Fugas - restaurantes e bares

Adriano Miranda

O castelo foi para o rio

Por Andreia Marques Pereira ,

Tem 14 anos de idade e um nesta nova vida, à beira-Douro. O Costa do Castelo Rio segue, porém, com "a mesma alma", sem pretensões para chegar a um público tão ecléctico quanto as suas escolhas musicais, de tendências claramente revivalistas. E, sobretudo, feita de "calor humano"

Começou por ser uma espécie de casa portuguesa - com floreiras, janelinhas, posters de Beatriz Costa e Vasco Santana e cartazes de filmes nacionais antigos nas paredes e petiscos sobre a mesa - e depois cresceu. Cresceu literalmente - e mudou-se da esquina onde nasceu para 20 metros adiante - e metaforicamente - conquistou a noite feita de copas. E não é à toa que usamos o espanhol, é assim que nos falam - mesmo quando era casa portuguesa tinha um toque argentino: um dos proprietários veio do país das Pampas à boleia de um cunhado jogador de futebol, gostou do país, arranjou emprego num bar, apaixonou-se pela proprietária e o resultado foi (entre outros) o Costa do Castelo, que conhecemos agora na sua versão Costa do Castelo Rio. E o nome aqui diz muito: há um ano passou das traseiras do "castelo" de Leça de Palmeira para a margem do rio Douro.

Não foi uma mudança pacífica - ainda corre nos tribunais o processo que levou ao encerramento em Leça da Palmeira ("De repente, estávamos fora do Plano Director Municipal", explica Mário Gil, o "argentino") - mas foi desejada - a esperança, contudo, ainda é reabrir o Costa do Castelo e no formato original, mais casa de petiscos e menos bar transbordante para a rua em que se transformou entretanto.

É que para "baile" há este, diz, sorridente, Mário Gil. Este, a terceira vida, na marginal do Douro a poucos metros da Alfândega do Porto: dois pisos, várias janelas para o rio, "a melhor decoração possível", a par do "sorriso dos empregados", salvaguarda. É que este não é propriamente o Cheers, "aquele bar" onde todos se conheciam, porém, 14 anos de funcionamento fidelizaram clientela que nem sequer se importou com a mudança de geografia. Seguiram a "família Costa" (os empregados são os de sempre) - porque se o corpo, a "carcaça", brinca Mário, mudou, a "alma" do Costa do Castelo mantém-se a mesma: quem tem vontade de beber um copo, mesmo que sozinho, nunca está só, tem sempre alguém para conversar. E mais cedo ou mais tarde até pode tornar-se um desses fi éis que "garantem a sobrevivência do bar" e que fazem parte da família alargada que vai crescendo com o passar dos anos e o passar de testemunho: um casal (dos muitos) que se conheceu no Costa do Castelo apareceu recentemente com o filho e os filhos de outros "fiéis" já são eles próprios clientes.

Não só de habitués se faz o público do Costa do Castelo, no Porto "está a ser descoberto" e a radiografia já pode ser feita - "maiores de 25 anos, 30, 40", homens e mulheres em balanço natural. E de outros balanços, mais corporais, também se faz este bar de dois pisos: o rés-do-chão é o típico espaço para as conversas (mais ou menos) amenas, o primeiro andar é onde se solta o tal "baile", de que falava Mário Gil (e, atenção, há palco para música ao vivo) - mas ao fim-de-semana esta aparente ordem desordena-se e as conversas trocam o tom mais confidencial pela exuberância mais barulhenta e a dança pode acontecer em qualquer lado. Sim, há o ambiente acolhedor, mas "a música é prato principal", afirma Mário Gil, afirmam-no a ele os que vão. "Dizem que é variada". "Para além de que puxa sempre para o lado da saudade", acrescenta ele.

Saudade? Do passado musical, depressa compreendemos. "Não somos uma casa de novidades", explica, "queremos música de qualidade mas para recordar" - afinal, recordar é viver, e por esta altura já sabemos que aquelas faixas etárias que Mário referiu ainda não se recompuseram da onda revivalista. No entanto, há mais idades a buscar os "clássicos", mesmo os "clássicos" que não viveram - e as noites Costa Club são bom exemplo disso, refere Mário. Todas as primeiras sextas-feiras do mês, Mário Roque toma conta dos pratos e os vinis voltam a girar como se nunca tivessem saído do Indústria dos anos 90 e o house vintage volta a conquistar adolescentes e jovens. Essa é uma das noites temáticas do Costa do Castelo Rio. E não está só. E muitas vezes é ao vivo.

