Ao longo de percurso percebemos - como se os olhos já não nos tivessem dito -, que a organização das vinhas não é sempre a mesma. Não se espalha apenas por socalcos. Também há videiras em patamares ou em altura. E há oliveiras que, às vezes, se juntam em pequenas manchas de verde, mas de onde ninguém colhe a azeitona, porque não é rentável.
De Provesende para o Pinhão a temperatura pode variar, às vezes em cerca de cinco graus, explicam-nos, e isso reflecte-se na paisagem. À partida, os troncos das vidreiras quase não têm verde. Há folhas pequenas a despontar, mas ainda tímidas. Com a aproximação do final do percurso, as folhas de um verde ainda fresco tornam-se maiores e mais pesadas. Lá em baixo, a uva ficará pronta para a apanha mais cedo, não há dúvidas.
O guia vai parando amiúde, afagando uma ou outra planta. Uma urze. Um medronheiro. Uma flor de rosmaninho. Uma esteva. Há encostas inteiras cobertas por esta flor branca, de olho central amarelo, que, por altura da Páscoa, ganha cinco manchas vermelhas nas pétalas. As "cinco chagas de Cristo", como lhes chamam por aquelas bandas, por causa da altura em que surgem. As encostas cobertas de flores, de onde já ninguém procura arrancar vinho, também são história. Chamam-lhe "mortórios" e há quem defenda que devem permanecer para sempre assim, para que as pessoas não esqueçam.
Porque os "mortórios" são espaços abandonados aquando da praga da filoxera, em meados do século XIX, que marcou para sempre o destino do Douro. A paisagem típica da região, que o homem afugentou das colinas pintadas de vinha à força, voltou a crescer ali livremente e a recuperação dos muros centenários seria demasiado complexa para justificar a extinção destes espaços de vida e de morte.
O calor torna-se mais intenso, à medida que o rio Pinhão se vai aproximando - a paragem para comer o pão que guardamos no saco ainda quente chega na hora certa, para repor energias. Na paisagem, as quintas dos produtores vão-se multiplicando. As encostas parecem crescer sobre as nossas cabeças, à medida que o rio passa a ser uma constante cada vez mais próxima. Quando já se vê o local onde rio Pinhão se une ao Douro, sabemos que a caminhada, pelo meio das encostas que nos habituámos a conhecer apenas como uma imagem para onde se olha, está a chegar ao fim. E queremos e não queremos. Mas o cheiro a glicínias que inunda o ar da próxima paragem (há cheiro que lembre mais a Primavera do que o das glicínias?) desfaz as dúvidas. Agora, queremos ficar ali.
Comer com os Produtores
O almoço está marcado para a Quinta da Foz. A casa da família Calem - hoje já sem a propriedade da marca de vinho do Porto e dedicada ao fabrico de vinhos de mesa - é um refúgio fresco, que só não está colada ao rio porque a linha de caminho-de-ferro se intrometeu entre os dois. Colocada num pátio coberto por uma ramada, a receber a brisa fresca do Douro, a mesa está posta, e os vinhos da casa começam a circular. Há tintos, brancos e rosé. A casa deverá ser transformada para receber alojamento, mas para já está aberta a visitas guiadas: à capela do século XVIII, ao pequeno museu vinícola, aos lagares antigos e modernos, à adega e à loja.