Fugas - viagens

Paulo Pimenta

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Andar, navegar, comer, dormir e não querer ir embora

O cozido à portuguesa conquista o grupo e o bolo borrachão é o acompanhamento perfeito para o copo de vinho do Porto que anuncia que o almoço está quase a acabar. Mais uma vez, temos a sensação que ficávamos por ali. A sobressaltar-nos com o comboio que passa, de repente, a caminho da estação do Pinhão. A relembrar a história da família em que José Maria Calem nos deixa entrar. A observar a grade de ferro, hoje coberta pelas glicínias, por onde as pipas saíam para serem transportadas para os armazéns de Vila Nova de Gaia. A preguiçar, sem querer saber das horas.

Navegar no silêncio

Só não adormecemos porque não queremos arriscar perder um bocadinho da paisagem. No convés de um barco inglês de 1957, com uma cadeira a suportar o corpo, o sol a aquecer o rosto e as encostas do Douro a emoldurarem o olhar, chegamos à conclusão que, afinal, é dali que não queremos sair. Mas rimo-nos, porque sabemos que vamos mudar de ideias a cada novo recanto que atravessemos. Não acreditamos, quando chegamos a bordo, que nos  poderemos sentir tentados pelos enchidos e vinho branco junto à popa, mas a brisa do rio, o silêncio e o ondular do barco que desce, devagar, em direcção à Régua, e volta a subir, antes de parar junto à estação ferroviária do Ferrão, acaba por levar a melhor. Não tarda estamos no meio do rio, a ver as vinhas agarradas às encostas para cada lado onde olhamos, salpicos de amarelo das giestas a animar a paisagem, um comboio a correr, rasinho à água a caminho de mais uma estação. E um vinho branco a refrescar-nos a garganta.

Quando deixamos o rio, a terra começa a ganhar tonalidades douradas. O sol está a começar a descer e, ao chegarmos à Quinta do Crasto, no topo de uma encosta em frente ao Douro, torna-se claro que o dia está a fugir de nós em largas passadas. A prova de vinhos, desta casa e da Quinta do Espinhal de Baixo, decorre quando a modorra boa do cansaço começa a apoderar-se da terra e de nós. E já não sabemos se gostamos mais de um branco ou de um tinto, mas sabemos que adoramos um vinho do Porto.

Terras de Torga

No dia seguinte não caminhamos. Num miniautocarro capaz de cruzar as estradas estreitas que rodopiam em torno das vinhas, partimos para São Martinho de Anta. Aos poucos, deixamos para trás a paisagem suave e a presença do rio, para nos embrenharmos na terra de penedos bravios onde nasceu Miguel Torga. Mesmo antes de chegarmos ao centro da vila, apontam-nos o local onde está a crescer o Espaço Torga, projectado pelo arquitecto Souto de Moura. A casa onde o médico e escritor viveu é de uma simplicidade desconcertante. Branca e azul, de um piso só, não está aberta aos visitantes, ainda que apeteça mesmo imaginar que as portadas estão abertas e que podemos espreitar pelas janelas. No centro da vila, morto e enorme, rodeado de placas oferecidas em memória do escritor, está o negrilho a que se referiu nos seus livros e que, diz a lenda por aquelas paragens, secou no dia em que Torga morreu. Para lá da vila, ficam as terras cobertas da planta bravia a que o escritor roubou o sobrenome, para usar como pseudónimo, e a Capela de Nossa Senhora da Azinheira, com os seus castanheiros centenários e o cruzeiro próximo onde, dizem, Miguel Torga gostava de procurar inspiração.

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