Fugas - viagens

Daniel Rocha

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Sesimbra depois de Conceição Silva

Mas houve ainda uma terceira fase de construção no Hotel do Mar, muito posterior (1989), já não da autoria de Conceição Silva, mas do seu antigo associado Maurício Vasconcelos (1925-97), que com ele colaborou no Aparthotel de Quarteira, em 1964, e no Hotel da Balaia, em 65. Esta ampliação é uma história muito diferente, sobretudo no que respeita à presença bem mais acentuada das novas construções na encosta, que de algum modo contraria o espírito de integração na paisagem que norteou o projecto inicial. Nada poderia tornar essa diferença mais evidente que o visionamento de ...E Era O Mar, exibido da parte da tarde da visita guiada, no Cineteatro João Mota, na baixa de Sesimbra.

A história do filme e da sua recuperação davam outro filme, resumido antes da projecção pelo seu autor João Fonseca e Costa. Pois em 1966, Conceição Silva encomendou-lhe um documentário publicitário sobre o Hotel do Mar, desses que na altura passavam nas salas antes da projecção dos filmes. Naquela que haveria de ser a sua estreia como realizador, Fonseca e Costa decidiu prestar justiça ao arquitecto numa sucessão de imagens sem palavras, antes acompanhadas pelas variações sinfónicas de César Frank. Foi (e ainda é) uma ousadia, na altura mal recebida pelo dono do hotel que pagou a "publicidade" sem legendas. O filme desapareceu de circulação e o próprio cineasta nunca mais lhe pôs os olhos em cima, até que a Cinemateca desencantou milagrosamente uma cópia, mesmo a tempo do passeio em honra da Sesimbra de Conceição Silva.

O que... E Era O Mar mostra de forma heterodoxa, mas exemplar, é toda a beleza natural e cândido pitoresco da Sesimbra em que o arquitecto se inspirou e onde tão harmoniosamente inscreveu o seu Hotel do Mar. Subentendido: essa Sesimbra idílica não existe mais, tudo já não passa de uma fita de outros tempos. E, por este andar, nem sequer a integridade da obra de Conceição Silva está minimamente garantida, como se pode testemunhar logo no passeio da manhã. Em plena marginal, colado a nascente ao Hotel do Mar, está em construção aceleradíssima (como que para evitar a classificação) uma nova unidade hoteleira. Este edifício, disseram-no vários arquitectos em presença, está autenticamente a emparedar a obra de Conceição Silva e a diminuir a qualidade da estadia naquela unidade hoteleira.

Já se vê que o debate sequente à projecção do filme não poderia ser pacífico. Michel Toussaint começou por recordar que "quando o Hotel do Mar foi construído era um exemplo de excelência. Ficou na memória de toda a gente, mas não foi propriamente seguido. Sesimbra evoluiu entre o turismo desqualificado e a suburbanização da própria vila - os modelos do subúrbio lisboeta estenderam-se a Sesimbra e era isso que ele queria evitar".

Razões para não classificar

A classificação do Hotel do Mar e do Bloco do Moinho como imóveis de interesse municipal foi primeiro sugerida pelos deputados do Bloco de Esquerda eleitos em Sesimbra. Daí resultou uma moção aprovada por unanimidade, em assembleia municipal de Novembro de 2007. No entanto, o executivo sesimbrense acabou por não viabilizar nenhuma das classificações, por razões que viriam a ser expostas no debate por Augusto Pólvora, presidente da câmara eleito pela CDU e ele próprio arquitecto.

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