Fugas - Viagens

Daniel Rocha

Extremadura - Olhem, é uma cegonha negra!

Por Ana Rute Silva

Dos grifos aos imponentes abutres, a região da Extremadura espanhola é a casa de centenas de espécies de aves e, por isso, território obrigatório para os fervorosos birdwatchers. No Parque Natural de Monfragüe, a Fugas também se entusiasmou quando avistou Chony

Vamos num autocarro que parte de Plasencia bem cedo em direcção à Sierra de Gata e à Reserva Borbollón. A cidade, com a sua monumental catedral, concluída no século XIV, fica para trás e a paisagem rural predomina. Vêemse oliveiras e a terra está coberta de água. Johann, um jornalista alemão, exibe uma gigantesca teleobjectiva, ganhando de imediato a alcunha de paparazzi. O grupo de jornalistas e operadores turísticos convidados pelo turismo da Extremadura espanhola para conhecer alguns dos percursos ornitológicos mais ricos da região está equipado a rigor: sapatos de caminhada resistentes, casacos quentes mas leves, de cores verde e castanho que se confundem com a paisagem.

Há algumas regras básicas que um observador de aves deve seguir. Uma delas é evitar perturbar as aves no período de nidificação. "Um adulto assustado durante a incubação, ou quando as crias são pequenas, pode retroceder, arruinando a descendência de um casal", lemos num guia de roteiros ornitológicos, editado pela Junta de Extremadura. As caminhadas devem ser silenciosas porque só assim nos apercebemos do canto dos pássaros, essencial para distinguir espécies. As roupas, discretas, sem impacto visual. É melhor andar a pé e levar binóculos ou telescópio: assim não precisamos de nos aproximar muito das aves e é mais fácil distinguir espécies.

Cerca de 75 por cento da área da Comunidad Autónoma de Extremadura está classificada como IBA (Área Importante para Aves). É uma das regiões mais ricas na Europa Ocidental, com mais de um milhão de hectares de Zona de Especial de Protecção para as Aves (ZEPA) e alberga 35 por cento das espécies europeias protegidas.

À medida que o autocarro avança, o entusiasmo cresce. Um pássaro rompe o céu e alguém grita. Os binóculos já estão nos olhos e fazem-se listas de espécies de pássaros que é possível avistar ao longo do percurso (estorninhospretos, abutre do Egipto, abutre preto, cegonhas, gansos ou patos). Fevereiro e Março são meses de grande dinamismo para estes animais, talvez os mais fáceis de observar em plena natureza. Com o aproximar do Verão, começam a chegar vindos de África, explica Godfried Schreur, guia holandês que vive há anos em Espanha. Empresta-me uns binóculos, que guardo na mochila. Vão ser muito úteis mais tarde.

O percurso de autocarro demora, pelo menos, meia hora. Paramos para uma visita ao parque de campismo da Sierra de Gata, mas não há condições para grandes passeios. A chuva cai impiedosa. Ficamos a saber que o parque é frequentado sobretudo por crianças que invadem a Sierra de Gata nos meses de Verão para aprender tudo sobre compostagem, colocar ninhos e observar a mata botânica autóctone.

Nikolae senta-se na esplanada do café abrigado da chuva e começa a desenhar. O seu trabalho na revista Vögel (pássaro em alemão) é reproduzir espécies de animais e paisagens e ele é capaz de estar horas a espreitar no telescópio, sentado num banco incorporado numa prática mochila a desenhar, em detalhe, o que vê. A chuva não é amiga dos birdwatchers. Johann explica que os pássaros precisam de muita energia para voar e, por isso, preferem ficar abrigados. Sem aves à vista, Nikolae desenha a paisagem verde.

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