Fugas - prazeresdeverao

  • Nelson Garrido
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O Douro na linha

O primeiro dos dois túneis deste percurso mergulha-nos na escuridão e há quem se instale já sem sapatilhas e meias e quem tome novos lugares, nas “varandas” das extremidades das carruagens, as duas primeiras verdes, a corresponderem às antigas primeira e segunda classes, as três últimas de madeira. Mas, e já nos tinham avisado, o vaivém é o lugar mais constante da maioria dos passageiros do comboio — para ver uma paisagem, descobrir pormenores do comboio, tirar fotos. Ou seguir a música: o grupo passa de carruagem em carruagem e há quem vá atrás como se este fosse o flautista de Hamelin. São duas canções em cada carruagem, dizem-nos entre “actuações”, sempre a mudar o reportório — que, porém, se esgota rapidamente, e ainda hoje temos na cabeça “vai tu, vai tu, vai ela, vai tu p’ra casa dela” (e não nos queixamos). “É trabalho e é prazer. É alegre e quando as pessoas alinham, é bom.”

Maria Esmeralda Pereira alinha: gosta de cantar e não evita as palmas e sorriso rasgado. “Já ia para aí dançar.” Veio com a família, filhos, noras, netos, de Barcelos, e está pela primeira vez no Douro. “Viemos andar de comboio e aproveitamos para conhecer”, conta. Um dia apenas, mas “um programa diferente”. E “um pouco caro”, reconhece Cecília Pereira, a nora, “estas coisas são sempre caras e já o tínhamos em conta”. Chegaram a ver os pacotes especiais da CP, que combinam a viagem no comboio histórico com a viagem de (e para) qualquer zona do país, mas não aproveitaram porque “tinham de sair muito cedo e tinham pouco tempo para transbordos”. Mas até há mimos inesperados neste comboio histórico: avançam cestos com rebuçados da Régua. “Quanto é?” “Nada.” Rebuçados para todos, e também água e um cálice de vinho do Porto. “Dê-me três”, ouve-se de um grupo que brinda para uma foto.

E é com o copo na mão que chegamos à primeira paragem, na estação do Pinhão, que, precisamente, se desenvolveu com o comércio do vinho do Porto — e os seus azulejos contam a história do ciclo do vinho do Porto, das vinhas até aos barcos rabelos. Paragem breve, 20 minutos, que alguns aproveitam para uma visita rápida à loja da Wine House, enquanto outros se instalam nas mesas e bancos corridos da esplanada que por estes dias promove “white Porto with lemon ice”. Maria Sofia, três anos, só quer caminhar. Veio com a mãe, Mónica Oliveira, e esta é uma espécie de viagem iniciática. “Sou de Lamego, vivo em Vila Real e sinto necessidade de fazer estas viagens pelo Douro”, conta  mãe, “e como ela é pequenina quero transmitir-lhe esta paixão”. “Já o ano passado viemos, mas em comboio normal, fomos até ao Pocinho e voltámos para a Régua”. Hoje teve sorte: “Comprei o último bilhete.”

Agora é o “Malhão” a banda sonora que invade a estação, mas a verdadeira invasão será na volta, quando o Grupo de Cantares Regionais de Fornelos mostrar que também sabe dançar. As três mulheres do grupo abandonam os instrumentos e da plataforma fazem salão de baile, perante o olhar surpreendido de turistas que se aproximam para ver e perante o entusiasmo dos viajantes ferroviários: as máquinas fotográficas erguem-se em modo de vídeo, marca-se o ritmo e os mais ousados juntam-se no bailarico improvisado.

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