Fugas - restaurantes e bares

  • Fernando Veludo/Nfactos
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Este Indústria também é espacial

Por Andreia Marques Pereira ,

Quase um ano depois do encerramento, o Indústria voltou à vida, pelas mãos de Tó Pereira, o DJ Vibe, e de Merche Romero. Encolheu e transfigurou-se. Fomos ver como é que a casa na Foz quer dar novo fôlego a um pedaço das últimas duas décadas de vida noctívaga portuense.
Este Indústria também é espacial

À meia-noite em ponto, são trazidas grades cá para fora. Cá fora é a Avenida do Brasil e do outro lado é o mar que se adivinha; deste lado, são os edifícios que fazem a primeira linha da Foz, no Porto. E neste portal largo - de uma galeria comercial - está a entrada para uma das mais míticas discotecas da cidade, que, depois de quase um ano de portas fechadas, reabriu com alguma pompa e circunstância no dia 10 de Junho.

Hoje é sábado, o Indústria voltou "à noite" dois dias antes, para mais um capítulo de uma vida já com mais de duas décadas. "Tem 22, 23 anos, não estou bem certo", avança Tó Pereira, o novo proprietário (com Merche Romero) - uma aliança óbvia, quase diríamos: uma casa mítica aliada a um dos mais míticos DJ nacionais. Sim, porque Tó Pereira responde pelo nome DJ Vibe, quando entra na cabina de som. Esta noite não sabe se o fará (nós, confessamos, não ficamos para ver). "Talvez", sorri, "é a vantagem de ter uma casa". Por enquanto, é o DJ Paul Day que assegura a música; até porque ainda é "cedo" - são duas horas, a noite mal começou no Indústria, o clube que Tó Pereira sempre quis ter.

É aos poucos que vai chegando gente aqui ao Indústria, uma "cave" na Foz, com entrada por ampla escadaria de madeira brilhante - a mesma que segue por todo o espaço. Um casal, outro casal, dois amigos, um grupo de amigos (onde não faltam umas "calças-bandeira" dos Estados Unidos e uma voz a gritar "África") vão preenchendo o espaço, que no início da noite tem mais funcionários (elas parecem ter nos micro-calções a farda oficial) do que clientes. É a altura ideal, imaginamos, para observar este invólucro - não é à toa que falamos em invólucro: o clube é quase uma caixa dentro da estrutura do prédio, como explica Tó Pereira. Tem várias peles - três, para sermos precisos -, e a cada nova pele, encolhe. Não o saberíamos dizer, mas é Tó quem o afirma. Acreditamos, claro, mas pensamos que mais meio metro em cada parede não faz assim tanta falta.

É amplo, este clube que mostra um design despojado, assinado por Nini Andrade Silva. "É industrial-espacial", define-o Tó Pereira. É fácil perceber porquê. A madeira do chão é complementada com muito metal, que surge, discreto, nos balcões e na enorme cabina do DJ (que mais parece a ponte de uma nave espacial). Na maior parede do clube, duas ventoinhas gigantes embutidas fazem-nos quase pensar que estamos dentro de uma máquina. Mas não há aqui a frieza asséptica dos cenários espaciais, nem a frieza rude dos cenários industriais: tudo está em equilíbrio para proporcionar o que mais importa, afinal - "o conforto", diz o proprietário. Por isso, há reposteiros de veludos e até uns sofás-ilhas - estão na zona "de estar"; mais, estão no espaço reservado da zona de estar, rodeados por cordões, de veludo também. Por isso, há um cuidado jogo de luzes, desenhado para cada noite - hoje, azuis e rosas, às vezes lilases.

Qualquer semelhança entre este novo Indústria e o anterior não é pura coincidência, é pura obrigação. "Não pudemos mudar a localização das casas de banho, a escada de emergência está no mesmo sítio, mas agora invisível, os bares também ocupam os mesmos lugares", explica Tó Pereira. Tudo o resto foi "totalmente mudado".

O visual é todo novo, portanto, na disposição mudou-se o que se pôde. "Esta coluna, por exemplo", aponta o nosso guia, "não a pudemos tirar [e ela tira a vista toda]. Mas a cabina do som alterou todo o design do espaço". Antes, o espaço era uno e, ao fundo, a cabina do som surgia "como um palanque". Agora, a cabina divide o clube: há a zona de estar, com um bar, e a pista de dança, um bar de cada lado e a cabina de som num dos topos, entre dois pequenos lanços de escadas.

