São 60 quilómetros de costa, espectaculares de uma ponta à outra e por mais do que uma razão. O destaque mais óbvio cabe à baía do Somme, rio que serpenteia languidamente durante 245 quilómetros, até finalmente se lançar na Mancha. Ocupando uma área de 72 mil hectares - um vasto triângulo que em terra se alonga por 14 quilómetros e tem uma frente de mar de cerca de cinco quilómetros -, o estuário do Somme é o maior do norte de França. Nele se sucedem bancos de areia, lamaçais, pradarias salgadas e canais de água. Além de rebanhos de ovelhas, acolhem uma profusa vida selvagem, do tipo que se dá bem em habitats de transição entre a terra e o mar. Inclui uma chusma de invertebrados, aves aos milhares e mesmo uma colónia de focas comuns.
A baía do Somme é a fractura mais dramática na linha costeira da Picardia. Para norte desenha-se um longo cordão de areias finas, amiúde bordadas por dunas que podem atingir os 30 metros de altura. Já para sul, mais precisamente a partir de Ault, arranca um longo harmónio de falésias costeiras, que só acaba 140 quilómetros mais a sul, já nas imediações do Havre. São falésias onde predomina o grés branco, estriado e cimentado por sílex, que chegam a atingir 100 metros de altura já na fronteira com a costa normanda. Quando a erosão provoca o desmoronamento destes majestosos paredões verticais, a camada de sílex estilhaça-se para formar praias de seixos, cobrindo a maior parte da faixa meridional do litoral picardo.
Ecrã de incerteza
Abrindo sobre a Mancha e o sudeste de Inglaterra (mesmo tipo de falésias no Kent), este pedaço da costa francesa fica também perto da Bélgica e a menos de 200 quilómetros de Paris. Surpreendente, atendendo a essas vizinhanças - e também à sua história como um dos primeiros destinos de praia do turismo europeu -, a fachada marítima da Picardia é a menos urbanizada de França. As estâncias balneares pouco cresceram em cem anos, não há grandes cidades portuárias, a construção de segundas casas fora dos centros urbanos é quase nula. Pouco urbanizado não é, porém, de modo algum equivalente a selvagem, pelo menos não na Picardia.
O vento raramente pára de soprar, o mar é mais frequentemente intempestivo, os ciclos das marés chegam a atingir amplitudes prodigiosas. A conjugação destas e mais forças naturais é impressionante e contribui para o programa de inconstância que a costa picarda oferece em sessão contínua. Especialmente apreciados são os degradés projectados pelas nuvens em desfile acelerado sobre os tapetes de areia da baía de Somme, bem como a gama de tonalidades laranja-avermelhadas que ganham as falésias de giz ao fim do dia.
Há, no entanto, factores menos aparentes que não param de redesenhar os cenários litorais da Picardia. A flecha costeira que vai encurvando desde Ault até à ponta de Hourdel (limite sul da baía do Somme), foi formada por camadas sobrepostas de seixos, ao longo dos últimos 5500 anos. Por sua vez, a planície de Marquenterre, na ponta oposta da mesma baía, deriva da acumulação de sedimentos transportados pelas correntes marítimas desde a Normandia. A própria baía de Somme tem vindo a ser redefinida pelo assoreamento, um processo que começou por ser natural - como se pode testemunhar na falésia morta onde assenta a cidade de Saint-Valery-Sur-Somme e que corresponde à primitiva linha litoral.