Estamos em pleno montado alentejano, num excepcional dia de céu limpo e sol brilhante, nesta altura do ano não particularmente agraciada pela meteorologia. A vila do Crato é o cenário para o Norte Alentejano O'Meeting (NAOM), e na suave ondulação da paisagem, até onde os olhos alcançam, vemos aqui e ali pessoas a correr em todas as direcções. Mesmo ao pé de nós, passam em velocidade uns, a passo outros, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, para a frente e para trás. Homens, mulheres, jovens ou mais velhos, todos têm um mapa na mão. Alguns, de ar muito concentrado. Outros, com um sorriso aberto nos lábios.
Não são super-homens nem super-mulheres, como os participantes nas corridas de aventura e outras provas extremas. Mas alguns andam lá perto. As pessoas que vemos a correr são orientistas - praticantes de orientação, uma modalidade desportiva cujas raízes estão na Escandinávia, tendo surgido nos meios militares há mais de 100 anos. Em Portugal, o primeiro registo relativo à orientação data de 1973, quando se realizou o primeiro campeonato das Forças Armadas.
Inicialmente integrada no treino militar, desde há vários anos que a orientação tem vindo a alargar-se ao resto da sociedade. Hoje haverá perto de 5000 praticantes da modalidade no país, diz-nos o presidente da Federação Portuguesa de Orientação (FPO), António Rodrigues. Metade deles serão atletas federados, sendo os restantes praticantes que entram nos escalões abertos de orientação para todos, em que "qualquer pessoa, de qualquer idade, pode praticar em qualquer prova do calendário nacional, apesar da sua grande, pouca ou nenhuma experiência na modalidade", acrescenta o dirigente. É esse o encanto da orientação, resume o entusiasta, divulgador (mantém o blogue "Orientovar", uma "plataforma de convergência para a orientação nacional") e praticante Joaquim Margarido, nosso guia durante o NAOM: o facto de ser uma modalidade "para todas as idades, que pode ser feita individualmente ou em grupo, e a qualquer ritmo".
As diferenças de ritmo são bem patentes no terreno. Vemos os atletas de elite, sempre em corrida rápida, num vaivém, saltando blocos de granito, cursos de água, cercas, muros. Cruzam-se com praticantes mais veteranos e grupos a passo, que aproveitam para encher os pulmões de ar e tirar partido da comunhão com a natureza. Uns não desviam o olhar do mapa e só lhes ouvimos a respiração ofegante. Os outros trocam impressões sobre o caminho a seguir.
Os princípios da orientação são simples: cada atleta tem um mapa onde estão assinalados vários pontos (cujo número e distribuição diferem de escalão para escalão). O objectivo é efectuar o percurso pela ordem assinalada, o mais rapidamente possível - ou então com calma, desfrutando do passeio -, com recurso à bússola como único instrumento auxiliar, e mesmo assim não essencial. Em cada ponto (ou "baliza"), identificado pelo símbolo internacional da orientação, um quadrado dividido na diagonal em branco e laranja, há uma estação de controlo, que permite certificar a passagem dos atletas por intermédio de um chip. Tudo isto com o privilégio da paisagem, do contacto com a natureza e de percorrer trilhos normalmente não acessíveis ao público.