Arquitectura cuidada

A cabina seria uma ilha, não fosse tão sólida, um bloco desenhado à medida do proprietário - e uma das peças mais complicadas, e especiais, de todo o espaço ("a arquitecta teve muito cuidado, sendo uma casa minha, a cabina tinha de ser diferente").

O exterior é revestido a metal, cortado a laser e transportado em peças, a montagem é de redondos sobre redondos, "cortes muito complicados", explica Tó Pereira - o projecto não é dele, mas o conceito é-o e ele acompanhou todo o processo de concretização. E depois da estrutura, o equipamento técnico.

O sistema de som não é novo em Portugal - já há "dois ou três" semelhantes -, mas é exactamente o que Tó Pereira pretendia. "Não é muito som, mas muita qualidade", que permite dançar e conversar na pista perfeitamente (não estamos na pista, estamos perto, e escutamos claramente a voz baixa e pausada do nosso interlocutor).

Não chegamos a saber se este Indústria renascido é a concretização do sonho de Tó Pereira, mas sabemos que em 27 anos de "noite", recebeu várias propostas para se lançar no negócio. Em vários locais. Mas tinha de ser o Indústria. Por razões de ordem "sentimental" - "sempre tive boas noites aqui. Vinha e divertia-me muito, o público da Foz é muito especial" -, e de ordem técnica - "sempre achei o espaço ideal para clube. É o pé direito, a disposição...". Um clube mesmo, não uma discoteca, sublinha Tó Pereira. E muito menos uma mega-discoteca. "Sempre soube que se algum dia avançasse para uma situação destas [comprar um espaço], queria um local mais reduzido, para termos bom ambiente".

No Indústria, a lotação não ultrapassa as 500 pessoas. Ninguém se queixa. Foi sempre assim ao longo da história da casa, outro factor que não deixa Tó Pereira indiferente. Fala na "mística" do local, daí a "responsabilidade acrescida" que sente. Fez mesmo questão de manter o nome e, pelas reacções na inauguração, com frequentadores do "passado", por enquanto esta é uma aposta ganha. "As expectativas eram altas e foram cumpridas".

Mas a inauguração com os amigos da casa (e dos proprietários passou, e agora o desafio é a gestão do público. E aqui, o factor perturbador é o DJ Vibe e o seu grupo de seguidores - não é o tipo de clientes que o Indústria espera ter, que é, a saber, um segmento de pessoas mais velhas (a partir dos 25 anos,) da classe média-alta. Tó Pereira tem noção de que vai ser "complicado", haverá "curiosidade para conhecer o espaço" e, por isso mesmo, sublinha que o DJ Vibe não é o DJ residente do Indústria. Terá, isso sim, uma residência mensal (e, já vimos, poderá improvisar sempre que lhe apeteça).

O DJ Paul Day é o residente, Miguel Quintão fará uma ou duas noites por mês. Depois, haverá convidados nacionais e internacionais - incluindo para "live acts" ("o espaço está preparado, haverá surpresas nesse sentido").

Na música, sem surpresas, o house será a religião. Sem ortodoxias, porém. A ideia é que se dance, dance, dance e para tal puxa-se de toda a cartola da electrónica, rock, pop e, até, por exemplo, bossa nova. Tudo para dar novo fôlego a um pedaço das últimas duas décadas de vida noctívaga portuense, que viu o seu brilho esbater-se com o passar dos anos. De local de peregrinação, passou a ser mais um na variedade de clubes que invadiram a cidade - voltará a ser meca?

Chegar cedo e tarde sair

As portas abrem à meia-noite, e demora a encher. Tó Pereira quer contrariar essa tendência, de as pessoas "chegarem tarde". É um propósito, à procura de meios para se cumprir. "Se calhar, não haver consumo obrigatório até determinada hora e proibir a entrada a partir de certa hora". "Talvez esta não seja a melhor altura para o fazer", reflecte, "o Verão puxa para as esplanadas". Mas, na "rentrée", esse será um hábito para enraizar - chegar cedo e tarde sair. De uma maneira ou de outra.

Brindes vínicos

Não é habitual em clubes, até porque o público nacional permanece avesso às várias tentativas de o introduzir nestes ambientes menos tradicionais, mas, no Indústria, é possível beber vinho. É no bar da "zona de estar" que a proposta surge, acompanhada de champanhe e espumante. Há a copo ("flute") e a garrafa: vinho branco e tinto Defesa, verde da Quinta da Aveleda; champanhe Möet et Chandon e espumante Esporão.

Nome
Indústria Club
Local
Porto, Nevogilde, Av. Brasil, 843 - Lj. A/F
Telefone
220962935
Horarios
Quinta a Sábado das 00:00 às 06:00
Website
http://www.industria-club.com
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