Ontem, a noite foi portuguesa, com os Bate Folia a tocar José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, José Mário Branco. Quando fomos era quinta-feira e a noite latina: uma banda cubana faz a festa todas as semanas, para depois dar lugar ao DJ. Salsa, cha-cha-cha, merengue (e o baile está montado), MPB e até alguns tangos; o DJ segue a linha, atrevendo-se um pouco mais. Não se esperem, contudo, os hits fáceis que enchem as frequências radiofónicas mal o Verão espreita. "Podíamos ir para as ''macarenas'' que fazem dançar", assume Mário Gil, mas isso "é la movida" (e essa guardam-na para os carnavais do ano). Espere-se algo mais na linha de Compay Segundo ou até Mercedes Sosa que nos trouxe saudade da Argentina mal entramos no bar - recebidos por um mate especial (não está à venda). "Qualidade" é a palavra que anda na boca de Mário Gil. É exigente na música que passa, no serviço, nos produtos (Mário Gil afirma que os mojitos são os melhores de Portugal - não provámos; já não é casa de petiscos, mas há tostas e bifanas), no espaço, ainda em mutação. No que já foi um armazém de frutas e depois o Lotus (afterhours), houve uma revisão geral: as paredes tiveram de ser pintadas (estavam caiadas e ao raspar para devolver a pedra à vida percebeu-se que era impossível) e agora são de duas tonalidades de vermelho (mais suave em baixo, saturado em cima) onde se vislumbram as impressões digitais da pedra, foram acrescentados compartimentos, quase como módulos, para acomodar os serviços.

A decoração é da responsabilidade da mulher de Mário Gil, com a ajuda do designer Alexandre Crista (que, além dos cartazes das festas, ajudou a concretizar as ideias da primeira): desenhou, por exemplo, as estantes serpenteantes do bar de baixo e ambos os balcões, madeira e beges em combinações fluidas. O resto, a decoração ("uma mistura de pop e rústico", "portuguesa e latino americana"), fez-se "com o que há" - inclusive algumas heranças do El Dia Que Me Quieras, o bar das Galerias Lumière em que Mário Gil soltou livremente o argentino em si e que fechou recentemente. "A decoração não vai ficar assim, está a ir pouco a pouco", revela. No rés-do-chão, as mesas alinhadas ao longo da parede serão substituídas por um sofá de ponta a ponta, o chão um dia será de madeira, como o de cima - a combinar com as traves que preenchem os tectos.

As cores são fortes, "calientes", sobretudo em cima, onde as duas janelas abrem sobre o rio e as luzes e refl exos nocturnos. Há lustres em baixo, bolas de espelhos em cima como um sistema planetário, móveis antigos pesados e baús de vários tamanhos e feitios (e ocasional toque oriental), cadeirões de veludo, espelhos desiguais, uma gaiola que só o é na frente, dourada, de papagaio, que é desenhado, uma porta dupla de madeira, pesada, que abre para uma parede de tijoleira, colunas brancas com plantas a caírem, balde com revistas - as paredes podem, ocasionalmente, estar ornamentadas com quadros ou fotografias (há exposições, ainda que irregularmente). Há muito mais. Mas não parece importar a Mário Gil: "É mais o calor humano que faz a casa". É o factor X do Costa do Castelo Rio.


"Há tanto tempo que não ouvimos isto"

Há quinta a noite é latina, já vimos, com banda cubana residente; as sextas de temáticas diferentes: a primeira do mês é house clássico, a última é In the 80''s com a dupla Popless à desgarrada a tentar provocar mais "há tanto tempo não ouço isto". Ontem foi a noite portuguesa, a próxima terá rock português, Keeny ("na onda dos Xutos"). Ao sábado, faz-se uma revisão da matéria que pode incluir r'n'b, rock, reggae, house, intromissões latinas e o que mais vier a acompanhar o ritmo da noite.

Nome
Costa do Castelo Rio
Local
Porto, Massarelos, Rua de Monchique, 15
Telefone
919745838
Horarios
Terça a Quinta das 22:00 às 02:00
Sexta e Sábado das 22:00 às 04:00
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