O texto introdutório da monografia foi na altura assinado por Michel Toussaint, que se prestou a rever as notas e a guiar o passeio pela Sesimbra de Conceição Silva. À entrada do Bloco do Mar, Michel começou por vincar a novidade que este projecto constituiu em Portugal, destacando-se como uma das primeiras expressões nacionais de uma tipologia arquitectónica que então despontava um pouco por toda a Europa do Sul: o aldeamento turístico moderno, conjugado com certo ideal de comunidade e de rusticidade, que Conceição Silva primeiro experimentou em Sesimbra e depois desenvolveu na Balaia, Algarve.
Empreendimento de escala modesta e concepção relativamente simples, o Bloco do Mar integra cinco dezenas de apartamentos. Mas não sofreu alterações de fundo em quase meio século, encontrando-se hoje em notável estado de conservação, o que o torna perfeito para uma introdução a Conceição Silva. As portas que se abriram para a excursão matinal puderam ilustrar a inovação que na altura representou, nomeadamente nas salas comuns com cozinha integrada, sintomáticas de um modo de estar informal, próprio das férias, que viria a contaminar os hábitos de vida nos próprios centros urbanos.
Já o Bloco de Abrigo, situado a poente, no extremo oposto da vila, é um empreendimento com outra escala, que integra 120 apartamentos debruçados sobre o porto. E se o Bloco do Mar assentava na repetição de pequenas moradias individualizadas, aqui há já uma lógica de sobreposição de apartamentos em altura. Diferentes sob vários aspectos, os dois aldeamentos assinados por Conceição Silva em Sesimbra partilham de alguns traços essenciais, em particular do sistema de acesso, que em ambos os casos se faz por galerias. Alternativas aos acessos verticais (escadas, elevadores), as galerias foram pensadas como espaços de convívio, expediente pouco comum na habitação urbana da mesma época.
Tem tudo a ver com a chamada Revisão Crítica do Movimento Moderno, de que Conceição Silva foi embaixador em Portugal. Ou seja, estes são projectos que, sem porem em causa os princípios racionais da arquitectura moderna, fizeram questão em adaptá-los às condições locais. Nesse sentido constituem uma segura valorização da vila e é preciso dizer que o arquitecto não apenas deixou obra, mas também um projecto de crescimento turístico para Sesimbra.
Muito à frente do seu tempo, Conceição Silva propunha que a ocupação turística se desenvolvesse para poente, de modo a preservar a vila histórica e a relação com a sua extraordinária envolvente natural. Ou seja, ele previa e desejava que o turismo viesse alterar Sesimbra, mas que por isso mesmo deveria produzir uma arquitectura com princípios. É hoje bem evidente até que ponto ele tinha razão, mas também até que ponto as suas advertências caíram em saco roto.
O hotel visionário
Chegados ao Hotel do Mar, primeira obra de vulto de Conceição Silva e principal ícone de arquitectura de Sesimbra, fomos informados que a presente unidade hoteleira é substancialmente diferente daquela que ele inicialmente planeou. Quando foi inaugurado, em 1963, o hotel era um edifício esculpido na colina, discreto e singular, apenas rematado no topo com uma pérgula, de forma que mal se via da estrada. Um ano depois surgiu uma piscina a céu aberto, aos pés do prédio original, sobre a qual foi construído um segundo conjunto de quartos, também em socalcos, recuados em relação à marginal.