Fugas - Viagens

Daniel Rocha

Continuação: página 4 de 5

Extremadura - Olhem, é uma cegonha negra!

A primeira paragem é no Salto del Gitano (Salto do Cigano), ponto de observação obrigatório, com as suas imponentes rochas. É uma montra ao vivo de grifos (calculase que haja aqui 80 pares), alcões peregrinos, cujo voo picado é um dos mais impressionantes, águia real ou abutre do Egipto. As rochas e a água fazem do Salto do Cigano um habitat seguro para plantas e animais e o seu nível de conservação é muito alto.

Martin Kelsey vai escutando a paisagem com o olhar treinado de quem, desde criança, segue os passos do pai na observação de aves. O guia britânico, e dono de uma casa rural em Pago de San Clemente, a onze quilómetros de Trujillo, coloca o telescópio num local estratégico e deixa-nos espreitar pela poderosa lente. Do outro lado do rio, no meio dos grifos, um veado espeta as orelhas, parecendo saber que está a ser observado.

Mais meia hora de reconhecimento da zona e juntámos à nossa tímida lista de pássaros, o corvo, a andorinha das rochas (também conhecida como andorinha de Inverno) e o magnífico merlo-azul.

O espectáculo mais memorável estava, contudo, guardado para o fim. Em Portilla del Tieter, outro ponto de observação, voltamos a ver os grifos a alimentarem-se e ao longe uma águia imperial. O momento é vivido com entusiasmo. Não é todos os dias que se vê esta espécie, única na Península Ibérica. Mas a verdadeira estrela chama-se Chony e é uma cegonha negra fêmea, que descansa no ninho no meio das rochas, com o seu par. Martin, uma vez mais, coloca o telescópio à disposição, e conseguimos ver estes tímidos animais de penas pretas e longas patas cor-de-rosa choque, bico enorme. À medida que mexe o pescoço, a penugem inunda-se de reflexos de cor verde e azul.

Alimenta-se de peixe ou caranguejos e surge na região da Extremadura para nidificar todos os finais de Março, voltando a África no final do Verão. Com sorte, é possível ver os ovos e as crias. São oportunidades únicas, já que este é um dos pássaros mais difíceis de observar no habitat natural.

Chony foi identificada quando tinha apenas um ano em 1999. A população de cerca de 20 pares tem-se mantido estável, mas continua em número reduzido, explica Martin.

Os miradouros espalhados pelo Parque Natural de Monfragüe têm boas infra-estruturas e, nesta altura do ano, é possível estar tranquilo a olhar para o céu e observar o voo dos grous. Há pouco movimento na estrada que acompanha a reserva e a paisagem é inspiradora.

No final da viagem, devolvemos os binóculos aos guias, mas ficamos a pensar que não é má ideia adquirir um par. Com os olhos postos no céu, o mundo fica maior.

Como ir

A viagem de Lisboa a Plasencia demora quatro horas e meia e o ideal é rumar ao sul, pela A2, depois entrar na A6 em direcção a Badajoz. Aí, seguir pela Ex-100 em direcção a Cáceres e sair na saída de Plasencia. A auto-estrada espanhola tem boas indicações. Do Porto, pode seguir na A1 em direcção à A25 e seguir para o IP5 em direcção a Espanha. Já instalado na Extremadura, de Monfragüe até Plasencia são cerca de 30 quilómetros pela estrada C-524. Entre Plasencia e Cáceres distam 80 quilómetros.

--%>