Fugas - Viagens

Luís Octávio Costa

Continuação: página 4 de 5

Saint-Étienne - O sítio onde as coisas caem do céu

Regressamos ao planeta terra para um almoço baseado no conceito Ninkasi. Excelente localização (Praça Jean Jaurès, perto das esplanadas, dos quiosques e do cinema independente Méliès), concertos todas as sextas-feiras, extenso programa cultural em apêndice no menu, selecção de cerveja artesanal e "pratos de qualidade, pratos generosos". O Ninkasi serve nacos de carne grelhada, salmão com molho de cogumelos e outros pratos jovens, rápidos e enérgicos. No final, oriente-se, escolha uma pastelaria e para a sobremesa compre meia dúzia de bugnes. É um clássico, nada mais do que um donut deformado com cobertura de açúcar, um doce que resiste desde a Idade Média. Mas é a prova final de que a salgada e requintada Saint-Étienne não resiste nem a um bom doce massudo, nem ao velho hábito de levar a refeição para um banco de jardim e lamber os dedos no final.

As raridades do Loire

Seis partes, 40 histórias, 60 livros, 5399 páginas. Quando Honoré d'Urfé escreveu L'Astrée, a primeira saga da literatura francesa no século XVI, e imaginou o amor perfeito entre Astrée e Céladon - que foi também a última fonte de inspiração do realizador Eric Rohmer -, lançou-se no Forez, a região que "na sua pequenez tem aquilo que os restantes gauleses possuem de mais raro". Resolvemos ampliar as buscas ao departamento do Loire.

Encontrámos prados verdes, colmo alto, pessoas hospitaleiras e com nome, e fatias doces de praluline, casas que parecem de bonecas, quintais quase minhotos, ovelhas e manadas de vacas. Com o tempo a voar (24 horas, mais coisa menos coisa), desencantámos um monte de pequenas raridades.

O plano de ataque requer rodas. Quando chegam ao aeroporto de Saint-Étienne, os turistas privilegiados têm à porta Jean-Pierre Bénier, um chauffeur e um veículo de excelência (www.ets-benier.fr) que os conduzirão ao longo do Loire, o último rio selvagem da Europa, e o mais longo rio de França, em torno das lagoas de Forez e através de uma dezena de aldeias de charme, aparentemente paradas no tempo, como Saint-Jean-Saint-Maurice, empoleirada sobre uma paisagem que esconde alguns dos mais de seis mil quilómetros de trilhos assinalados no mapa do departamento. Não há muito para ver, mas é precisamente esse um dos truques que o Loire partilha com o romance inventado por d'Urfé. Aqui há um rio a serpentear por entre os castelos destruídos por ordem do cardeal Richelieu, há bolachas gigantes (sablé) e há frescos do século XIII nas sombras da igreja de Saint-Maurice-sur-Loire.

Lá, onde a terra é sempre vermelha, os relógios param muitas vezes. Acontece no alpendre sobre o rio onde Didier e Michéle Alex alimentam pássaros e esquilos. O casal disponibiliza quatro quartos (67 euros) no seu L'Echauguette (www.echauguette-alex.com), oferece um chá na biblioteca e empresta os binóculos e o alpendre por tempo indeterminado. Acontece à mesa do restaurante Côté Vignes, em Saint-Haon-le-Vieux, onde um menu de 24 euros se disfarça de banquete real. Assim mesmo, com os nomes dos pratos num saboroso e musical francês: "Velouté de moules safranées en soupière lutée feuilletée/ Saumon mi-cuit, mi-fumé en mille feuille". Acontece invariavelmente no Chateau de Champlong (www.chateau-de-champlong.com), em Villerest. Se os primeiros vestígios remontam a 1329, Véronique e Olivier Boizet deram-lhe todos os toques de elegância e de conforto. São 12 quartos (entre os 115 e os 175 euros), 12 cores e 12 aromas (cardamomo, anis, açafrão, flor de anis, noz-moscada, pimenta de Malabar, coentros, papoila azul, alcaçuz, macis, canela e paprica), uma adega invejável (Côtes Roannaises, Côtes du Forez e Côtes du Rhône) e uma capela ainda por restaurar, misteriosa como a paisagem.

--%>