Fugas - Viagens

  • Pelos socalcos. Pinhão, Quinta do Noval.
    Pelos socalcos. Pinhão, Quinta do Noval. Adriano Miranda
  • Miranda do Douro, barco de turismo ecológico
    Miranda do Douro, barco de turismo ecológico Nelson Garrido
  • Miranda do Douro, Bemposta. (o pescador conhecido por Escalico, que entrou no filme
    Miranda do Douro, Bemposta. (o pescador conhecido por Escalico, que entrou no filme "Trás os Montes" de António Reis e Margarida Cordeiro, de 1976. Nelson Garrido

Tudo isto existe, tudo isto é Douro, tudo isto é mundo

Por Sandra Silva Costa

O fado está na lista de Património Imaterial da UNESCO, três vivas ao fado! Dias antes de ter sido conhecida a decisão que pôs o país a cantar, o Público brindou noutras paragens: ao Alto Douro Vinhateiro, que é património mundial há dez anos

Preparem o púlpito. E agora silêncio, por favor, que se vai contar o Douro.

Não estamos a brincar: há um púlpito que nos acompanha ao longo de um fim-de-semana que começa à mesa do jantar, na sexta-feira, e termina com jazz pouco depois do almoço de domingo. Pelo meio, Douro no copo, nos olhos, na alma - que é, dizem-nos do púlpito, onde ele mais se sente.

A 14 de Dezembro de 2001 houve festa rija no Douro, com foguetes e brindes com vinho do Porto. Na noite anterior, o então secretário de Estado adjunto da ministra do Planeamento, Ricardo Magalhães, quase não conseguiu dormir. Era praticamente certo que a UNESCO classificaria esta paisagem construída a suor e lágrimas como Património da Humanidade (Paisagem Cultural, Evolutiva e Viva) mas ainda havia uma pontinha de dúvida. Hoje temo-lo aqui, à mesa no Castas e Pratos, na Régua, às voltas com um risotto de cogumelos e uma posta de vitela duriense, um copo de 100 Hectares Tinto Reserva 2010 e um sorriso de orelha a orelha. Estamos na região para comemorar 10 anos de um Douro que pertence ao mundo e não há senão motivos para sorrir.

Será?

É o que vamos ver durante estes quase dois dias - o Douro trouxe-nos ao Douro para tirarmos a prova dos nove (seria mais correcto dizermos a prova dos dez, destes dez anos pós declaração da UNESCO, mas não queremos desvirtuar o teste de validade do cálculo manual). Connosco veio um púlpito que se transporta de cenário para cenário dentro de uma caixa de papelão e um relógio para lembrar os que cá estão que têm cinco minutos, cinco, para falar desta região que é, orgulhosamente, parte do "reino maravilhoso" de Miguel Torga.

Os organizadores deste fim-de-semana O mundo no Douro chamaram a esta performance Take 5; as 15 intervenções de cinco minutos feitas ao longo do fim-de-semana foram compiladas numa espécie de documentário que servirá (também) para assinalar os dez anos do Douro Património da Humanidade - com um programa que arranca no próximo dia 14 e se manterá até meados de 2012.

Agora sim, silêncio, que nós vamos contar o Douro. Não em cinco minutos: temos alguns privilégios, calhou-nos um tempo moderato.

Uma região paradoxal

Acordamos no sábado antes das 8h, mais cedo que o combinado com o despertador. Corremos as cortinas e vemos o Douro vestido de Outono, matizes prováveis de amarelos, castanhos, vermelhos. Não foi à toa que ficámos alojados no Aquapura Douro Valley, uma das referências da região no que à hotelaria diz respeito. É um ambiente de puro luxo rodeado de Douro por todos os lados: é verdade que dispensávamos alguns daqueles prédios mais feios da Régua, mas o que dizer das vistas de rio e de vinhas em socalcos?

Uma neblina enfeita as encostas à nossa volta, uma amostra de sol espreita entre as nuvens. Disseram-nos ontem, ao jantar, que o Douro é mais bonito no Outono e queremos ver se é verdade. Estamos na EN 222, a caminho da Quinta do Seixo - "seguramente um dos melhores enoturismos da região", apregoa António José Teixeira, presidente da Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes e da Rota do Vinho do Porto.