Fugas - restaurantes e bares

  • Paulo Pimenta
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Cabaret com alma indie

"Queria um espaço para apresentar sandes e saladas originais", explica, descrevendo o processo de inspiração ocorrido em Barcelona, onde estudou e se deixou contagiar pela cultura dos bocadillos "a qualquer hora". Fez uma espécie de roteiro informal das melhores e aqui criou as suas, acompanhou-as de saladas e deu-lhes nomes como S. Bento, D. Luís ou Douro, que não revelam os seus ingredientes mais insuspeitos, como tâmaras e mel. "Durante o dia", conta, "espreitam curiosos, mas as pessoas ainda não associam o espaço a comidas." Daí o menu, agora exibido um pequena lousa à entrada, à laia de anzol.

À noite já não está lá. Apenas uma luz escura se entrevê por detrás das grandes portas de madeira branca, vidro e delicado ferro forjado. Em noite de inauguração a multidão transborda na rua, em noite velocidade-cruzeiro faz-se e desfaz-se à velocidade de caprichos e a momentos ganha pista de dança, movendo-se mais ou menos discretamente trazendo o espírito dos primórdios do rock"n"roll para um cenário que busca inspiração nos loucos anos 20 - parisienses. Porque, diz Nelson, os anos 20 a ele remetem para a capital francesa e um bocadinho de Paris está nas paredes em fotografias, a preto e branco sobretudo, de locais e pessoas. "Não queríamos nada demasiado agressivo, apenas que se sentisse a atmosfera." 

A atmosfera boémia (e burlesca) de cabaret que encontrou nos últimos anos um renascimento em algumas cidades europeias foi, portanto, o leit motiv do espaço intensamente encarnado onde as mesas (de madeira e tampo de mármore) e os candeeiros de tecto e os abat-jours dos de pé (de veludo ou tecido, maiores ou mais pequenos, mas com "franjinhas" todos) foram mandados fazer de propósito baseados em fotografias de época; o resto do mobiliário e pormenores de decoração foram resgatados em antiquários.

Agora espalham-se nesta área ampla, que se divide informalmente na zona de estar, na parte de trás, junto às janelas com reposteiros verdes, onde as mesas dominam, e a zona de "pé", à frente, quase vazia de mobiliário e, por isso, mais dada a movimentos dançantes - mas nisto já é o público que manda porque não há qualquer intenção prévia, "é só para as pessoas estarem mais à vontade". Durante o dia, apenas na parte da frente se fuma: há só uma mesa, mas Filipa já pondera colocar mais.

Se a ideia era convocar um certo espírito de "transgressão", como refere Nelson, a pista que não o é consegue-o. E se há noites em que se dança twist é porque, apesar de manter a identidade musical do Era Uma Vez no Porto, aqui abre-se um pouco mais o registo musical. "Sempre alternativo", sublinha Nelson, "mas com mais opções". Que é como quem diz, "mais sons", desde "um pouco de bossa nova ou electrónica, sem minimalismos ou afins". No Carnaval, por exemplo, a noite aproximou-se, também musicalmente, dos anos 20, porém, em abono da verdade, a música indie-alternativa é aqui o abono de família. "Não tanto de nicho quanto no Era Uma Vez no Porto", explica, até porque este é um "um espaço mais de massas" - de abertura declarada à cidade que, curiosamente, até continua a dar preferência à bebida da casa "mais procurada desde os tempos da Foz", o mojito.

É um dos factores que ajudam, aliás, a que os dois locais não choquem, dada a proximidade geográfica. Este "acaba por ser mais transversal, mais ecléctico" - na música como no público. Foi uma questão de "perceber a sinergia entre espaços e o que se poderia acrescentar à noite da cidade". "Sem perder a personalidade "Era Uma Vez..."", acrescenta Nelson. O tal ar de família, portanto.

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