Fugas - Viagens

Daniel Rocha

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Extremadura - Olhem, é uma cegonha negra!

Neste roteiro também é possível observar grifos, a água perdigueira e o chapim do mato, todos residentes, o que significa que estão no território durante todo o ano. Para além disso, há invernantes (passam os meses de Inverno na Extremadura) como o grou, e os estivais (cegonha negra ou abutre do Egipto, só para citar alguns).

Regressamos ao autocarro debaixo de chuva, mas o clima dá tréguas na próxima paragem. Em Arroyo de Las Pilas, reserva ecológica, entramos no território dos abutres-pretos. Há cerca de meia centena de casais reprodutores nesta região, mas juntando com as populações existentes em Hurdes e Granadilla (mais a Norte) chegam aos 100 pares.

"A Extremadura tem a maior colónia de abutres da Europa. E este é o maior pássaro da Eurásia [continentes europeu e asiático] com três metros de comprimento quando abre as asas. A população está a aumentar, apesar da falta de comida", explica Godfried Schreur. Circulam histórias de abutrespretos com fome que atacaram cordeiros doentes ou recémnascidos. "São animais tímidos e isso mostra quão desesperados estavam", continua. Em Portugal esta espécie não é avistada com regularidade. Os grandes abutres que voam ao longo da fronteira na Beira e no Alentejo são, geralmente, oriundos de Espanha.

A caminhada não dura mais do que meia hora e com os olhos sempre postos no céu avistamos os primeiros abutres, enormes e imponentes, a cruzar as nuvens. Os binóculos ajudam a ver melhor. Plumagem negra, bico forte, capaz de despedaçar as peles mais rijas. Espécies como o grifo, corvos ou os estorninhos têm de esperar que o abutre-preto termine a refeição para poderem também começar a comer.

Godfried coloca o telescópio apontado para um enorme ninho, construído por este gigantesco pássaro em cima de uma árvore. A distância é muita e é preciso fazer um esforço e apurar a visão para perceber os detalhes.

Azeite e vinho em Robledillo de Gata

Com o tempo pouco favorável, seguimos para Robledillo de Gata, aldeia com cerca de 100 habitantes declarada conjunto históricoartístico onde, no Verão, se podem aproveitar as piscinas naturais. À entrada, uma placa descreve outros pontos de interesse, como o hospital-enfermaria franciscano, construído no século XV.

Foi nesta aldeia que nasceram as primeiras casas de turismo rural na Sierra de Gata e encontrar alojamento é fácil. Em cada esquina há uma casa rural, mas ao início da tarde não se avistam habitantes.

O rio Árrago corre veloz junto a um antigo moinho de azeite, hoje transformado no Museu Molino del Medio. É tão antigo como a própria aldeia e pensa-se que tenha sido edificado entre os séculos XI e XII. A entrada custa 1,50€ e ainda se pode observar intacta a maquinaria montada em 1943. Se a porta estiver fechada basta tocar à campainha e alguém há-de abrir. "Para além de poder ver a prensa hidráulica que mói as azeitonas para produzir azeite, também fazemos provas", conta Júlio, que pertence à associação Oleanum, de defesa do azeite, e recebe os visitantes no museu.

Quase todas as casas particulares têm adegas no rés-do-chão e Pacheco não hesita em convidarnos a entrar. A "Bodega de Pacheco" tem 300 ou 400 anos. Já pertencia ao bisavô de Pacheco, que ganha a vida no campo no cultivo de oliveiras e vinha. Oferece um copo de vinho branco enquanto explica que o espaço é reservado a amigos, não está aberto a turistas. Um cartaz avisa: "Donativos para a conservação da adega". Parece um museu particular, com uma mesa corrida de madeira, toalha de chita, chão de terra e alfaias agrícolas que enchem as paredes.

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