Fugas - Viagens

  • Ana Coelho, co-proprietária, fotografada na livraria
    Ana Coelho, co-proprietária, fotografada na livraria Rita Chantre/Arquivo
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A nova livraria e café de viagens de Lisboa dá a palavra ao viajante

Por Luís J. Santos

São Bento de portas abertas aos viajantes e numa antiga loja de guarda-chuvas, para maior protecção: quando menos se esperava, abriu em Lisboa um livraria de viagens, que se torna caso único. A Palavra de Viajante quer ser o ponto de encontro de todos os amantes das viagens e dos livros. E até tem um café com sabores do mundo. Extra: uma lista de dez livros de viagens sugeridos pela livraria.

É um pequeno espaço, entre o acolhedor e íntimo, num cotovelo da alfacinha e legislativa Rua de São Bento. Mas, nos seus cerca de cem metros quadrados, esta novíssima livraria de viagens, inaugurada há semana e meia e com o papel ainda a cheirar a novo, abarca o mundo todo. Por sala e meia, perfilam-se estantes de guias, mapas, literatura de viagens, todo o tipo de roteiros, alguns acessórios para o bom viajante. No conjunto, soma Ana Coelho, uma das sócias — juntamente com a amiga Dulce Gomes, propõem-se “umas centenas de referências”. "Mas o stock vive em contínuo crescimento", assegura.

A Palavra de Viajante (cujo nome nasce de um pilar fundamental da casa: a viagem contada na primeira pessoa) quer ser um portal amigável para todas as odisseias possíveis, as reais e as da imaginação. Além dos clássicos e novos guias, resume Ana Coelho, adopta "um conceito mais abrangente, com literatura de viagem, relatos de jornalistas ou embaixadores que deixaram a sua narração do que viram e viveram". Aos livros, juntam-se as comidas e bebidas no Café do Viajante, uma salinha com direito a janela para minijardim e que propõe uma ementa simples onde se conjuga a literatura com pratos e criações nascidas sob influência dos mais diversos cantos do mundo, nomeadamente dos destinos que estejam em destaque na livraria.

O rumo da palavra

Para muitos, abrir hoje uma livraria, e logo destinada ao nicho de viagens, poderia não ser a primeira ideia de negócio a ocorrer. Até há alguns meses, o Centro Comercial da Portela tinha uma livraria similar, a FXS, que entretanto mudou os seus livros para um espaço perto de Sintra, na empresa Touratech, especializada em equipamentos e acessórios para motociclos. Mas as duas amigas, sem relação profissional com as viagens — Ana trabalhava em produção de espectáculos, Dulce é professora de estatística —, decidiram não desistir deste "sonho muito antigo", resultado “da conjugação de duas paixões, naturalmente pelos livros e pelas viagens" e, "sobretudo, por livros que despertam o interesse por viajar". "Tínhamos agora condições para apostar nesta… às vezes não sei se é loucura", confessa-nos Ana.

Uma "loucura" semelhante ao início de muitas viagens: se não fosse agora, "então quando seria a altura certa?". E foi assim que partiram para esta aventura, não sem pensar "mais que duas vezes… umas três ou quatro…". Na génese do projecto, um grande livro, o Danúbio de Claudio Magris, "o historial da Europa no final do século XIX e pelo século XX aproveitando a 'desculpa' do rio". Depois de percorrerem as páginas do livro, as duas sócias realizaram, de facto, a viagem que, aliás, foram relatando num blogue — e é assim que o Danúbio acaba por tomar forma de Palavra de Viajante e desaguar em São Bento. É "uma forma muito interessante de conhecer os povos e as culturas, viajando com o livro e depois podendo fazer a viagem física", resume Ana: "Para mim, é a melhor forma de viajar". Outra viagem marcaria o nascimento da livraria e deixaria marcas decisivas: a concretização de parte do lendário transiberiano.

Em várias outras viagens, foram conhecendo modelos de livrarias e analisando as ideias de algumas "apaixonantes", como as Altair espanholas, ou a maior do mundo, a londrina Stanfords (e assinale-se também a carismática Ulysse parisiense). "Esses espaços grandes inspiraram-nos um pouco". Claro que a dimensão destas referências é outra mas o "espírito" é o mesmo.

Encontrado o local, curiosamente uma antiga loja de guarda-chuvas que foi também uma farmácia num edifício do século XIX, dedicaram-se a pesquisar o "imenso e complexo" mundo das viagens e suas escritas. "A pesquisa de novos guias e livros é contínua e a dificuldade está na escolha, todos os dias há surpresas, autores fascinantes, viagens interessantíssimas", diz Ana. "Ainda agora descobri um autor espanhol que desconhecia por completo, um jornalista do El País que foi correspondente em vários pontos do mundo, Enric González, e que escreveu uma série de livros sobre as cidades por onde passou e que são absolutamente fascinantes, com um sentido de humor extraordinário" (uma colecção de Histórias de Roma, Londres ou Nova Iorque).

É destas pequenas grandes descobertas que se farão os dias da livraria, apostada em enfrentar a concorrência das lojas online ou das grandes cadeias com "simpatia e boa disposição", sorri, prometendo um "atendimento próximo" que passa por "conhecer bem o cliente, por poder aconselhar". Não há ilusões: "Claro que a Amazon também faz isso automaticamente mas nós [fazemo-lo] em carne e osso e de forma realmente personalizada", adiantando, porém que no site também irão possibilitar a compra online. O futuro passa por "apostar muito no espaço como um sítio de convívio entre as pessoas", incluindo eventos e tertúlias, apresentação de livros ou encontros de grupos de viajantes que queiram mostrar fotografias e conversar sobre as viagens. Para breve, deverão mesmo surgir Leituras-Aperitivo, sessão que deverá inter-relacionar os destinos em destaque com a gastronomia.

A vida é uma viagem

Pelas estantes, o mundo. Há Histórias Etíopes a descansarem perto de Marraquexe. A Índia de Preste João encara Deus, o Diabo e a Aventura de Reverte. África Minha surge como uma moldura de um ente querido e aninha-se entre outras Áfricas. No centro do mundo, isto é, no centro da loja, avistava-se uma mesa turca com a Istambul de Pamuk como epicentro, rodeado de guias ou de monumentos bizantinos da cidade. O Douro mostrava-se em vinhos escritos ou num Porto Iluminado. As Memórias do Vinho harmonizavam-se com o Vale Abraão. Já Gonçalo Cadilhe descansa os seus Encontros Marcados no ombro da Odisseia de Homero. Livros de cozinha de proveniências várias cruzam-se com Ecological Hotels, o Atlas do Viajante move-se entre novas e clássicas referências da Lonely Planet ou Rough Guide, entre mapas de linhas de ferro ou de destinos menos acessíveis, como o Cazaquistão ou Camboja.

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