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Tertúlia Público/Eleven: Nós comemos os pássaros

Por Alexandra Prado Coelho

Nem angústia para o jantar nem cadáver para sobremesa - a tertúlia PÚBLICO no restaurante Eleven sobre Hitchcock e a comida começou com uma sopa sangrenta e acabou com uma sobremesa que homenageava Grace Kelly. Falou-se de sexo e de autofagia. Será indelicado discutir a morte à mesa?

O crime acontecera. Disso não tínhamos dúvidas. A prova estava ali à nossa frente: na sopa vermelho-sangue jaziam dois camarões abertos ao meio. Ainda o filme - perdão, o jantar - estava a começar e já tinha havido um assassínio e nós já tínhamos fortes suspeitas sobre quem era o culpado.

"No cinema de Hitchcock não se trata de saber quem matou. O espectador sabe até demais, e é precisamente aquilo que sabe que lhe causa angústia", explica Vasco Câmara, crítico de cinema do PÚBLICO, editor do suplemento de cultura Ípsilon, e orador convidado da terceira tertúlia PÚBLICO/ Eleven, em que um tema de cultura inspira uma refeição - desta vez foi Hitchcock e a angústia para o jantar.

E pronto, ali estamos nós, sabendo já demais, perante o gaspacho criado pelo chefe Joachim Koerper (acompanhado por um Avidagos Branco 2010, Douro) - uma sopa que nos fez mergulhar de cabeça no universo do crime.

"Quanto mais o crime fizesse parte da economia doméstica [nos filmes de Hitchcock] mais angustiante se tornava", diz o crítico. E o que há de mais doméstico que uma sopa? Para o realizador de "Psycho", a morte era algo que se servia à mesa.

"Em casa dos pais de Hitchcock discutia-se à mesa os crimes de Jack, o Estripador, e isso está em todo o cinema dele". Era também em torno da mesa que, mais tarde, Hitchcock recebia os argumentistas com ideias para filmes, pedindo-lhes que as fossem apresentando oralmente.

Quando se pensa no cinema de Hitchcock a comida não é a primeira coisa que nos ocorre. Mas quando Vasco Câmara foi desafiado a pensar num realizador que tivesse uma relação particular com a comida, foi precisamente em Hitchcock que pensou - "Hitchcock e os ovos", disse. E, à mesa do Eleven, uma das imagens que nos apresentou foi a de uma mão que apaga um cigarro numa gema de ovo (a cena é do filme "O Ladrão de Casaca", de 1955, o mesmo em que Cary Grant serve uma quiche loraine na sua villa, um prato de massa delicada feito por uma cozinheira "de mãos sensíveis", que em tempos estrangularam um general alemão "sem qualquer ruído").

Mas mesmo que façamos um esforço e nos lembremos de algumas cenas de filmes de Hitchcock que envolvam comida, a relação entre o realizador e a alimentação está longe de ser evidente. Mas está lá, garante Vasco Câmara. Em "Janela Indiscreta" (1954), por exemplo.

"A personagem de James Stewart está imobilizada. É um voyeur, e Hitchcock reconhece-se nisso. Há mesmo quem veja na perna partida [da personagem] um sinal da impotência sexual de Hitchcock".

Sentado à janela, aborrecido, sem nada para fazer, James Stewart prepara-se para umas longas semanas de recuperação mergulhado num profundo tédio. "Começa a ser alimentado, primeiro pela empregada, depois por Grace Kelly [Lisa, a namorada], e isso começa a acordar nele o desejo de ver o que está a acontecer. É como se a própria comida alimentasse o desejo de que algo macabro aconteça." Mais evidente - e mais macabro - é o papel desempenhado pela comida em "A Corda" (1948), o filme que começa com a imagem de um homem a ser estrangulado, e no qual dois amigos que sonham cometer o crime perfeito acabam por servir o jantar em cima da arca na qual esconderam o corpo da vítima. A comida e a morte estão muito mais próximas. "As coisas aqui aproximam-se da antropofagia".

