, após experiências por outras geografias, de Istambul a Marbella, trabalhando também em parcerias com a Tivoli ou com o Instituto do Vinho do Porto. Além de uma “garrafeira escolhida a preceito” ou de especialidades etílicas, haverá cocktails para gregos e troianos, adaptados para o factor zen natural ao bar. A carta é sazonal e baseada em “marcas de topo” e produtos frescos (incluindo nos vegetais e ervas, que Nuno quer desenvolver uma aposta em matérias de mercado pouco habituais), garantindo “sabor e criatividade”.

Como os olhos também bebem, soletre lá os destaques: Mojito com gengibre, Martini de maçã verde ou com manjericão ou com tomate cherry, Bloody Mary com mozzarella di bufala. ou Daiquiris vegetais e outras artes da mixologia salpicadas de coentros ou alecrins. Mas a carta promete mais: Nuno aposta numa selecção de licores portugueses, não tão habituais assim, do mais conhecido Beirão aos menos provados licores de poejos ou eucalipto (tal e qual). Noutras vertentes, podem encontrar-se especialidades como o ainda raro whisky japonês Suntory Yamazaki (a €15, o que já diz muito: é que espantou muito boa gente ao ser considerado dos melhores do planeta, tendo a Suntory surpreendido mais meio mundo ao receber um “Óscar” mundial dos whiskies para melhor destilaria 2010). E se não for pelo whisky, que tal agasalhar-se neste Outono/ Inverno com um vinho quente acabadinho de fazer?

 

Le chat qui come

Já bem bebidos, o melhor é petiscar qualquer coisinha, que só o ondular do rio já faz fome. Com base “numa cozinha tradicional portuguesa integrada com ideias do Japão, de Espanha” e de outras latitudes, António Ferrador propõe uma carta original feita de raiz para o Le Chat com foco no “picar”. Mas atenção ao “picar”, que pode ir de uma tosta de lombo de porco fumado (calma vegetarianos: também há de courgette, compota e cebola) a tempura de camarão (Ferrador garante uma marinada de uma semana ao bicho), croquetes de sapateira, miniburguers, pastelinhos de massa tenra (detalhe: de pato), ovos mexidos (mais à espanhola, chamemoslhe revoltos e incluem presunto, farinheira de porco preto.) ou mesmo (prepare a língua) “alheira de caça salteada com maçã raineta bêbada em moscatel com redução do mesmo”. Ferrador, que se fez na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e passou por diversas cozinhas nacionais e internacionais, não faz por menos: é tudo cozinhado in loco - quem olha de repente, pode até desconfiar, mas o sítio inclui cozinha totalmente equipada (“pequena mas funcional”). De futuro, não é de admirar que surjam propostas de harmonizações (seja a harmonia com vinhos ou os reis cocktails).

 

Aqui há chat

Para gente mais francófona, não haverá grande mistério no baptismo do sítio. Este “gato que pesca” tem origem no nome de uma célebre rua em Paris (e, por sinal, inspirador de artes e de nomes para locais em geografias várias) - não só o nome tem logo o seu travo poético, como a ruazinha da capital francesa, ao Sena, é célebre pela sua estreiteza pitoresca. Aqui, funciona à distância e em proximidade, até porque o rio está logo ali - além disso, a imagem do bar é marcada por dois gatinhos matreiros que, no caso, focam a sua pescaria num aquário. E é entre peixes e gatos que nos sentimos neste novel aquário de baptismo francês (que, embora estrangeirado, sempre é uma variação turística ao ubíquo inglês). E, coincidência felina, à distância de dois miaus, na rua das Janelas Verdes, até se pode ler a placa de um antigo restaurante brasileiro: O Gato que Ri.

Le Chat qui Pêche
Jardim 9 de Abril (ao lado do Museu de Arte Antiga)
T: 917797155
www.lechat-lisboa.com
Preços: cerveja a €2, vinho a copo a €3, destilados desde €5, cocktails de €6 a €10
Horários: Abre às 12h00 | Domingo a 4.ª até às 00h00 | 5.ª a sábado até às 03h00 | Encerra à 2.ª

[FUGAS nº 547 - 30 Outubro 2010]

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