Há duas velocidades nesta Tendinha, porque o espaço até o proporciona. Há o início de noite e há a cave - pista de dança integral. No rés-do-chão é bar, reconhecível da encarnação anterior: os sofás rentes à parede em tons de vermelho a fugir para o bordeaux, mesas baixas de madeira escura e alguns pouffs (na Tendinha dos Clérigos há uma combinação de vermelho e preto; aqui é preto e vermelho e, sim, há diferença). O bar permanece na reentrância, a caixa registadora está no "toucador" branco, espelho dourado por detrás, tudo iluminado por um candeeiro-aranha que estende os braços em luz amarela fraca, de outros tempos.
Descem-se as escadas e o negro é mais avassalador. A única cor está em frente: a cabina do DJ é no mesmo vermelho esbatido dos sofás de cima e na parede por trás os desenhos são temáticos, auscultadores, notas, claves de sol. Depois, a sala é uma pista, bolas de espelhos penduradas e um longo balcão a ocupar uma parede (e nas outras paredes, esguios apoios de copos): insistimos, negro (como até é o espelho que o acompanha, fumado: "Dá uma sensação de amplitude, mas não permite que nos estejamos a mirar"), com as garrafas alinhadas dentro, iluminadas por detrás, a emitirem a cor. As paredes estão rabiscadas, mas ainda não totalmente. "É um trabalho que não vai acabar" e esse trabalho, em breve, trará LED à "cave".
Aqui é onde bate mais forte o coração da Tendinha Indiscreta. É que apesar do funcionamento-extra como bar, este é ainda um local para dançar. É um local onde a música é quem mais ordena. E as ordens são para que a Tendinha Indiscreta passe música que não se ouve nos outros bares. Isto sempre numa "onda mais pesada", afirma Alberto Fonseca - e esclarece: pesada, aqui, é pop-rock indie. Voltamos ao início, que é como quem diz, à Tendinha dos Clérigos: indie era o seu credo.
Mas os caminhos do sucesso têm estes desvios, agora "está mais comercial" e quem o diz é Alberto Fonseca. "As meninas pedem", ironiza. As meninas pedem, a Tendinha está cheia ("e isso é bom") e os pioneiros fogem para outras paragens ("isso é mau, porque estão fora das nossas portas"). Agora, a ideia é que regressem de forma indiscreta e redescubram o espírito original a dois passos do "altar"-primeiro - "não podia ser de outra forma, os clientes do Tendinha sempre circularam na Baixa". Não há concorrência porque as músicas, "alternativas", são outras - nos Clérigos a vocação agora parece ser mais a de greatest hits; no Indiscreta não se nega uma revisão da matéria dada (pouco ortodoxa, para alguns ouvidos), mas ambiciona-se também ser montra dos best of de amanhã.
E não há, portanto, assegura-nos Pedro Puré, medo de arriscar. Arriscar em novos projectos, arriscar em música não tão obviamente dançável (um pouco como aconteceu há cinco anos: não era música obviamente dançável e agora é a dança de toda a Baixa). "Há montes de coisas novas que as pessoas têm medo que não se dance", explica Pedro Puré. Procura-se a vanguarda alternativa, com um olho nas vanguardas do passado, que se deixaram de ouvir e, sobretudo, de dançar. Não é uma nova vida, é uma espécie de Tendinha reencontrada.
- Nome
- Tendinha Indiscreta
- Local
- Porto, Porto, R. das Oliveiras, 45
- Telefone
- 933347079
- Horarios
- Quinta a Domingo das 22:00 às 06:00