Fugas - viagens

Adriano Miranda

E se tirássemos uma fotografia à Lua?

Por Patrícia Carvalho (texto)

Não foi bem à primeira, mas Patrícia Carvalho ficou fascinada quando espreitou pelo telescópio e descobriu Saturno ali mesmo à frente. Depois andou à procura de Cassiopeia e na manhã seguinte comprovou que o Sol é de um amarelo forte e intenso. Acampar no Planetário do Centro Multimeios de Espinho significa dormir num saco-cama mas é uma noite cinco estrelas.

Assim que as luzes se apagam, percebem-se com clareza os diversos ruídos que nos rodeiam. De grilos e outros insectos, do sino do campanário que dá as horas certas. Duas, três da madrugada... Por cima da nossa cabeça, o céu coberto de estrelas chama pelos nossos olhos, até estes não aguentarem mais de cansaço. Então, umas miúdas no saco-cama ali ao pé soltam uns risos abafados e mexemo-nos para nos acomodarmos melhor ao chão duro tornado um pouco mais suave pela alcatifa que cobre toda a sala. Porque (já nos esquecíamos de dizer) estamos dentro de uma sala. No Planetário do Centro Multimeios de Espinho. E o céu é a fazer de conta. E os ruídos são uma gravação. Mas quem se lembra disso quando parece tudo tão real?

O dia tinha estado, quase sempre, encoberto. Nuvens espessas e carregadas cobriam o céu, libertando, raramente, uma pequena descarga de água. Por isso, havia fortes probabilidades de que algumas das iniciativas previstas para o Acampar no Planetário não se pudessem realizar. Esta foi apenas a segunda vez que o centro organizou um evento deste género, e durante a primeira, no ano passado, o tempo também não tinha ajudado, impossibilitando as observações do céu agendadas para a noite e a manhã.

Quando os participantes começaram a chegar, carregados com sacos-cama e mochilas nas quais escondiam pijamas, chinelos e escovas de dentes, não havia ainda a certeza de que a primeira iniciativa da noite uma visita ao Observatório para ver Marte, Saturno e a Lua fosse um sucesso. Não é por isso de estranhar que Lina Canas, uma das responsáveis pelo evento, desse início às actividades com uma frase bem-disposta: "Estamos com sorte, o céu abriu completamente".

O fascínio pela Lua

O chão do planetário estava lotado de crianças e adultos, por isso o grupo foi dividido em dois. Metade subiu ao observatório e a outra metade permaneceu na sala quentinha, liberta de cadeiras a ver o primeiro filme da noite: Acampar com as estrelas.

O primeiro grupo seguiu Marco Silva por corredores e escadas que, habitualmente, os visitantes do planetário não percorrem. Por trás do palco do Centro Multimeios, ao longo de um corredor semi-ocupado por cadeiras, por um lance de escadas e outro e outro. Até estarmos no exterior, em cima de uma plataforma cujo centro estava todo ocupado por um telescópio e com algumas estrelas pequeninas a brilhar por cima das nossas cabeças. O entusiasmo de Nuno Carvalho era ainda maior do que o de Lina: "Parabéns pela sorte enorme que tiveram. Esteve o céu o dia todo encoberto e às 21h00 começou a abrir. Estão visíveis dois planetas, Marte e Saturno."

Depois das explicações do astrónomo, um a um, os participantes foram atravessando a plataforma até chegar o momento de espreitar pelo telescópio. Confessamos: o primeiro visionamento não foi bem o que esperávamos. Quando, finalmente, pudemos procurar Marte, tudo o que encontrámos foi um pontinho de luz, avermelhado, muito lá ao longe. Uma bolinha perfeita, mas demasiado longínqua para a identificarmos com um planeta. Nada que afectasse Beatriz Costa, de oito anos, que aceitou "toda entusiasmada" o convite da avó Arminda, de 66 anos, para ir passar a noite ao planetário. "É mesmo fixe, um bocadinho vermelho", dizia, sorridente.

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