Está assim apresentado, em traços largos, o Túnel Bar, que tem apenas algumas semanas de vida. Uma das novíssimas adições da Baixa do Porto, desta feita em rua de pergaminhos nas ferragens: na Rua do Almada, antes era loja de candeeiros, agora é bar com tendências clubbing, vizinho da Embaixada Lomográfica do Porto.
De dia, passa quase despercebido (quase se poderia dizer vazio). O tal minimalismo começa na fachada, uma anódina montra de vidro que espreita para um interior curto, interrompido por parede negra e espelho.
À noite, esse espelho ganha luz e parece indicar o caminho, assinalado em pontos roxos que se estreitam como se de um verdadeiro túnel se tratasse (não é a porta que leva dessa antecâmara, exposta à curiosidade da rua, ao bar, mas há quem confunda - as verdadeiras portas, a flanquear o espelho, são tão negras quanto a parede).
"Já várias pessoas embateram no espelho", diz Afonso Pereira, divertido. Porém, aqui, o túnel é, antes de mais, conceito fundador - o túnel a sério é o que está metros abaixo, na Praça Filipa de Lencastre, o Túnel de Ceuta, e foi esse que inspirou o nome bar ("foi tão polémica a sua construção, não sei como não foi aproveitado antes...", reflecte Afonso). No início o Túnel foi, portanto, apenas um nome, depois um conceito estrutural, literalmente: se o espaço rectangular, comprido, não inspirava grandes voos, a partir do momento em que o "túnel" entrou no léxico modelou a casa, que nasceu integralmente da cabeça do seu mentor (Afonso), passando depois para o computador e daí para as mãos do arquitecto.
O resultado é este: entrados no bar, encontra-se a área de recepção com balcão, sofá; logo, estreita-se o espaço numa passagem ladeada de uma sucessão de sofás e mesas baixas que simulam cabinas e cujas paredes ostentam fotografias (a preto e branco) do Túnel de Ceuta; passado este, o espaço volta a abrir-se e expande-se numa ampla área "dançável". Há dois balcões - de formas algo caprichosas, para não ser "o habitual" -, algumas mesas altas e cadeiras (poucas: "Não queremos pessoas sentadas, queremos pessoas a dançar, a curtir a noite", explica Afonso - a área de sofás é apenas para "descanso", não imprimem um modo de estar no Túnel) a condizer (tudo de acrílico) e, ao fundo, a cabina de som a presidir a tudo, ladeada de uma área reservada ("não para VIP, para os DJ descansarem"). Tudo isto pode desalinhar-se, porém: "o espaço é dinâmico", e isto significa que a cabina é sobre rodas - pode vir até ao meio da pista, pode encostar e deixar espaço para um palco para música ao vivo.
O cenário é quase irrepreensivelmente monocromático - a preto e branco com intromissões de cinzentos (e as cores da Bacardi, uma das "parceiras" da casa, cujo símbolo se encontra pintado nos bares) - em materiais de linhas rectas, luzidias, quase futuristas - como a máquina de tabaco, versão touchscreen, cinza e negra. É, claro, programático, este domínio a preto e branco. Primeiro, porque os túneis são sem cor, betão armado; depois porque esta aparente frieza de paletas compõe a tela ideal (que é como quem diz, neutra) para a projecção de tudo e mais alguma coisa.
E, neste caso, tudo e mais alguma coisa são os jogos de luzes que pintam o Túnel das cores desejadas - com LED e com laser. Os LED simulam movimento interminável, se for essa a vontade - uma faixa central no tecto é corrida pelas luzes que aceleram e abrandam, mudam de cor ou enchem-se de cor como se estivéssemos a atravessar um túnel; os lasers desenham traços de densidades distintas a ritmos diferentes. Podem estar em sincronia com a música, sonoridades encorpadas ajudadas pelos painéis acústicos que, envoltos em tecido aveludado, negro "manchado" de branco, até parecem mais um pormenor de decoração.
Este é o invólucro, mas "uma casa faz-se dos clientes", sublinha Afonso Pereira. E são esses clientes que Afonso quer atrair e atrair "mais cedo" - a noite na Baixa começa tarde, queixa-se, deixando pouco tempo de facturação. Para atrair clientes há RP e Facebook, que dão acesso a guest lists e aos respectivos privilégios - duas bebidas grátis (refrigerantes, cerveja Heineken, água) até à meia-noite e meia (mas é só a partir da 1h00 que a casa compõe ambiente, reconhece).
E há a música, uma das grandes apostas da casa - a par da qualidade, das bebidas por exemplo (todas "premium", sublinha Afonso Pereira, da cerveja Heineken e do rum Bacardi, até à "referência", o Hipnotiq, a "bebida dos famosos nos EUA", refere: frutos naturais exóticos, premium vodka e um toque de conhaque, lê-se na garrafa que encerra um líquido azul turquesa). O house e derivados são uma espécie de religião - e a opção por esta linha foi absolutamente pragmática. "Não há casas na Baixa que toquem este estilo", avalia Afonso, "tocam mais electro". Mas esta "religião" não é ortodoxa. "Vamos ter dubstep, drum"n"bass, noites dos anos 80, house dos anos 90".
Os inícios de noite é que se lêem pela mesma cartilha, a do chill-out e deep house ("inclusive vocal") - e aqui se reconhece o bar (porque apesar das ambições dançantes, é-o, sublinha várias vezes Afonso Pereira): "Música mais calma, para estar, tomar um copo, falar". Esse é, contudo, um estado que se quer passageiro, por aqui. Afinal, o lema é dançar - e o DJ Deepsoul é o residente que tem por missão não deixar ninguém parado, com contribuições avulsas de convidados (Rui Mimoso, The Fox, Andreia Moreira Drukpa e Dibiza, Ricardo Marinheira são alguns dos DJ que já passaram pelo Túnel, trazendo diversas sonoridades).
E pela música, para a música, a programação começa a compor-se com dias definidos. À quarta-feira há dubstep e drum"n"bass, a quinta-feira vai oscilar entre os anos 80 e o soulful e deep house, à sexta-feira há um (novo) regresso ao passado, mas do house, que volta aos anos 90, já o sábado é dia para DJ convidados e o domingo, à espera de se lançar nas noites do Túnel, vai ser noite GLS (gays, lésbicas e simpatizantes).
Ainda é um work in progress o Túnel - na programação, na decoração (falta, por exemplo, um Photopoint, na recepção, novamente com temática de túnel, desta feita descendente) e no próprio conceito que Afonso Pereira (antigo proprietário do Klinica, que há sete anos encerrou não muito longe daqui, e várias experiências noctívagas) já pensa em exportar, em regime de franchising.
Indispensáveis serão o "máximo impacto à entrada", as "noites temáticas" e a "linhagem musical" (que, no fundo, reflecte Afonso, "não exclui nenhum público"), imaginamos, porque estes são os elementos que Afonso destaca neste Túnel. Mas, por enquanto, o desafio é outro: "conquistar o público da Baixa" para este "conceito inovador".
- Nome
- Túnel Bar
- Local
- Porto, Vitória, Rua do Almada, 269
- Horarios
- Quarta a Sábado das 21:00 às 04:00
- Website
- http://www.tunelbar.com