Fugas - Viagens

António Carrapato

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Quem quer dar um passeio na floresta?

"A região de turismo devia aproveitar para se promover", aponta Fernando Costa. "A modalidade traz riqueza à região numa altura de época baixa", concorda Joaquim Margarido. "O turismo, as câmaras, têm de perceber o potencial de angariar visitantes, mas não se aposta no que não se conhece", completa o dinamizador da comunidade orientista.

Objectivo: massificar

O desconhecimento tem sido o grande adversário de uma maior popularização da orientação. "Precisamos de uma Vanessa Fernandes da orientação", atira Joaquim Margarido. Um ou uma atleta que, pelos resultados, atraia atenção e traga mais gente para a modalidade, tal como a triatleta olímpica portuguesa conseguiu para uma modalidade até aí praticamente desconhecida como o triatlo. No caso da orientação, ainda que não seja para competir, apenas para passear na floresta.

Quase nos sentimos mal quando Tiago Aires nos responde à pergunta se não seria preferível manter a orientação como um segredo bem guardado, evitando que a massificação desvirtue a sua essência. Muito pelo contrário, "o objectivo é massificar, atrair mais gente para a modalidade", diz-nos o orientista várias vezes campeão nacional, para além de ter sido o primeiro atleta português apurado para as finais A em campeonatos do mundo.

Responsável pelo Gafanhori Clube de Orientação da Gafanhoeira (Arraiolos), este verdadeiro homem dos sete ofícios (atleta, treinador, cartógrafo...) já pôs cerca de uma centena de jovens a praticar orientação. Ele próprio começou há 13 anos, seduzido por uma modalidade que alia o lado físico à capacidade intelectual. Para se praticar orientação é necessária não só uma boa preparação física mas também uma boa capacidade cognitiva, para conseguir ler um mapa em corrida. Poder de observação é essencial, para registar pontos de referência no terreno. "É um excelente treino para a vida: tomar decisões, definir estratégias", resume Joaquim Margarido, enaltecendo a "competição sadia" promovida pela orientação, enquanto tenta juntar numa foto um orientista e o pelourinho do Crato.

No fundo, trata-se de uma modalidade que coloca todos em igualdade de circunstâncias: na hora da partida, como no decorrer da prova, há um atleta, um mapa e um terreno desconhecido para explorar. Também assim é no alojamento, por exemplo. A opção "solo duro" é comum a todas as provas, consistindo normalmente num pavilhão desportivo colocado à disposição dos participantes, que dormem no chão e utilizam as instalações durante os dias da prova. Há quem opte por ficar em hotéis ou pousadas, mas os clubes ou os grupos mais numerosos tendem a escolher o solo duro, o que contribui também para aumentar a proximidade e coesão desta "família". Mesmo tratando-se de uma modalidade tendencialmente individual, "há um grande espírito de equipa", reconhece Fernando Costa. "Os clubes funcionam como tribos", reforça.

Na orientação a idade não é factor de exclusão. Por isso, este é um desporto dos oito aos 80. Ou um pouco mais, com vontade: "Aos 90 anos, se quiser e conseguir, posso continuar a praticar", admite Tiago Aires, lembrando que "todos os anos é atribuído um prémio mundial aos atletas com mais de 90 anos". No NAOM, o norueguês Birger Garberg, com 80 anos, foi o menos jovem em prova.

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