E aproximam-se um pouco mais em "Frenzy" (a penúltima longametragem de Hitchcock, filmada em 1972). Para esta história de um serial killer que viola e mata várias mulheres em Londres, o realizador volta a um cenário da sua infância - Convent Garden, o mercado londrino onde a sua família vendia fruta e legumes. "Aqui a proximidade entre a comida e a morte conhece um momento de fusão, em que os cadáveres se misturam com as batatas". É no surreal trailer de "Frenzy" que subitamente a perna de uma morta sai do saco de batatas que Hitchcock segura na mão.


Sexo, comida e morte

E chegamos a um dos seus filmes mais icónicos, Os Pássaros. Aí, na leitura de Vasco Câmara, a cadeira alimentar inverte-se. "Os humanos passam a ser o alimento dos pássaros". E, no fundo, é também isso que Hitchcock filma nas cenas obsessivas de pratos com comida de "Frenzy". "Quer obrigar-nos a revermo-nos, como se fosse aquele o nosso destino", afirma o crítico.

O jantar do Eleven parecia querer mostrar-nos isso mesmo, com a sopa de gaspacho a gritar crime por todos os lados, mas o prato seguinte veio reconciliar-nos com o nosso destino - "The Birds com tagliatelle Alfredo" criado por Joachim Koerper e acompanhado por um Quinta de Avidagos Tinto Reserva 2007, Douro, assegurou-nos que nesta fase da civilização ainda somos nós que comemos os pássaros. E a sobremesa - "Fruta de Verão Grace Kelly" - veio definitivamente apaziguar um jantar que correra sérios riscos de ser marcado pela angústia existencial.

Afinal, as angústias ficaram todas para Hitchcock. "A figura dele era algo que o obcecava mas sobre o qual conseguia trabalhar". Era obeso, isso todos sabemos. Seria talvez um problema glandular, admitem os seus biógrafos. A verdade é que para ele a questão não era pacífica. "O físico angustiava-o muito. Sobretudo quando foi à América e percebeu que a imprensa só falava do peso dele e do que comia", conta Vasco Câmara. "Diz-se, por exemplo, que durante a rodagem de "Mentira" vislumbrou o seu reflexo num vidro, ficou obcecado e iniciou uma dieta muito violenta".

Apesar disso, conseguiu transformar a sua figura num ícone e jogar com a barriga saliente e o rosto oval, num perfil que hoje reconhecemos em três traços, e que se tornou uma imagem de marca.

E, no entanto, Hitchcock era um homem com medo. "Queria afastar-se de tudo o que pudesse provocar ansiedade e o humor era uma forma de lidar com a angústia." Se tudo isto tinha a ver com a sua vida sexual (ou eventual ausência dela) já é especulação, mas foi por aqui que a certa altura seguimos neste jantar, com a renovada confiança que tínhamos conquistado depois de comer os pássaros evitando que eles nos comessem a nós. "Os filmes de Hitchcock estão cheios de sexo, o beijo mais longo da história do cinema, o fogo-de-artifício.", sublinha Vasco Câmara.

"Mas ele próprio exorcizava o assunto, brincando e dizendo que só tinha tido sexo uma vez, quando concebeu a filha". O sexo, a comida a morte - e nós como "um bando de Peeping Toms" (foi isto que Hitchcock nos chamou, incluindo-se a ele próprio nessa cultura de voyeurismo).

"Quando olho para os planos da comida, tenho a sensação de que ele nos quis dizer algo sobre nós próprios, sobre a nossa inclinação para a autofagia", diz o crítico do PÚBLICO. Sobre, no fundo, a sociedade do espectáculo e a nossa infinita capacidade de nos devorarmos uns aos outros.

Em Hitchcock, a comida, filmada de forma agressiva, "é uma maneira de falar do nosso futuro, do caminho para a podridão, para ser lixo, para ser resto". O gordo que brincava com a sua angústia (tinha, confessou mais tarde, um medo enorme da autoridade) queria dizer-nos que, num mundo que tudo devora, "também nós íamos ser devorados".

Mas nessa noite, no Eleven, a angústia não veio para o jantar. E, por enquanto, fomos (ainda) nós que comemos os pássaros.

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