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Melodias à mesa em São Bento
O movimento em contra-ciclo mantém-se na restauração. Em época de cálculos e ajustes económicos em diversas áreas, o sector de comidas e bebidas continua a mostrar um surpreendente vigor, com novas aberturas a sucederem-se, sobretudo no Porto e em Lisboa.
Entre as novidades do ano na capital, está o Água Benta, que desde Maio de 2011 tem portas abertas na Calçada da Estrela e que provavelmente deve ter ido "beber" o nome ao vizinho Palácio de São Bento. Aos almoços há um menu do dia para refeições frugais, sendo o serviço de jantares o que pretende cativar mais atenções, com a proposta anunciada de haver diariamente música ao vivo dentro no universo do jazz, blues e bossa nova. Lisboa não tem muitos lugares onde se possa fazer uma refeição interessante acompanhada de boa música ao vivo. Neste contexto, o Água Benta parece querer diferenciar-se da restante oferta da cidade e por isso merece uma visita.
Na entrada, um candelabro feito de cacos de vidro dá um vistoso toque de cor que ressalta da restante decoração. Tudo o resto é sóbrio, branco, sem grandes aparatos, com a sala a destacar-se pelos arcos de granito e o painel de motivos "jazzísticos" que adorna um pequeno palco. Os cerca de 50 lugares estão bem compostos, com cadeiras muito confortáveis pensadas para prolongar tranquilamente a refeição ao ritmo de blues e companhia.
Antes dos pedidos, uma consulta à carta de vinhos, que apresenta sensatez nos preços e uma oferta aparentemente razoável com algumas boas referências - apesar da grande predominância de vinhos do Alentejo em relação às restantes regiões. Ainda assim, apresentava alguns itens rasurados, com vários vinhos cortados e outros acrescentados à mão, o que é desagradável. Equilibrada e com preços convidativos é a selecção de cerca de uma dúzia de propostas para beber a copo, faltando apenas um pouco mais de rigor nas temperaturas de serviço e nos copos, que eram de facto estéticos ao olhar mas pouco amigos do néctar.
Folheando a "partitura de mesa", encontra-se uma dezena de entradas (de 3,90€ a 12€), que vão desde o "creme do dia" até ao "presunto ibérico de bellota (36 meses) ". Inusitada é a presença de um deslocado "prato de queijos vários", como proposta de entrada! Optou-se por composições mais elaboradas, como as "vieiras coradas com creme de couve-flor e salada de tomate e pesto" (8€). O calibre menor dos seis bivalves servidos fê-los parecerem perdidos no meio do prato, no entanto destaque para o ponto certo de cocção em tamanho tão diminuto. O creme de couve-flor tinha uma textura agradável, talvez com um pouco de queijo a mais na ligação a ofuscar o sabor do legume; vinha também com nicos de tomate fresco e seco.
As "gyosas de morcela da beira com coullis de maçã" (6,80€) foram uma forma agradável e diferente de servir o típico enchido, com o interior da morcela a ser envolto em embrulhinhos rendilhados, ao estilo dos dumplings asiáticos, devidamente lacados na base e terminados ao vapor, como é costume na cozinha japonesa. A "trouxa de cogumelos silvestres com queijo da serra da Estrela sobre salada de verdes" (6,50€) eram três saquinhos de massa philo em que o risco do sabor do queijo se sobrepor ao dos cogumelos no recheio nem chegou a ser corrido, uma vez que o conjunto era discreto em ingredientes e contrastes. Ficaram de fora o "ceviche de gambas com manga", o "escabeche de codorniz" e não estava disponível o "carpaccio de lombo de vitela perfumado com azeite de trufa branca, lascas de queijo parmesão, salada de rúcula selvagem e aipo".