"A maior parte dos habitantes da Sierra de Gata são pequenos proprietários rurais que trabalham a terra de forma artesanal, cultivam vinho e oliveiras. É uma região muito forte em azeitonas de mesa, nomeadamente da manzanilla Carcerena", conta Gregorio Naharro, empresário e guia turístico. Goyo (como é conhecido) esteve envolvido num projecto que visava juntar Portugal e Espanha na promoção do turismo ornitológico, em 2003, mas que nunca chegou a arrancar.
A manhã vai longa, muito ao jeito espanhol. São três da tarde e paramos para almoçar no restaurante da urbanização Parraluz Golf. O cenário é desolador. Há dezenas de casas à venda e uma promessa de qualidade de vida que não se concretizou quando a crise financeira mundial deixou em cacos o mercado imobiliário em Espanha. Nada que afecte a refeição. Desfilam entradas onde os protagonistas são os enchidos, segue-se a truta e o cabrito assado no forno a lenha. Em termos gastronómicos, a região da Extremadura ostenta doze denominações de origem.
Foi a custo que nos levantámos da mesa. O relógio já batia nas cinco da tarde quando seguimos para o lago da Reserva Borbollón. Objectivo: observar bandos de grous. Não foi preciso esperar muito para os avistar. Calcula-se que haja cerca de quatro mil aves desta espécie na Extremadura. São pássaros grandes, do tamanho de uma cegonha branca, com plumagem cinzenta e um tufo de penas na cauda. O pescoço é preto, a cabeça preta e branca com uma pequena mancha vermelha. Fazem um som muito característico e quase fazem lembrar gigantescas galinhas desajeitadas. Surgem sobretudo no Outono e no Inverno, em lagos e arrozais. Lemos no guia de aves que não se reproduzem nesta região espanhola desde a primeira metade do século passado. Comem bolotas, arroz, milho e invertebrados. "Entre Setembro e Dezembro vêem-se aos milhares", conta Godfried.
Regressamos a Plasencia, com paragens no caminho para observar as cegonhas brancas.
No salto do cigano
O dia amanhece cinzento mas o ouvido começa a estar treinado para escutar novos sons. Um dia a colar os olhos aos binócolos e já nos sentimos quase integrados no grupo dos birdwatchers mais fervorosos.
Depois de um pequeno-almoço onde não faltou a tortilla de batata e o chouriço assado (para os mais destemidos), seguimos em direcção ao Parque Natural de Monfragüe, o destino mais emblemático da região para a observação de aves e o 14.º Parque Nacional de Espanha. Tem quase 18 mil hectares e estende-se ao longo do rio Tejo e parte do rio Tietar. O nome Monfragüe vem do latim Mons Fragorum, que significa monte fragoso.
A visita ao parque pode começar no Centro de Visitantes de Villarreal de San Carlos, uma pequena aldeia onde é possível ter toda a informação sobre o espaço protegido, que possui uma das áreas de floresta e mata mediterrânea mais bem conservadas do sudoeste da Península Ibérica. É aqui que podemos avistar a águia imperial ibérica, em perigo de extinção, que tem onze casais reprodutores. Trata-se da ave de rapina mais ameaçada da Europa e uma das mais sensíveis à perturbação provocada pelo homem, lê-se no site português avesdeportugal.info.