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Dez passeios por Guimarães, dez séculos de arquitectura(s) aos nossos pés
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O turista tradicional é "despejado" pelo autocarro na colina do castelo e do Paço dos Duques de Bragança, aconselhado a descer a Rua de Santa Maria até à Praça de Santiago e ao centro histórico, e depois recolhido no Largo do Toural para regressar ao seu destino. Não podendo esquecer este roteiro, uma visita ao património histórico e arquitectónico de Guimarães, que no sábado é investida Capital Europeia da Cultura 2012, não deve ficar por aqui. Um passeio, em 10 andamentos, guiado pelos arquitectos Alexandra Gesta e Ricardo Rodrigues.
"Ad vos homines qui venistis populare in Vimaranes et ad illos qui ibi habitare volerint". Ler uma inscrição assim em latim, e emoldurada em calçada portuguesa, aos nossos pés acrescenta alguma patine e dá até uma certa solenidade ao passeio que podemos fazer no centro urbano de Guimarães, Património da Humanidade. É também uma forma diferente de viajar no tempo, em plena Praça de Santiago. Ficaremos depois a saber, pela tradução desta frase roubada ao foral do Conde D. Henrique que deu origem à povoação (1096) - "A vós homens que viestes povoar em Guimarães e àqueles que aqui quiserem habitar" -, que a mensagem não nos é dirigida tanto a nós, visitantes ou turistas acidentais, mas aos habitantes desta terra, de quem se diz que não são cidadãos iguais aos outros.
Não foi ao acaso que o arquitecto Fernando Távora (1923-2005), com raízes familiares vimaranenses, decidiu inscrever esta frase numa das praças do centro da cidade de cujo restauro se ocupou desde que, em 1980, elaborou o Plano Geral de Urbanização de Guimarães. A sua preocupação principal, e a da equipa do Gabinete Técnico Local (GTL) constituído pela câmara em 1983, foi servir, em primeiro lugar, os habitantes do centro histórico.
"O nosso programa teve como princípio ordenador não expulsar ninguém das suas casas; simultaneamente tivemos o cuidado de refazer o antigo sem deitar nada fora", explica a arquitecta Alexandra Gesta, vereadora da autarquia e responsável, desde o início, pelo projecto de requalificação urbana do centro histórico.
Quem chega a Guimarães e percorre as suas ruas estreitas e praças aconchegadas constata que esse programa foi concretizado com sucesso. A roupa a secar nas varandas floridas, as mulheres às janelas conversando com os vizinhos, as crianças a jogar à bola na rua, as bancas às portas das mercearias, as pessoas cumprimentando quem passa, mostram que estamos perante gente da terra. E que se distingue facilmente dos habitantes que, desde o século XVIII, fizeram crescer a cidade para fora das muralhas que delimitam o núcleo classificado pela UNESCO em 2001.